AOS MEUS IRMÃOS BISPOS DO BRASIL POR OCASIÃO DA 57ª ASSEMBLEIA GERAL DA CNBB

AOS MEUS IRMÃOS BISPOS DO BRASIL
Duque de Caxias, 03 de maio de 2019.
Festa de São Felipe e São Tiago.

“Teologicamente, Cristo é a misericórdia de Deus.
Pastoralmente, a Igreja sem misericórdia não é a
Igreja de Jesus” (Frei Neylor José Tonin)

Com tremor e temor escrevo esta carta. Mas o batismo oferecido por meus pais ratificado no sacramento da Confirmação, e toda a minha trajetória na qual fui apresentado ao CAMINHO de Jesus Cristo, leva-me a dirigir estas palavras neste momento histórico do Brasil e do mundo.
Irmãos bispos. Permitam-me dirigir umas palavras aos senhores reunidos na 57ª Assembleia Geral da CNBB. Sou Celso Pinto Carias, 57, casado, dois filhos. Alguns bispos me conhecem. Embora tenha doutorado em teologia, costumo me apresentar como “mendigo de Deus”, expressão que encontrei em livro de Bruno Forte. Acredito que papel do teólogo/a é estar como um “pedinte” junto a Deus para ajudar a encontrar caminhos de fidelidade ao Reino de Deus. Sou da Baixada Fluminense, e trabalho no setor de Cultura Religiosa no Departamento de Teologia da PUC-Rio. Além disso, sou assessor da Ampliada Nacional das CEBs e do Setor CEBs da Comissão Episcopal para o Laicato da CNBB.

Mais do que os livros, embora eles sejam muito importantes, a vida tem me oferecido um aprendizado que às vezes me traz muita angústia. Como gostaria de ver a Igreja de Cristo respondendo aos desafios de encontrar as “sementes do verbo” onde muita gente imagina que lá elas não estejam, e como diz o Papa Francisco, sobretudo nas periferias. Por isso, escrevi uma carta ao Papa Francisco, sem usar intermediário, assim não sei se ele lerá, pedindo apenas um abraço virtual e dizendo para ele o quanto agradeço a Deus pelo seu papado. Pela sensibilidade teológica e pastoral que faz ele nos orientar na direção de um grande diálogo com o mundo de hoje, como fizeram muitos cristãos santos e santas do passado. E isto não desmerece em nada o ministério dos papas anteriores.

Vivemos, como ouvi de meu grande amigo bispo, Dom Mauro Morelli, há uns vinte anos, uma crise civilizatória. Hoje podemos afirmar que esta crise se aprofundou. Assim, somos vítimas de uma enorme confusão, de absurdos que estão elevando “o amor ao saber” a um conjunto de afirmações vazias e sem sentido. Como dá tristeza ver e ouvir cristãos fazendo coro as estes absurdos. Não posso me arrogar ao direito de ser um cristão exemplar, mas, por favor, meus irmãos, como acatar afirmações que aceitam uma compreensão de “Direitos Humanos” que desvaloriza a dignidade fundamental da pessoa humana, que sendo seguidores de um torturado defendem a tortura? Costumo dizer aos meus alunos que quem começou a história dos direitos humanos foi Jesus de Nazaré, ele disse ao homem: “Vem para o meio” (Mc 3,1-6), não foi Kant e nem a ONU.

Precisamos fazer ecoar o desejo de ser uma “Igreja em saída” que vá ao encontro dos seres humanos com compaixão, com misericórdia, acolhendo como fez o nosso mestre Jesus Cristo, que olhava com tristeza e indignação (Mc 3,5) o silêncio de lideranças religiosas que deveriam defender a vida daquele homem que a lei religiosa considerava impuro por ter uma “mão defeituosa”. Sei que não preciso lembrar isto aos meus irmãos bispos, mas quanta tristeza por ver cristãos e cristãs que não colocam o AMOR acima da lei. Que defendem a violência como caminho de paz, que estimulam o ódio aos que são diferentes, que não possuem fundamento para fazer críticas ao sistema político repedindo jargões ultrapassados, que distribuem mentiras pelas mídias sociais, que podem inclusive ser racista e achar normal, enfim, que não conseguem conversar sem humilhar e ofender o outro.

Perdoem-me meus irmãos bispos, mas está difícil ver canais de televisão de inspiração católica sendo completamente parcial, seja politicamente, seja pastoralmente. Sabemos que a Igreja Católica tem uma grande riqueza litúrgica, pastoral, espiritual, etc. E, muitas vezes, assistimos mensagens que encobrem tal riqueza, e pior, até podem fazer coro as mentiras. Como ultrapassar os desafios da cultura urbana, como será enfrentado na Assembleia, sem levar em consideração a complexidade desta cultura? As CEBs, por exemplo, ainda que fragilizadas, levantaram esta questão com profundidade, e continuamos ver setores rejeitando o que o magistério eclesial até o momento nunca rejeitou.

Por fim, sem saber se a esta altura este desabafo adiantará alguma coisa, se chegará aos meus irmãos, estaremos rezando para que neste momento histórico possamos ter diretrizes pastorais e uma nova presidência capaz de ir ao encontro dos “sinais dos tempos” como o nosso querido Francisco está nos mostrando. Um grande e fraterno abraço. Que a luz da PÁSCOA, cujo momento litúrgico nos estimula, possa continuar a guiar a Igreja de Cristo.

Celso Pinto Carias, “mendigo de Deus”.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *