CARTA ABERTA DO 36º ENCONTRO DIOCESANO DAS CEBs – Diocese de Guaxupé/MG

“Igreja de comunidades e movimentos populares”

“A Igreja que temos e a Igreja que queremos”

Com o calor da hospitalidade do povo da boa terra de Bandeira do Sul, cidade do setor de Poços de Caldas da Diocese de Guaxupé, no sudoeste de Minas Gerais, foram acolhidos as companheiras e companheiros de todos os cantos de nossa diocese de Guaxupé, do campo e da cidade, trazendo em cada coração o ardente desejo de reconstruir o modelo de uma Igreja cada vez mais samaritana, mais libertadora e comprometida com as causas do Evangelho de Jesus de Nazaré, o Crucificado-Ressuscitado, na qual acreditamos e por estes princípios lutamos, à luz da memória subversiva dos/as nossos/as mártires da caminhada e sob a proteção da Trindade Santa, a melhor comunidade, desembarcamos ao 36º Encontro Diocesano de CEBs (Comunidades Eclesiais de Base), fortalecidos com as palavras do nosso Papa Francisco: “Prefiro uma Igreja acidentada, ferida e enlameada por ter saído pelas estradas, a uma Igreja enferma pelo fechamento e a comunidade de se agarrar às próprias seguranças. Não quero uma Igreja preocupada com ser o centro, e que acaba presa num emaranhado de obsessões e procedimentos“.

O tema do encontro, “Igreja de comunidades e movimentos populares”, e o Lema, “A Igreja que temos e a Igreja que queremos”, foram debatidos com profundidade pelo nosso assessor, frei Gilvander Luís Moreira, que confirmou nossa identidade de CEBs como o jeito normal de toda a Igreja ser, com suas cinco dimensões: 1) a dimensão comunitária, ligada aos problemas concretos da vida do povo; 2) a dimensão humana, que faz crescer a participação das mulheres, procura acolher as pessoas e humaniza a convivência; 3) dimensão política, que combate as injustiças e as divisões injustas; 4) a dimensão ecumênica, que insiste na vivência da Boa Nova de Deus que Jesus nos trouxe e não no aspecto institucional; 5) a dimensão bíblica, uma leitura libertadora, um olho na Bíblia e um olho na vida, que nos faz ver a realidade das comunidades da Igreja e da sociedade com o olhar de Deus/Pai de misericórdia e Mãe de compaixão.

Vivemos tempos sombrios que exigem de nós uma postura firme, consequente, de uma Igreja em saída, que sacuda o cheiro de incenso e escancare suas portas para o ar que circula nas ruas. Só assim, seremos capazes de traduzir nossa fé cristã em compromisso político-social transformador. Só assim, teremos a audácia e a coragem necessárias para assumir – somando com os movimentos populares – a luta e a resistência que garantem os direitos dos pobres, dos trabalhadores/as, das mulheres, negros/as, indígenas, sem-terra, sem-teto e sem salário e de todos os que têm a vida diminuída e ameaçada pela injustiça social, agrária, urbana e ambiental que campeia no nosso país.

No Brasil do golpe consumado dia 31 de agosto de 2016, no Brasil do assassinato de Marielle Franco e de tantas/os outras/os, no Brasil tomado pela onda neofascista em que muitos cristãos/ãs embarcaram, pensando que é Deus é de direita e apostando num cristianismo burguês, reacionário, fundamentalista, de elite, temos de tomar partido do lado dos/as injustiçados/as. A neutralidade é impossível. Ou a Igreja se identifica com o destino do povo superexplorado, sofrendo a mesma sorte, agonizando a mesma morte, ou se dissocia e divorcia de vez da sua trágica realidade, traindo covardemente a memória histórica daquele judeu marginal, profeta galileu que sempre saiu em defesa dos injustiçados, marginalizados, dos últimos…

Por isso, é urgente nos despertarmos desta tranquilidade (omissa/cúmplice das opressões) que anestesia nossas consciências. Não podemos nos afastar dos grupos que pelejam para tornar factível este outro mundo possível e necessário, que acreditamos e construímos. Não podemos nos encerrar nas sacristias e dentro das igrejas. É hora de arregaçar as mangas, empunharmos nas mãos a História, erguermos nossas vozes e nos colocarmos a caminho, seguindo os pés descalços de Jesus de Nazaré, ao lado dos injustiçados, na luta por direitos.

As Comunidades Eclesiais de Base (CEBs) não podem perder sua vocação de sementeira de lideranças combativas, de gente que não foge da fera, que enfrenta o leão… Não deixemos que nos roubem nossos sonhos, nossa Utopia. Continuaremos a fazer festa, a celebrar, a dançar… ainda que em meio a tantas dificuldades e reveses. Não somos muitos, mas nunca estivemos tão certos de que nossa FORÇA é nossa FRAQUEZA ORGANIZADA. Então, vamos juntos/as, de braços unidos, ombro a ombro, fazer acontecer as lutas por direitos fundamentais para que todos tenham vida e liberdade em abundância (João 10,10). Nossa militância inspira Esperança quando dizemos: sim, nós podemos! Levantemo-nos e façamos agora! A vitória virá.

Bandeira do Sul, Diocese de Guaxupé, MG, 28 de abril de 2019.

Por Denis Wilson

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