A concreta poesia que brota da “Fila do Povo”

A concreta poesia que brota da “Fila do Povo”

Por Gibran Luis Lachowski

 

Onde tem CEBs tem que ter “Fila do povo”. Marca registrada nos eventos das Comunidades Eclesiais de Base, a palavra aberta aos participantes fala de tudo. Tem crítica, elogio, poema, canto, lamento, riso, ponto decorado e improviso. Tem grito, tem coro, tem silêncio e tem choro. Tem povo.

Por isso a indígena tupinambá Nádia Akauã fez de tudo nesta quinta-feira, 25, pela manhã, no ginásio Moringão, região central de Londrina. Cantou, dançou, pajeou, falou duro.

“Precisamos combater a prática dos evangélicos e carismáticos, de só rezar e não vir pra luta com o povo. A igreja não pode ficar em cima do muro. E temos que estar unidos. Quando os indígenas fazem ocupação em Brasília, só os quilombolas estão juntos”. Mestra de tradição oral na Bahia, Nádia, 50 anos de vida, foi várias vezes aplaudida.

Juvenal Paiva da Silva, 53 anos, apontou o dedo, bradou e conclamou o povo que estava na arquibancada. Coordenador das CEBs da Diocese de Rondonópolis-Guiratinga (MT), lembrou a condenação do ex-presidente Lula ocorrida ontem no Rio Grande do Sul pelo Tribunal Regional Federal-4 no caso do tríplex do Guarujá. Não se intimidou. Pôs pra quebrar.

“Não podemos nos calar diante de um julgamento parcial como esse. Temos que gritar contra tudo isto que está ocorrendo no Brasil, esse ataque aos nossos direitos. A igreja não pode se acovardar. Por isso eu digo: ‘Lula, guerreiro do povo brasileiro!’”. Foi o que ele disse três vezes, sendo acompanhado por parte indignada da assembleia.

Vera Lúcia Lopes, 65 anos, presidenta do Conselho Municipal de Promoção e Igualdade Racial de Osasco (SP), denunciou a política do embranquecimento. Reclamou da abordagem universal que as CEBs dão às questões sociais e culturais. E mostrou a importância de contemplar as questões específicas de cada minoria.

“Eu não aceito a política do embranquecimento! Isso vem da época da colonização do Brasil, há 500 anos. No cartaz da Campanha da Fraternidade de 2018 não tem cabelo rasta, cabelo com trança, só gente miscigenada. As CEBs contemplam sempre o universal, mas devem também olhar o específico. Olhe a pobreza e verá que a maioria está no meio da população negra. Olhe o genocídio da juventude negra, a morte das mulheres negras nos partos…”.

Fila do povo prova que não deixamos de ser críticos… somos um só mas nem por isso somos unânimes em nossas opiniões. E é assim, pondo a boca no trombone, que a “Fila do Povo” anda… Porque ela é um momento em que a palavra flui, para concordar ou discordar, acirrar ânimos ou consolidar um pensamento. Desta forma, caminhamos na utopia e enriquecemos o debate, enfim.

 

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