Jesus e um bom peixe assado. “Vede minhas mãos e meus pés, sou eu”. Nosso Deus não é só um espírito. Edmilson Schinelo

 

A mesa é o chão da pesca, é a lida do dia-a-dia, a marmita do boia-fria, mas com o direito de estar quentinha, na brasa! E o Mestre come com eles, mais uma vez, um bom peixe assado!

Algumas correntes dos cristianismos originários espiritualizaram muito cedo a pessoa e a proposta de Jesus. Para esses grupos, as chagas do Crucificado desapareceram e passando a cultuar uma religião que negava a encarnação. Muitos afirmavam que Jesus morreu na cruz aparentemente, seu corpo era apenas um corpo aparente (docetismo). Tal negação teórica tinha uma implicação prática: para ser uma boa pessoa cristã, bastava buscar conhecer (gnose) de verdade esse espírito e a ele chegar pelo esforço intelectual/espiritual.

Por essa razão, as comunidades joaninas, já no convívio com correntes de influência gnóstica, são enfáticas em afirmar: “o Verbo se fez carne e acampou no nosso meio” (João 1,14). Se, por um lado, a fala de Tomé é expressão de sua dúvida, por outro, é sinal de que acredita em um Deus encarnado e sofredor:

“Se eu não vir nas suas mãos os sinais dos cravos, e ali não puser o meu dedo, e não puser a minha mão no seu lado, de modo algum acreditarei” (João 20,25).

No texto de Lucas 24,36-49, Jesus chega desejando a paz, fazendo uso de um cumprimento que todo judeu gosta de ouvir: shalom! (24,36). O susto é grande e o grupo pensa que é um espírito. “Um espírito não tem carne e osso”, lembra Jesus, o Crucificado/Ressuscitado permanece entre nós! Erra quem prega um Deus desencarnado. Não entende a proposta quem imagina que é suficiente louvar um espírito, muitas vezes até distante, outras vezes apenas doce e virtual.

O Ressuscitado é carne, é gente de verdade e continua com mãos, pés e o lado marcados por ferimentos. Cabe a nós tratar desses ferimentos, como fez o samaritano em outro texto narrado exclusivamente por Lucas (10,29-37). Cabe a nós não fugir e testemunhar por nossos atos: o Ressuscitado é o mesmo Crucificado a contar conosco também hoje, nos pobres e necessitados, os crucificados deste mundo. A fé em Jesus é algo mais exigente: é preciso continuar reconhecendo sua pessoa sofredora, encarnada nas pessoas sofredoras de ontem e de hoje.

Primeiro comer para depois “abrir a mente”

Depois de saborear um bom peixe assado, Jesus convida o seu grupo a ler a Bíblia: “era preciso que se cumprisse tudo o que está escrito sobre mim na Lei de Moisés, nos Profetas e nos Salmos. E abriu-lhes a mente para que entendessem as Escrituras” (Lucas 24,44-45). Como tinha feito no caminho de Emaús (24,27), Jesus retoma a Bíblia: a Lei (a Torah, o Pentateuco), os Profetas (os Nebiin, livros históricos e proféticos) e os Salmos (que representam os Ketubin, os outros Escritos).

Nesse sentido, a experiência com Jesus ressuscitado é uma luz que ilumina todas as Escrituras. Dá um novo sabor a textos antigos. Talvez o inverso tenha sido mais decisivo: a memória de tradições de Israel ajudou as comunidades a interpretar a Cruz à luz da profecia e da esperança na vinda do libertador. A releitura de textos como Oséias 6,2 (“Depois de dois dias nos fará reviver; no terceiro dia nos levantará e nós viveremos em sua presença”) e da figura do servo em Isaías, especialmente do cântico de Isaías 52,13-53,12, ajuda o grupo que seguiu Jesus pelo caminho a reconhecer nele a realização dessa esperança popular. À luz destes textos, as comunidades passaram a compreender a Cruz, de modo que, em vez de sinal de morte, passou a ser sinal de ressurreição e de vida. É a vitória da vida sobre a morte. Nasceu uma nova esperança e, com entusiasmo e movidas pelo dinamismo do Espírito, testemunharam a Boa Nova da justiça do Reino a todas as nações.

Entretanto, parece que mais uma vez Jesus quer nos apresentar um método de evangelização: a mesa da partilha e o ato de matar a fome vêm em primeiro lugar em nossos trabalhos pastorais e sociais. Nenhuma doutrina pode ser usada como camisa de força para a Palavra, uma vez que esta não pode ser algemada por aquela (cf. 2Timóteo 2,9). Muito menos, a Bíblia e as normas das diferentes igrejas podem ser usadas para doutrinar a vida, mas para iluminá-la. Despertar a consciência é algo que não se faz com a barriga vazia! Partilhar o peixe (e o pão, e a dignidade) é algo que se faz como prioridade.

Ressurreição acontece ao redor da mesa

O tema da mesa (comensalidade) é um dos mais caros ao evangelho de Lucas. Jesus come com publicanos (Lc 5,29-32); à mesa, na casa de um fariseu, é ungido pela mulher pecadora; (7,36-50; 11,37-54); também na casa de um fariseu desmascara a hipocrisia e o legalismo de quem o acolhia (10,38-42); janta na casa de Zaqueu e o ensina a repartir; faz-se ele mesmo pão repartido (22,14-2); e se dá a conhecer, em Emaús, ao redor da mesa (Lc 24,13-35). Ao todo, por doze vezes Jesus se senta à mesa no evangelho de Lucas. E ainda convida a quem permanecer fiel a sentar-se na mesa de seu Reino (22,28-30).

No evangelho de hoje, ele pede peixe e come com os seus (22,42).

O peixe se tornou um forte símbolo do cristianismo primitivo. Era e ainda é comida de gente simples, que busca sobreviver como consegue, à margem de lagos, rios e mares. Ao mesmo tempo, um pouco de sal e algumas brasas são suficientes para que o banquete esteja pronto e apetitoso. A mesa é o chão da pesca, é a lida do dia-a-dia, a marmita do boia-fria, mas com o direito de estar quentinha, na brasa! E o Mestre come com eles, mais uma vez, um bom peixe assado!

Reflexão de Edmilson Schinelo, biblista popular e Secretário de Articulação do Centro Ecumênico de Estudos Bíblicos(CEBI).

 

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