As voltas que a vida dá e as que damos na vida Marcelo Barros

Precisamos retomar a mística do reino e cuidar da solidariedade aos excluídos dos sistemas do mundo para entrar na festa de Deus: voltar ao coração da amorosidade que em nós é a casa do Pai ou da Mãe divina que nos gerou e nos ilumina.  “É preciso nos alegrar porque ele estava morto e reviveu. Estava perdido e foi encontrado”.

Nesse 4º domingo da Quaresma (ano C), somos convidados/as a meditar nas parábolas de Jesus sobre a misericórdia divina (Lc 15, 11 ss). Desde que instaurou o Jubileu da Misericórdia (2015), o papa Francisco propõe a misericórdia não apenas como postura de condescendência e empatia amorosa com irmãos e irmãs que nos rodeiam, mas como caminho social e político para toda a sociedade em seu modo de se organizar.

Lucas reúne três parábolas de Jesus sobre a misericórdia divina. O assunto começa por uma acusação que os religiosos (escribas e fariseus) fazem a Jesus. Eles acusam Jesus de viver no meio de gente com a qual, conforme os critérios religiosos, ele não podia conviver. Para os religiosos, a  conduta de Jesus era inaceitável. Ele se comportava como traidor dos valores da tradição religiosa e mesmo da postura correta de uma pessoa que se diz de Deus.

Nas culturas antigas, as refeições eram os momentos sociais mais importantes, através dos quais ficava claro quem era quem e de que lado as pessoas estavam. Nesse contexto, comer publicamente com pecadores e publicamos era verdadeiro escândalo. Era como passar para o lado deles. Jesus justifica o seu comportamento escandaloso afirmando claramente: o amor de Deus é assim! Eu faço isso porque é assim que Deus se coloca: junto com os pequenos e marginalizados. Jesus responde a essas críticas contando três parábolas: a do pastor que deixa as 99 ovelhas no abrigo e sai em busca da ovelha perdida, a da mulher que procura em casa a moeda perdida e finalmente a do pai misericordioso que age como mãe de bandido e acolhe o filho ou filha seja em que situação for.

Jesus se coloca do lado dos perdidos para revelar o modo de Deus agir. O Pai para acolher o filho que se havia perdido, assumiu claramente o conflito com o filho mais velho que era bom e sempre ficou do seu lado. Para solidarizar-se com os pecadores e desviados, Jesus precisou se dessolidarizar-se dos círculos religiosos, romper com os conventos das pessoas que vivem falando de Deus 24 horas por dia.

Em seu livro: “A volta do filho pródigo”, o espiritual holandês Henri Nouwen conta que, no Marrocos, na Índia e na Turquia, alguém fez uma pesquisa na qual perguntava às pessoas se seria possível naquelas culturas, alguém fazer um pedido daqueles ao pai: “quero a parte da herança que me cabe”. Todas as pessoas respondiam que era impossível. Por que? perguntava o pesquisador. E as pessoas explicavam: Pedir a herança é como pedir a morte do pai. O filho está praticamente dizendo: Pai, eu não posso esperar que você morra para gozar da parte da herança que me cabe.

Não só ele pede que reparta, mas ele quer começar a usar desde já. Isto é, como se o pai tivesse realmente morrido. O pai reparte tudo entre os dois. Fica legalmente sem nada, como se já estivesse morto. Não tem mais nenhum papel social. Continua vivo, mas como se estivesse morto e pelo próprio filho[1]. Entretanto, para o pai, o que aconteceu antes pouco importa. O que vale agora é que o filho faz o percurso contrário e volta. Ele sabe que não tem mais nenhum direito de filho,  porque, ao pedir a parte da herança, tinha realmente deserdado o pai. “Não mereço ser chamado de filho. Trata-me como a dos teus empregados”. Isso é o que ele pedia e esperava. Mas, o pai nem o deixa falar. Restitui a ele a condição de filho. Gratuitamente.

Cada vez mais tenho meditado como, em minha vida de cristão e de monge, tive de sair de uma relação religiosa com o Pai que era institucional e baseada no direito (na lei) – a religião é sempre assim – para ser atraído pela misericórdia maternal do Pai e voltar por pura graça a outro tipo de relação – sem mais direitos – sem contabilidade do perde e ganha – mas como festa pascal de amor. Esse caminho de volta que procuro viver é graça divina. Deus se importa com a vida dos marginalizados. O que importa ao Pai é que essa realidade mude. Aí está a conversão: passar  de uma relação com o Pai, antes baseada no direito de herança do filho para uma volta ao Pai esvaziado e anulado que se preocupa apenas que o filho (os filhos e filhas) vivam e dignamente. A teologia fala do esvaziamento de Jesus (kenosis) na encarnação e na cruz. Mas, essa parábola fala de que o próprio Pai resolve se esvaziar – não ter mais nada. E o que lhe importa mesmo é que os seus filhos e filhas vivam e transformem o mundo em lugar de amor.

Infelizmente, as religiões continuam tendo a atitude do filho mais velho. Para ele o que vale é o seu direito de filho. Essa forma de pensar era exatamente a postura dos fariseus e escribas que criticavam Jesus por andar e comer com gente de vida errada. É exatamente o que o filho mais velho diz ao pai: “Eu sempre te servi e tu nunca fizeste festa!”.

Para o pai, pouco importa se o filho voltou por interesse próprio ou por necessidade. O importante é que voltou. Jesus não diz que se junta aos pecadores e à gente de má vida porque eles estão arrependidos ou porque eles vão mudar de vida. Diz que se junta a eles porque o pai os ama e corre ao encontro deles assim que os vê se aproximarem dele, mesmo que a motivação seja meramente interesseira. O que importa aí é o amor do pai.

Ivone Gebara escreve:

“Nossa experiência não permite mais captar o Mistério (divino) como uma realidade totalmente Outra e distinta de nós, como se houvesse um momento de ruptura ou descontinuidade total entre nós e esse Outro/a. O pouco que captamos é a partir de nossos limites, de nossa corporeidade, culturalmente situada. E quando captamos “algo” e o expressamos, não o fazemos como uma realidade fora de nós, embora não o reduzamos a nós.  Se esse Mistério é em nós e para além de nós, já não o sentimos como todo-poderoso, como Senhor, juiz último, nem mesmo como Pai criador. Do ponto de vista da experiência feminista, tais imagens evocam figuras dominadoras, masculinas, hierárquicas, que modelaram a imagem da divindade à sua imagem e semelhança. Situam-se num universo cultural dualista no qual as não-respostas sempre tinham uma resposta em Deus (…).

Nossa experiência nos revela que estamos imersas/os num não-sei-quê no qual somos e existimos com tudo o que existe. (…) Isso nos abre para a percepção da transcendência não limitada a um ser acima de nós mesmas/os, habitando fora do tempo e do espaço, embora neles se manifeste, mas uma transcendência pluridimensional e até ambivalente. Estamos envoltas, atravessadas, entrecortadas, tecidas na transcendência. (…) A transcendência não é vertical como nos habituamos a imaginar, mas é vertical, horizontal, circular, espiral, etc…”[2].

Para ler essa parábola no plano social e político, precisamos retomar a mística do reino e cuidar da solidariedade aos excluídos dos sistemas do mundo para entrar na festa de Deus: voltar ao coração da amorosidade que em nós é a casa do Pai ou da Mãe divina que nos gerou e nos ilumina. De fato, muitas vezes, as religiões e falo principalmente da minha Igreja, ainda insiste demais na culpabilidade e na consciência do pecado das pessoas. A parábola de Jesus insiste muitíssimo mais na festa e na alegria divina: “É preciso nos alegrar porque ele estava morto e reviveu. Estava perdido e foi encontrado”.

[1] – KENETH BAILEY, Poet and peasant and through peassant eyes, (1983), citado por HENRI NOUWEN, A Volta do Filho Pródigo, São Paulo, Paulinas, 13ª ed. 2004, p. 40.

[2] – IVONE GEBARA, Teologia Ecofeminista, São Paulo, Ed. Olho dágua, 1997, pp. 116- 117.

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