A Espiritualidade Libertadora de Jesus de Nazaré

Quem pratica o amor o faz com liberdade, não espera nada em troca, não impõe condições e limites, apenas ama a todos, assim como Jesus nos amou.

A experiência da prática de espiritualidade da igreja cristã na história tem demonstrado um esforço da grande parte do povo de Deus em buscar uma espiritualidade individualista marcada pelo reducionismo que aponta para uma relação Deus-homem/mulher. Como igreja, nossa história é pontuada pelo esforço pessoal em uma relação individual com Deus na linha unicamente vertical em detrimento de um encontro com o outro, em uma perspectiva comunitária na dimensão de um novo horizonte. Um cenário que se caracteriza pelo individualismo religioso, sem perspectivas de uma vida comunitária que acolhe, compartilha e encarna na vida o evangelho libertador de Jesus de Nazaré.

As palavras de Jesus no Evangelho de Marcos nos animam na busca de uma nova espiritualidade. Jesus exalta o amor como o maior mandamento que transcende toda a lei o os profetas. É na força do amor que o ódio, a opressão, a divisão e a exclusão são superados. Jesus desafia seus discípulos e discípulas à prática do amor que é supremo, que vence as barreiras do preconceito e do individualismo.

“Amarás, pois, ao Senhor teu Deus de todo o teu coração, e de toda a tua alma, e de todo o teu entendimento, e de todas as tuas forças; este é o primeiro mandamento. E o segundo, semelhante a este, é: Amarás o teu próximo como a ti mesmo. Não há outro mandamento maior do que estes”. (Mc.12:30,31)

O mandamento de Jesus supera em muito a espiritualidade dos religiosos de sua época. A prática de amar a Deus e ao próximo é um rompimento radical com a velha doutrina do pensamento judaico/fundamentalista que obrigava as pessoas a amar apenas os seus pares e odiar os inimigos. Jesus desconstrói essa doutrina e aponta para o amor incondicional e verdadeiro, com base na liberdade (Lc.6.27-36). Jesus ensina que amar a Deus implica diretamente em amar o nosso próximo que pode ser também nosso inimigo. Não pode haver uma dicotomia pois os dois mandamentos se completam em um (v.30). Quem pratica o amor o faz com liberdade, não espera nada em troca, não impõe condições e limites, apenas ama a todos, assim como Jesus nos amou.

A maneira concreta para uma práxis da espiritualidade cristã completa-se quando temos um encontro com Deus e com o nosso próximo. Uma nova espiritualidade que vai muito além do cumprimento de códigos, ritos e dogmas estabelecidos pelo sistema religioso. Uma nova vida que é demonstrada na caminhada com as pessoas, principalmente com o pobre. Esta nova espiritualidade deve ser vivenciada em nós nos mais diversos lugares. No bairro onde moramos, na família, no trabalho, na sala de aula, nas comunidades periféricas onde atuamos e nos encontros onde expressamos a nossa fé. É nos diversos encontros da vida que se manifesta essa espiritualidade libertadora que acolhe, compartilha, que é misericordiosa e fraterna, que desfruta da liberdade de amar a todos/as.

Uma espiritualidade libertadora celebra e exalta a vida. Valoriza as pessoas e reconhece o seu grande valor como ser humano. Esta foi vivida intensamente por Jesus de Nazaré. Por isso, Jesus preferiu caminhar com o povo em vez de centralizar suas energias no templo. Jesus foi para a Galileia e lá iniciou sua caminhada de libertação. Um lugar de esquecidos, de diversidade e desafios libertários. Para Jesus, a vida estava acima de todas as observâncias da lei e do seu rigoroso cumprimento, e por esta razão, convida as pessoas a aprender com ele sobre mansidão, humildade, amor e libertação da opressão (Mt.11.30). Uma caminhada a partir do povo, de baixo para cima, da Galileia para Jerusalém, centro do poder.

Os que se ajuntam para o seguimento de Jesus, são em sua maioria do grupo dos oprimidos. São os camponeses, os doentes, os leprosos, as prostitutas, os possuídos por espíritos malignos, as mulheres pobres, as crianças, escravos e empregados do baixo escalão do estado, como no caso dos coletores de impostos e soldados que estavam a serviço de Roma. A ala dos excluídos, vítimas da opressão dos poderes do estado e da religião compões o grupo dos seguidores do caminho. Essa nova espiritualidade de libertação e amor, construída longe do templo e de seu controle sobre as pessoas, caracteriza uma revolução da parte de Jesus em um contexto de exclusão aos mais pobres. É a chegada do reino de Deus, que aponta para uma nova esperança.

A igreja cristã de hoje tem buscado viver a espiritualidade, e não são poucas as formas e entendimentos. Ir ao templo, orar, ler a bíblia e buscar o poder de Deus para resolver questões pessoais são algumas das diversas formas de espiritualidade hoje. Mas qual espiritualidade Jesus nos ensinou e viveu? Nos diversos encontros da vida, quem temos encontrado? Nossa caminhada está seguindo os passos do seguimento de Jesus de Nazaré, que caminhou com os pobres vítima da opressão? Estamos acolhendo a todos/as para a construção de uma nova espiritualidade libertadora?

Marcos Aurélio dos Santos