Shadow

16º Domingo do Tempo Comum – Ano C

Por: Quininha Fernandes Pinto

Leituras: Gn 18,1-10a – Sl 14 – Cl 1,24-28 – Lc 10,38-42

Em todas as civilizações antigas, especialmente entre os povos nômades, a hospitalidade é sagrada, é um ato religioso. Israel faz não só uma leitura religiosa da hospitalidade, mas uma leitura de fé; o estrangeiro é um memorial vivo, lembra que outrora também foi estrangeiro e escravo no Egito, que foi peregrino no deserto e que está na terra de passagem. Neste domingo as leituras querem nos levar a uma reflexão sobre a casa/coração do cristão e a hospitalidade.
Na narrativa de Abraão – cf. A 1a leitura – o estrangeiro é o “outro”, que remete ao grande “Outro” por excelência, que é Deus. O Deus da fé é o “Forasteiro”, o “Absolutamente -Outro” e que, no entanto, está próximo, visita o ser humano e revoluciona a sua vida. No evangelho, Jesus se mostra como hóspede. Mais de uma vez Ele foi convidado à casa de publicanos e pecadores e, sempre, foi acolhido com solicitude e desinteressadamente. A sua presença entre eles é o sinal vivo do amor de Deus; é um convite à conversão. Comer juntos é sinal de comunhão. Para comer com Cristo é preciso na verdade, converter-se, mudar a direção.
Jesus não se comporta como hóspede comum; também quando é recebido por amigos de longa data como Marta e Maria, Ele exige atenção especial à sua mensagem e à sua pessoa. Acolher Cristo-hóspede é principalmente “ouvi-lo” – como Maria o fez – pôr-se em atitude de receptividade, mais do que de dar, como Marta, preocupada com os afazeres da casa… Jesus se manifesta sempre como “o forasteiro”, que tira toda segurança e quer a renúncia total, que lança bases sólidas na linha do amor ligado ao reconhecimento dos outros como diferentes de si. A hospitalidade cristã, como acolhimento da presença transformadora “do outro” na própria vida e sobretudo como aceitação do “outro por nós” mesmo sendo nosso inimigo, é sinal privilegiado da fidelidade ao mandamento novo, sem fronteiras. O mandamento do amor ao próximo, como vimos no domingo passado. Hospedar o outro é hospedar Cristo. Uma das características da nossa civilização urbana ainda é o anonimato. Moramos no mesmo edifício e não nos conhecemos, nos identificamos pelo número do apto: a moradora do 901… quando compramos alguma coisa num estabelecimento, antes de saber o nosso nome, perguntam o nosso CPF. Assistimos a uma crescente privatização da vida familiar e social, a uma fuga acelerada para o privado, para as “ilhas dos condomínios” e nos adaptamos passivamente. Em contraste, expomos em excesso nossa vida nas redes sociais pois lá podemos vender “a imagem” que melhor nos agrada. Tanto o anonimato quanto a exposição midiática são realidades ambíguas; se, por um lado é uma condição alienante, por outro, pode tornar-se condição de liberdade ou de uma pseudoliberdade… também escravizante!
Vale refletir estas situações a partir do tema da hospitalidade. Como lido com a minha verdadeira imagem? O tão sonhado direito à privacidade me ajuda na construção do meu “eu interior” ou é um subterfúgio para uma interiorização que exclui o “outro” da minha vida e do meu processo de humanização? O trabalho, as atividades domésticas – atitude de Marta – não são, em muitos casos, mecanismos de fuga para eu não me comprometer com a Boa Nova do Evangelho – atitude de Maria – e, consequentemente, não me envolver com as questões políticas e sociais que exigem dos cristãos uma postura acolhedora, firme e responsável? A hospitalidade cristã implica abrir-me àquele/a que quer tornar-se hóspede, na minha casa, no meu coração, na minha vida. Um hóspede que independente do nome que tenha, chama-se Jesus! Que saibamos acolher e escolher a melhor parte. Amém. Bjs 😘 no coração ❤️

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