Entre o povo índigena. 15º Intereclesial das CEBs do Brasil em terras Bororo.

O Intereclesial na Terra Bororo: Rondonópolis-MT, entre os dias 19 a 24 de julho de 2022:  tem como Tema: “Cebs: uma Igreja em saída na busca da vida plena para todos e todas”  e lema: “Vejam! Eu vou criar novo céu e uma nova terra” (Is 65,17).

Na manhã do dia 11 de abril de 2019, dom Juventino Kestering deslocou-se para a aldeia indígena Piebaga, do Povo Bororo para visita à aldeia, como de costume e celebração da Missa de Ramos. Os ritos tiveram início no Posto de Saúde com bênçãos dos Ramos. Seguiu a procissão até o espaço social da comunidade onde foram feitas as leituras e a celebração da eucaristia. Na homilia o bispo fez em forma interativa uma catequese sobre domingo de Ramos e Semana Santa, culminado com a Páscoa.

Com seu jeito a os indígenas participaram das orações e cânticos preparados pela Irmã Valdina Tronbosi, missionária das Irmãs Catequistas Franciscanas que reside na Aldeia.

Desde a primeira viagem missionária de dom Wunibaldo Teuller, primeiro prelado, em 1946, mediante a observação da realidade e da situação de abandono em que se encontravam os povos indígenas a Diocese sempre manteve presença missionária junto aos povos indígenas com educação, saúde, defesa da terra, das águas, cultura e valorização de seu jeito de ser e viver.

No território da diocese de Rondonópolis-Guiratinga há cerca de 1.400 indígenas da etnia Bororo distribuídos nas terras demarcadas de Tadarimána, Teresa Cristina e Perigara. Há muito tempo que este povo, outrora bem numeroso, ocupava toda esta região do Sul de Mato Grosso e parte da Bolívia, Mato Grosso do Sul e Goiás. Apesar dos longos conflitos e mortes este povo resiste e sobrevive mesmo reduzido.

A Igreja católica não podia abandonar os Bororo e esquecer da dívida histórica que o Brasil tem para com os povos indígenas. Os missionários salesianos primeiro, a diocese e as Irmãs Catequistas Franciscanas depois procuraram ter sempre uma presença no meio dos Bororo.

Hoje, sob a clara coordenação do Bispo Dom Juventino Kestering, há uma equipe diocesana de pastoral indigenista formada por: 3 missionários a tempo integral com a Irmã Valdina Tambosi Catequista Franciscana, a leiga Sílvia Maria Valentim e o Irmão Salesiano Mario Bordignon, este com um trabalho itinerante.

Também os padres Artur Moreira Brito, Pe. Lauri Rodrigues da Silva, Pe. Erivelton Almeida Postil e o bispo para as celebrações sacramentais quando são pedidas pelos Bororo.

A missão de equipe de pastoral indigenista é de seguir o exemplo de Jesus. Anunciar a Boa Nova, o Evangelho como Palavra de Deus Pai transmitida a todos pelo seu Filho Jesus. Anunciar a Boa Nova de forma inculturada procurando descobrir como Deus fala  aos Bororo através dos seus ritos e celebrações. Mas Jesus trás também o compromisso,  curando os doentes, alimentando os famintos, defendendo os pobres, questionando a justiça e as leis… Assim a equipe pastoral procura dar seu apoio à saúde, à escola, à subsistência, à preservação cultural e à defesa dos direitos dos Bororo.

Procura ajudar a população não indígena a superar o desprezo e os preconceitos históricos em relação aos povos indígenas para viver em fraternidade, na unidade respeitando as diferenças. Enfim, defendendo a “VIDA PARA TODOS”, como anima a Campanha da Fraternidade: “Serás libertado pelo direito e pela justiça” (Is 1,27).

Palavras do diretor da Escola Indígena na reserva Tadarimana do município de Rondonópolis:

– Em 1902 nascia aqui no cais (espaço onde nasceu a cidade, pois tinha uma balsa que atravessava os migrantes) o povoado do Rio Vermelho.

– Em 1918 o deputado, tenente e agrimensor, Otávio Pitaluga, trocou o nome do povoado do Rio Vermelho para Rondonópolis, em homenagem ao nosso parente Bororo, o marechal Cândido Mariano da Silva Rondon, o nosso JERI KURI, Testa Grande.

– Em 1938 aqui era município de Poxoreo – No dia 10 de dezembro de 1953 foi criado o município de Rondonópolis.

MAS A HISTÓRIA BORORO É MUITO, É MUITO MAIS ANTIGA.

“- Aqui 5.000 anos atrás já moravam os indígenas. Rondonópolis tem muitos sítios arqueológicos que são lugares que mostram a presença humana nesta região, aqui perto na Cidade de Pedra, temos o sítio Ferraz Egreja, o sítio Sete Barras, o sítio das Onças e outros mais.

– 1.000 anos atrás estavam aqui os BORORO. Os arqueólogos, aqueles que estudam as coisas antigas, garantem tudo isso.

– Este Rio Vermelho se chama Pogubo, nome do pássaro verão. O rio São Lourenço é Pogubo Cereu, pássaro verão preto que é a fêmea do Pogubo. O córrego Arareiao é lugar das piraputangas. O rio Itiquira se chama Bace Eiao, lugar das garças. Poxoreo é água preta. Tem o rio Poxoreo aqui perto também que é o rio Ponte de Pedra. Tudo aqui tem nome bororo. De Goiás até um pedaço da Bolívia.

– 1719, 300 anos atrás chegaram os Bandeirantes em Coxipó, Cuiabá. Acharam ouro. Começou a guerra contra os Bororo. Está escrito na ata de fundação do Arraial do Bom Jesus de Cuiabá que os Bororo em sua defesa mataram oito brancos fora os negros. Depois em 1750 colocaram Vila Bela como capital de Mato Grosso. Mais guerra por lá. Aqui começaram a chegar colonos para criar gado e buscar diamantes. Depois abriram uma estrada aqui em baixo para buscar gado em Uberaba, lá em Minas Gerais.

Aqui na região foram cem anos de guerra contra os Coroados. Chamavam assim os Bororo por causa da grande coroa de penas que usam, o Pariko. Abriram três destacamentos militares: primeiro no São Lourenço, depois mais para cima, no Sangradouro Grande na estrada que vai de Cuiabá para Goiás Velho e depois aqui perto, no rio Ponte de Pedra. Mas os soldados não venceram os Bororo. Conseguiram a paz com eles na covardia. Pegaram Rosa Bororo, Cibae Modojebado mais 5 mulheres que eram escravas em Cuiabá, seguraram os filhos delas como reféns, e trazidas aqui na região com os soldados chefiados pelo Alfere Antônio Duarte, as obrigaram a convencer os seus irmãos a depositar as armas.

Era o dia 5 de maio de 1886.  Ai começaram a amansar Bororo com a pinga e hoje nos acusam de ser beberrões. Depois Rondon instalou a linha telegráfica com a ajuda dos Bororo. Em 1917 filmou os Bororo aqui no Rio Vermelho. Primeiro documentário feito no Brasil. Está no Joutube: Rituais e festas Bororo. Depois Rondon demarcou as terras dos Bororo: Colônia Teresa Cristina, Colônia Isabel, Tadarimana aqui, Jarudori e Meruri. Mas depois, nos anos 50 e 60, o governador Fernando Correa, aquele que dá o nome à avenida principal de Rondonópolis, vendeu quase tudo. Não respeitou o acordo de paz de 1886. Perdemos Colônia Isabel, perdemos Jarudori, perdemos as terras melhores de Teresa Cristina, perdemos Meruri. Precisou lutar para recuperar Meruri.

Na luta mataram Pe. Rodolfo e Simão Bororo. Perdemos Kejari, aqui perto, no Rio Vermelho. Lá passou em 1936 o famoso antropólogo Levi-Strauss que fez conhecer os Bororo no mundo inteiro. Hoje tem a Rodovia do Peixe. Kejari, a gruta do morcego, trocou nome: hoje tem uma placa: GRUTA ANASTÁCIO MANOEL DO NASCIMENTO. Senhor secretário da cultura de Rondonópolis, isso é uma vergonha, a cidade não conhece sua história.

– Hoje estamos lutando para recuperar só um pouquinho do que era nosso. Cedemos metade de Mato Grosso. Demarcaram nossas terras e depois venderam quase tudo. Que justiça é esta? Queremos deixar para nossos filhos, nosso netos, um pouquinho do grande território que nós tínhamos. Queremos deixar para vocês que não são índios, queremos deixar um pouco de verde, de natureza, de ar puro, de chuva. A única área verde de Rondonópolis é a nossa terra de Tadarimana. Queremos respeito, queremos que não esqueçam a triste história de Rondonópolis.”

O Intereclesial na Terra Bororo

O 15º Intereclesial a ser realizado em Rondonópolis-MT, entre os dias 19 a 24 de julho de 2022:  tem como Tema: “Cebs: uma Igreja em saída na busca da vida plena para todos e todas”  e lema: “Vejam! Eu vou criar novo céu e uma nova terra” (Is 65,17).

Na discussão para essa escolha levou-se em consideração a solicitação do Papa Francisco de se investir “numa Igreja em saída, que vai ao encontro das periferias sociais e existenciais. Igreja presente, que anuncia o Evangelho e atinge o coração para que “todos tenham vida plena”. Vida não para poucos privilegiados, mas vida para todos, para o planeta, para os povos, independente de raça, cultura ou credo.

Igreja em saída, expressão do Papa Francisco na Exortação Apostólica Evangelium Gaudium ganha significado na vida pastoral da Igreja. Expressa uma Igreja missionária que sai de si mesma e vai ao encontro em especial dos pequenos, dos pobres, dos desvalidos e sofridos da humanidade, dos “amados de Deus”, daí o compromisso com nossos irmãos indígenas, que já se preparam para vivenciar esse momento de encontro das comunidades, na luta pela vida plena.

Por Leoni Alves Garcia- Comunicação das CEBs do Brasil

Fonte: Diocese  de Rondonópolis Guiratinga/secretariado do 15º Intereclesial

 

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *