As verdadeiras bases da vida. Marcelo Barros.

Cada pessoa tem de fazer um projeto de vida e esse projeto não pode ser baseado na avidez.

O evangelho lido pelas comunidades nesse 18º domingo comum do ano C (Lc 12, 13 – 21) continua contando a peregrinação de Jesus a Jerusalém. Nesse itinerário o capítulo 12 de Lucas recolhe vários ensinamentos de Jesus, provavelmente, dados em momentos diversos de sua vida. No caso dessa cena, Jesus dá o seu ensino a partir da provocação de alguém do meio do povo. Já vimos isso em 10, 25 e 11, 45.

Agora, alguém pede que Jesus sirva de juiz em uma questão de herança entre dois irmãos. No mundo de Jesus, era costume os rabinos religiosos resolverem questões como essa. Mas, Jesus se nega. Seria um grande erro pensar que Jesus se nega porque a justiça não o interessa ou porque ele não quer se meter em questões sociais e políticas. A palavra “Quem me constituiu juiz entre vocês?” é bem mais uma rejeição a ficar no plano da lei. Jesus quer ir mais além. Vai à raiz do problema. Mostra que não se tratava de uma questão de justiça e sim de ambição. É deste problema que ele trata.

Provavelmente, a ambição era um problema nas primeiras comunidades e Lucas quer que, nesse ponto, as pessoas sejam muito claras. Mais do que outros evangelistas, Lucas é radical em apontar: a ambição, a busca de riquezas é obstáculo real e imenso ao discipulado. Cada pessoa tem de fazer um projeto de vida e esse projeto não pode ser baseado na avidez.

Ainda hoje, muitas famílias se dividem e se dilaceram por problemas de herança. Isso existe muito na classe rica, mas não somente. Vivemos em uma sociedade na qual, cada vez mais, as pessoas se dividem em classes sociais. Há pessoas que só veem os outros de acordo com os que elas possuem ou não possuem.

Quando, aos 18 anos, entrei no Mosteiro para ser monge, havia uma regra que proibia a gente de chamar qualquer coisa de “minha”. Mesmo o que era de uso pessoal se dizia “nossa”. Nesse evangelho, Jesus conta uma parábola sobre um rico. Nessa história de Jesus, o mais aparece é justamente o pronome meu: “meus frutos, meus cereais, meus celeiros, meus bens…”. Lucas não diz que o tal rico (archom ou pessoa importante) da parábola tenha obtido a riqueza de forma desonesta. Não. Ele pode ter sido muito correto na forma de ficar rico (um rico totalmente honesto e justo é coisa muito rara, mas, mesmo se os pais da Igreja ensinavam que todo rico é desonesto e injusto, vamos admitir que seja possível um rico honesto e justo). O problema é que, de acordo com a parábola contada por Jesus, esse tal rico só se preocupa em “comer, beber e aproveitar da sua riqueza” (v. 19). O tal rico não se propõe a partilhar. Ele só quer acumular e gastar consigo mesmo. Diferente se ele juntasse os amigos e amigas para se banquetear. A única preocupação dele é gozar sozinho o que tem. Aí Deus condena e vem buscar a sua vida naquela mesma noite. E Jesus conclui a parábola dizendo: “isso acontece com quem junta só para si e não para Deus”. Juntar para Deus é repartir com os outros e viver a riqueza com os demais. A parábola se conclui pedindo que sejamos ricos não cada um para si mesmo, mas para Deus.

Essa forma do evangelho falar (ser rico para Deus) se traduz hoje em ser rico/a de amor, de amizade e solidariedade às pessoas. Toda a tradição bíblica ensina isso: “Quem é solidário com o próximo empresta a Deus” (Prov 19, 17 e Eclo 29, 8- 13). Isso deu o ditado popular: “Quem dá aos pobres, empresta a Deus!”. A atualização dessa palavra não pode ser apenas individualista. Não é só que não adianta se preocupar com riqueza, porque quando menos se espera, morre. Essa era a imagem que vinha dos livros da Sabedoria e Jesus a usou, mas para ir além disso. O contexto dos evangelhos não era individual. Era coletivo. O contexto de Lucas era escatológico, isso é, a comunidade estava convencida da vinda próxima ou imediata do reino.

Nessa parábola, a crítica que Jesus faz à ambição de riquezas é feita no contexto dessa pressa da vinda do reino. Os primeiros cristãos pensavam: Não vale a pena acumular riquezas se o reino de Deus vai chegar de repente e está próximo. A manifestação da vida de Jesus faz com que todo esforço para nos prender ao sistema do mundo é ilusório. Toda a Bíblia repete: acumulem tesouros que não podem ser roubados… O homem acumulou e Deus lhe disse: Insensato. Hoje mesmo tua alma será pedida. Para quem ficará os teus bens?

Hoje temos de ir além dessa perspectiva individual. Na internet o Observatório do Estado do Planeta, organismo internacional ligado à ONU avisou nesse 25 de julho que nesse dia nós já esgotamos todos os recursos do planeta que seriam necessários para todo o ano. Isso significa que a partir desse dia, nós estamos gastando o que não temos. Os recursos do planeta já foram gastos. Essa notícia que se leu na internet chamou a atenção de pouca gente. No entanto, é um sinal. Sinal de que esse sistema (o Capitalismo que domina o mundo) é insustentável e sem saída. É uma loucura prosseguir esse caminho. A terra está com seu sistema de vida ameaçado e a própria humanidade se autodestrói – o fato de que 1% da humanidade acumula o equivalente a quase metade da população do planeta provoca um desequilíbrio que é social, político, ecológico e cultural (espiritual). É preciso que os discípulos e discípulas de Jesus tenham a sensatez de ouvir esse evangelho a partir dessa advertência de Jesus no evangelho e que hoje é voz de Deus através da realidade da Terra. É preciso mudar o rumo desse desenvolvimento. Não basta acabar com os abusos do sistema. É preciso mudar o próprio sistema. Hoje a parusia ou a vinda do reino se expressa na sustentabilidade da Vida no planeta Terra. O papa fez com que o próprio tema do próximo Sínodo da Amazônia seja Ecologia Integral e como objetivo da missão da Igreja.

Atualmente, ser rico para o amor ou para a fonte do amor (que nas tradições religiosas é Deus) é repartir e organizar a vida a partir de um projeto de partilha e de justiça que reorganizará a vida a partir do Bem Viver. Choramos o assassinato dos dois caciques Wajãpi no Amapá e denunciamos a invasão da Terra indígena Wajãpi por 50 garimpeiros, sabe Deus sob ordem de quem, praticando violência e semeando destruição.

Esperamos que esse próximo Sínodo da Amazônia ajude o mundo inteiro a acordar para essa atrocidade cometida contra nossos irmãos indígenas e contra a Terra e a sociedade reunida no que ela tem de melhor possa recriar vida em um novo patamar de humanidade.

Marcelo Barros

 

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