Transfigurar o nosso olhar: Ver no rosto do outro, o Rosto de Jesus.

2° Domingo da Quaresma -Transfiguração do Senhor

Celebramos a Transfiguração do Senhor. Jesus sobe à montanha para rezar com Pedro, João e Tiago e, enquanto rezava transfigurou-se: seu rosto iluminou-se e suas roupas ficaram brancas como a neve… muitos de nós interpretamos esta passagem ao pé da letra, pois para Deus tudo é possível. No entanto, para a cultura moderna é uma página que soa estranha e inverossímil. Entendê-la é importante. Trata-se de um relato com recursos literários apocalípticos e teofânicos, que quer dizer, relatos teológicos que narram como interpretaram esta revelação, uma mensagem deixada por Jesus e que experienciaram no convívio com Ele.

“Ver” Jesus “transfigurado” implica ver o seu verdadeiro rosto, sempre e em todos os lugares. Se fomos criados à imagem e semelhança do Filho, ou seja de Jesus – o Primogênito da Criação – somos parecidos com Ele, levamos em nós a sua imagem, como vontade do Pai, nosso Criador. A meta da criação é esta: que nos tornemos semelhantes ao Filho. Para a fé cristã, encontramos aqui o fundamento da dignidade humana: somos imagem de Deus. Quando esta imagem é negada, negamos também a pessoa de Jesus, à qual fomos inspirados, criados e convocados a escutá-lo, como diz o evangelho de hoje: “Este é o meu Filho… Escutai o que Ele diz!”. Sabemos o que Ele disse… Pregou a justiça, defendeu os pobres e mais vulneráveis, amou os excluídos preferencialmente, morreu por isso.

Não há como não associar as reflexões propostas para este domingo com o terrível momento histórico em que vivemos. Subimos à montanha para rezar… como os discípulos; estamos muito próximos de Jesus… somos razoavelmente bons. Vemos Jesus nos irmãos mais próximos a nós, na nossa família e nos nossos amigos. Mas não conseguimos fazer a “Transfiguração” e vê-Lo nas vítimas de Brumadinho, nos meninos do Flamengo, nas mulheres vítimas da brutal violência machista, nos envolvidos no drama de Suzano… Somos tentados a “armar tendas” – para nós e os que amamos – e permanecer na montanha rezando, com Jesus, e vê-lo “lindamente transfigurado, com roupas branquinhas e o rosto resplandecente… realmente é uma imagem mais agradável que os irmãos cobertos de lama, de sangue, carbonizados, totalmente desfigurados! A tentativa de permanecer na planície é compreensível… Mas Jesus nos convida a descer à planície dela e “transfigurar o nosso olhar” para vermos no rosto dos nossos irmãos – os mesmos que acabei de citar – o “Seu Rosto” transfigurado pela morte, pela lama, pelo sangue, pela fome… é esta a mensagem central da Transfiguração do Senhor: ver no rosto do Ressuscitado, o mesmo Rosto daquele que foi, e continua sendo, Crucificado.

Ver no rosto do Outro, o Rosto de Jesus. Que “Outro”???? Todos os “Outros”! Sobretudo os mais pobres, os mais sofridos e os mais atingidos pelas injustiças deste nosso mundo.

Foi Jesus que morreu novamente em cada irmão/irmã, vítimas nestas tragédias todas; estava desfigurado em todos eles, desfigurado pelo mal e pela loucura que assola este nosso mundo. Tudo que tem ocorrido neste últimos meses, todas as tragédias que temos acompanhado, inserem-se neste contexto da Transfiguração: todas as vítimas foram desfiguradas pelo poder homicida, fratricida, que vem sendo usado pelos poderosos do mundo. Ver em tudo isto Jesus sendo desfigurado pela ganância e pelo egoísmo deve despertar em nos o desejo que Transfigurar a nossa realidade, o nosso Brasil, o nosso mundo! Amém.

Maria Joaquina – Quininha assessora das CEBs Regional Leste 1

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