Irmandade dos Mártires da Caminhada – Carta do Primeiro Encontro

A mística do martírio na caminhada de libertação física, social e espiritual é alimento diário para muita gente que se orienta pela ação pastoral do Cristo de Nazaré. É isso que move pessoas espalhadas por todo o nosso Brasil na defesa de pequenas e pequenos agricultoras/es, das populações indígenas, das mulheres marginalizadas, de ribeirinhas e ribeirinhos, de nossas irmãs e irmãos LGBT e de tantas e tantos que precisam do apoio de uma igreja em saída, como diz o papa Francisco. 

Por conta disso é que trazemos um pouco do que foi o I Encontro da Irmandade dos Mártires da Caminhada, que ocorreu entre 5 e 7 de julho, na Cidade de Goiás (GO). As atividades tiveram a iluminação bíblica de João 15, 12, “Vocês são minhas testemunhas”.

Houve muita partilha, mística, música, análise coletiva da realidade e inspiração para continuar a caminhada.  

A seguir a carta do encontro.

“Viva a esperança…”

Carta do I Encontro da Irmandade dos Mártires da Caminhada

Movidos por desejos, paixão pela vida e vindos de muitas terras nos encontramos no Mosteiro da Anunciação, na Cidade de Goiás-GO. Somos corpos sagrados e trouxemos conosco terras banhadas pelo sangue das mártires e dos mártires de ontem e de hoje, que nos provocaram a alimentar uma espiritualidade profética.

Testemunhamos a dor e as lutas daqueles e daquelas que sentem no próprio corpo e nos seus territórios o peso de uma política de morte, que deseja impor um único modo de viver. Testemunhamos o martírio da Terra que geme em dores sentindo o avanço violento do capital sobre todas as formas de vida. São comunidades atingidas por rejeitos tóxicos; pessoas forçadas a saírem de seus territórios; indivíduos para os quais a casa e a terra não se consolidaram como direito; sujeitos aprisionados em seus próprios corpos por uma heteronormatividade imposta, pelo machismo ou em cárceres; mulheres negras, mães, vítimas das violências que perpassam o simbólico, físico e estrutural; jovens negros exterminados que precisam lutar pela vida todos os dias; povos de fé perseguidos por sua espiritualidade; povos originários que teimam em viver diante do fim dos seus mundos.

No espírito das mártires e dos mártires, que foram mortos e que deram suas vidas pela causa de Jesus, seguimos com uma fé inquieta, que denuncia um sistema com lógicas sacrificiais e anuncia a luz da pedra removida, que é sinal da vida que insiste e grita, que não se deixa tomar completamente. Compartilhamos uma fé capaz de criar aquilo que ainda não vemos plenamente, mas vamos inventando, bordando horizontes de resistência e encontrando nos pequenos gestos de vida, de cuidado, na organização de pequenas comunidades de amor-compromisso, gestadas no eco das vozes das mulheres que testemunharam tantas páscoas.

Resistimos, desde nossa terra e de nossos corpos.

Não compactuamos com governos e políticas guiadas pelos “deuses da morte”, que, sustentados pelos fundamentalismos religioso, político e econômico, continuam a pedir o sangue de nossa gente. Seguimos na força de nossas encantadas e encantados, que nos move para a permanência do amor que nos faz enfrentar o medo; e, desde nossos encontros potentes, encarnaremos o desejo de uma vida digna, com liberdade, felicidade e uma verdadeira justiça, sinais da graça do viver junto.

Esperançamos que a morte não tem a última palavra.

Cidade de Goiás, 07 de julho de 2019

(Fotos: Irmandade dos Mártires da Caminhada/ Douglas Mansur e  Berg Matutino)

2 Comments

  • Manoel Paixão dos Santos

    Que bom que existe gente que reza e pensa como a gente.
    P
    ….perdoa-nos quando quando por medo ficamos calados diante da morte..

  • Damiana

    É em momentos como esse que percebemos que não somos uma nação e sim muitos povos diferentes com o mesmo projeto de Jesus ressuscitado :vida digna para todas e todos.

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