As faixas, pipas e bandeiras dos nossos domingos de Ramos. Marcelo Barros

Hoje, para as paróquias e dioceses, fazer a procissão de Ramos é fácil. É um símbolo que deixou de ser perigoso. Hoje, ninguém vai fazer como aqueles escribas que, com medo da repressão política, pediram a Jesus: manda os discípulos se calarem. Mas, precisamos levar Jesus à Jerusalém que, hoje, é a nossa cidade, com comunidades pobres, ameaçadas em seus direitos de moradia, com projetos urbanísticos pensados para a classe rica e sempre à custa do deslocamento e da marginalização dos mais pobres.

A liturgia do Domingo de Ramos une elementos de duas antigas celebrações. De acordo com o testemunho de Etérea, peregrina em Jerusalém, no século IV, nesse domingo, a comunidade cristã de Jerusalém encenava em uma procissão o que teria sido a entrada de Jesus na cidade, para celebrar a sua Páscoa. Em Roma, não havia esse costume e a Igreja celebrava o domingo da Paixão. Na Igreja latina, a atual liturgia junta a bênção e a procissão de Ramos (oriundas do costume da Igreja de Jerusalém) e a missa com os textos do domingo da paixão (herança de Roma). Deixo o comentário da paixão para a sexta-feira santa (comentarei o evangelho de João) e agora fico com o evangelho usado na liturgia para a bênção e procissão de Ramos (Lucas 19, 29- 40).

Conforme o quarto evangelho, durante sua vida de adulto, pelo menos três vezes, Jesus teria ido a Jerusalém para as festas importantes do ano. Nos evangelhos sinóticos (Mateus, Marcos e Lucas), Jesus vai uma vez só e é para celebrar a sua Páscoa e dar a sua vida. Talvez por isso, os evangelhos tiveram de resumir em uma narrativa única fatos e momentos que podem ter ocorrido ao menos em dois momentos diferentes da história. O costume do povo levar ramos nas mãos e cantar textos do salmo 118 (Hosana, bendito o que vem em nome do Senhor) faz parte dos costumes da festa das Tendas que se dá em setembro e não da Páscoa que se dá em abril. A festa das Tendas recorda a caminhada dos hebreus no deserto na esperança da libertação. É uma festa toda centrada na esperança messiânica, portanto, na perspectiva de que a libertação não tenha sido só do passado, mas haja uma libertação definitiva agora e sempre.

O evangelho de Lucas conta a entrada de Jesus em Jerusalém, (Lc 19) não apenas como a chegada de um peregrino qualquer que entrava na cidade pelo Monte das Oliveiras. Lucas dá à entrada de Jesus na cidade um tom simbólico e profético. Ele entra em Jerusalém como Messias e até com certos toques de rei. (Os discípulos dizem: Bendito o que vem como rei, em nome do Senhor).

Parece que a comunidade de Lucas é de um ambiente grego que não conhece mais os costumes judaicos da festa das Tendas. Por isso, quando conta a entrada de Jesus em Jerusalém, diferentemente de Marcos e Mateus, Lucas não alude mais aos ramos que aquela pequena multidão de peregrinos carregava nas mãos como era o costume da festa das Tendas. Esse evangelho se centra mais no fato de que o povo peregrino que entra na cidade com Jesus o aclama como Messias (Cristo) que vem realizar a esperança da libertação do povo. Os próprios gritos (Hosana significa Liberta-nos) dá à cena um conteúdo político que faz com que os sacerdotes e escribas fiquem com medo e peçam a Jesus para mandar o povo se calar; coisa que Jesus não faria nunca.

Atualmente, ninguém de nós quer sacralizar os movimentos e manifestações populares. As marchas, passeatas e manifestações em praça pública devem ser laicais, pluralistas e autônomas. No entanto, quando no domingo passado, em várias cidades do Brasil, os céus do centro de várias cidades brasileiras se enchiam de pipas com as palavras Lula Livre e as ruas se enchiam de bandeiras e faixas de partidos e movimentos sociais, é essa energia de resistência e de esperança que nós, que cremos, reconhecemos ser inspirada pelo Espírito Divino de Amor e corresponder ao projeto sagrado de transformar o mundo em um espaço de comunhão libertadora.

Hoje, para as paróquias e dioceses, fazer a procissão de Ramos é fácil. É um símbolo que deixou de ser perigoso. Hoje, ninguém vai fazer como aqueles escribas que, com medo da repressão política, pediram a Jesus: manda os discípulos se calarem. Mas, precisamos levar Jesus à Jerusalém que, hoje, é a nossa cidade, com comunidades pobres, ameaçadas em seus direitos de moradia, com projetos urbanísticos pensados para a classe rica e sempre à custa do deslocamento e da marginalização dos mais pobres.

Alguns grupos cristãos compreendem que “levar Jesus à nossa cidade” significa levar a doutrina religiosa ou fazer culto para as pessoas de fora. Não parece ser essa a vontade de Jesus. Ele não centrou a fé em si mesmo. Quis ser testemunha do reino de Deus. Concretamente, isso significa trazer para os que estão sofrendo a solidariedade efetiva que testemunha Deus está com vocês e para ajudá-los a vencer as lutas da vida.

Na realidade de hoje, levar Jesus a nossas cidades é testemunhar às pessoas de que é possível conviver como irmãos e irmãs, sem competição e sem medo uns dos outros. É organizar a vida na cidade, de forma que todos os seus moradores tenham consciência de cidadania e tenham seus direitos reconhecidos.

Nesse ano, a CNBB nos convida a atualizar nossa Quaresma com a Campanha da Fraternidade sobre a necessidade de implementar e aprofundar Políticas Públicas de qualidade. Integrar essa preocupação no coração da nossa fé é fazer dessa Páscoa um testemunho de solidariedade humana e que realmente colabore com a transformação do mundo.

Marcelo Barros

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