Juventudes, desafios e possibilidades no mundo urbano à luz da Palavra de Deus.

“Se a juventude viesse a faltar. O rosto de Deus iria mudar”.

(Jorge Trevisol)

Para muitos de nós cristãos e cristãs, o processo de leitura e interpretação da Palavra de Deus ainda é visto e feito isolado do contexto da vida, alienado da realidade concreta e, sobretudo, separado dos processos históricos e existenciais. Ou seja, a fé é confessada e vivida separada da política e consequentemente da economia, das tecnologias e das mudanças, cada vez mais frequentes, profundas e permanentes. A fé é separada da vida. Entre os diversos vieses reais, possíveis e imagináveis no campo da fé e da vida, dois deles se destacam e serão objeto desta reflexão. As juventudes e o mundo urbano. Oportuno e mesmo necessário é trazer presente a gritante atualidade da Conferência Episcopal do CELAM em Medelín, em 1968. “Apelamos a todos os homens de boa vontade que colaborem em verdade, amor, justiça e liberdade nesta tarefa transformadora de novos tempos, no alvorecer de uma era nova” (PADIN, 2004, p 33). Para uma juventude rebelde, revolucionária e em pleno processo de urbanização, Medellín ainda diz “A atitude religiosa da juventude se caracteriza por recusar uma imagem desfigurada de Deus, que as vezes, lhe tem sido apresentada, e pela busca de autênticos valores evangélicos” (ibidem, p 99). O rosto de Jesus que as CEBs apresentam está desfigurado pelas novas formas de violência ou por nossas falas carentes de testemunho?

Uma pergunta que ecoa rebelde e transgressora como é próprio das perguntas e das juventudes é: Qual é o rosto de Igreja e de Deus que apresentamos para nossas juventudes de hoje? Não podemos seguir a Jesus de Nazaré com uma Igreja envelhecida, quase caduca, que discrimina, acusa, estigmatiza e por vezes, condena. Especialmente à juventude. O Papa Francisco, este jovem ancião, diz na Exortação Apostólica Pós-Sinodal, “CHRISTUS VIVITI” – CV -, “Peçamos ao Senhor que livre a Igreja dos que querem envelhecê-la, mantê-la no passado, detê-la, torna-la imóvel” (CV nº 35).

Envelhecer a Igreja é afastá-la da juventude rebelde e profética de Jesus de Nazaré, discriminando as mulheres e os jovens; os homossexuais, os migrantes e refugiados; os novos arranjos familiares; e alienando-a de sua vocação de seguidora do Profeta de Nazaré, em nome do que muitos insistem em chamar “Família Tradicional! ”. Não foi em nome desta “Família Tradicional” que “nossos chefes religiosos e políticos (Lc 24,20) mataram Jesus de Nazaré” e continuam matando nossos jovens hoje? É, sobretudo, negar aos jovens o protagonismo, dando-lhes tarefas, apenas tarefas, os impedindo de se expressarem, dizerem a sua própria palavra, oferecendo sua juventude para alimentar a esperança da Igreja. Assim, segue o Papa Francisco, “Para muitos jovens, Deus, a religião e a Igreja são palavras vazias, por outro lado, são sensíveis à figura de Jesus, quando é apresentada de forma atraente e eficaz” (ibidem, nº 39). Falamos a toda hora em Igreja em saída. Como somos vistos? Saindo de uma teologia, de uma linguagem e de um paradigma clericais, ou entrando cada vez mais em suas atraentes vestimentas? Em seus afagantes holofotes?

Quando a Igreja centraliza demais suas atividades, sobretudo suas decisões, clericaliza excessivamente sua ação, o clero quer coordenar tudo, envelhece a sua prática e afasta a juventude. O Papa Francisco já nos alertou para o fato de que, “Muitos jovens se cansam de nossos itinerários de formação doutrinal, e até mesmo espiritual, e, às vezes, reivindicam a possibilidade de ser mais protagonistas em atividades que façam algo pelo povo” (ibidem, nº 225). Trata-se, com efeito, de levar a Igreja até os jovens e não de levar os jovens para a Igreja. A Igreja em saída é uma mudança paradigmática. Mais do que descentralizar a teologia clerical, de fazer encontros clericais itinerantes, é preciso ouvir mais, confiar no ser humano mais que no pragmatismo da função ou na pureza da túnica branca.

A Igreja em Saída é mais que uma ação física ou geográfica. É muito mais do que mudar as reuniões da CÚRIA ou da Matriz para os bairros e capelas. É uma questão paradigmática. Sem mudar o paradigma de Igreja, não se muda o pensamento sobre a Igreja, tampouco a prática eclesial. É preciso uma “conversão do olhar” como profetizou o Sacerdote belga e Teólogo da Libertação no Brasil, José Comblin (1923-2011). O Profeta Jeremias (Jr 4,4), em sintonia com (Dt 10, 16), convoca a “Circuncidar o coração” e acena para a “circuncisão dos ouvidos” (Jr 6, 10). Como andam o coração e os ouvidos das CEBs para os gemidos e os pedidos de socorro que vêm das juventudes? Dos homossexuais? Dos desempregados? Da Amazônia? Da nossa Casa Comum? Que lugar estas questões devem ocupar, por exemplo, em um intereclesial? Até quando continuaremos dizendo que depressão é “falta de Deus” ou “frescura?”

É preciso mudar o paradigma de Igreja e para esse itinerário temos um acervo extraordinariamente rico. Temos assim, além da Palavra de Deus a partir das novas Hermenêuticas, a Doutrina Social da Igreja: as Encíclicas, as Exortações Apostólicas; os Documentos das Conferências do Conselho Episcopal Latino-Americano – CELAM; o Compêndio da Doutrina Social da Igreja; e, os Documentos da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil – CNBB -, que, entre tantos ensinamentos, nos convidam à colegialidade. As Diretrizes Gerais da Ação Evangelizadora – DGAE – da CNBB, para o quadriênio 2019-2023, trazem as quatro palavras geradoras, “Palavra, Pão, Caridade e Ação Missionária” (DOC 109, nº 7), e querem, a partir delas, aguçar os sentidos da Igreja, para ver e ouvir “As inúmeras novas formas de sofrimento e exclusão” (ibidem, nº 176).

Neste mundo predominantemente urbano, em que as identidades inexistem ou são camufladas ou negadas, o medo, a indiferença e por vezes o ódio expressado em forma de violência física e psíquica, são naturalizados, a Igreja se posiciona dizendo para todas as pessoas de boa vontade, “Trata-se de ser artesão da paz, porque construir a paz é uma arte que requer serenidade, criatividade, sensibilidade e destreza” (GE nº 89). Ardem os olhos de qualquer coração circuncidado, ver irmãos e irmãs, dentro ou fora dos templos, naturalizando o gesto de “arminha” como gesto político e de fé. Doem igualmente todos os ouvidos circuncisos, ao ouvirem os gritos de seres possessos ou em estado de possessão, dizendo: “bandido bom, é bandido morto!”. Ou ainda clamando por pena de morte. Qual é o lugar e qual é a importância da Palavra de Deus para as CEBs e para toda a Igreja?

A pergunta que se impõe, é: em nome de quem o fazem? É da Igreja? É dos Evangelhos? É em nome de Jesus de Nazaré? Não pode ser! Cabe à Igreja educar para a paz e para a solidariedade. Educação para a Igreja é mais do que transmitir conteúdos e fazer pregações doutrinais. A validade da ação da Igreja está no anúncio e na denúncia à luz da Palavra de Deus, mas, sobretudo, no testemunho. Pois, “O testemunho e o anúncio rejuvenescem a Igreja” (CNBB, DOC 109, nº 11). A juventude espera da Igreja, da família e da sociedade, mais que discursos, mais que cobranças, recomendações e censuras. Nosso país tem um número de jovens significativo. “Os dados do censo de 2010 no Brasil começam a ser divulgados. Calcula-se que o Brasil tenha em torno de 34,2 milhões de jovens entre 16 e 24 anos de idade. Conhecer a complexidade da situação das juventudes atuais não é tarefa simples” (LIBÂNIO, 2013, p 25). Qual é a Teologia que dá o sentido às Práticas das CEBs no Brasil hoje

As CEBs do Regional Sul2 da CNBB, que corresponde ao Estado do Paraná, realizaram em Umuarama, o Setimo Encontro Intereclesial, entre os dias 21 e 24 de abril de 2016. O tema: CEBs no Paraná e os desafios no mundo urbano. Hoje, ao se prepararem para o oitavo Intereclesial na cidade de Apucarana, entre os dias 18 e 21 de abril de 2020, parecem ainda maiores os desafios. O tema desta vez será: CEBs: Igreja em Saída, na Defesa da Vida e das Juventudes. Necessário se faz discutir o paradigma de Igreja em Saída. As interrogações que nos darão sustância ao diálogo como lugar de libertação, devem brotar, prioritariamente do povo de Deus, através de seu saber feito de vivências. As teses acadêmicas, quando consequentes e como mais uma possibilidade costumam ajudar. Mas quando impõem cangas e por vezes se fazem devaneios academicistas, costumam iludir e anestesiar o povo. Inibindo a sua vontade de se expressar. Uma pergunta precisa ser respondida, sob pena de corrermos o risco de pregarmos para nós mesmos.

Qual é o objetivo deste oitavo Encontro Intereclesial das CEBs, em Apucarana? Ao respondermos a esta pergunta com maturidade, estaremos dando um passo importante para que o lema do encontro, “Meu desejo é a vida do meu povo” (Est 7,3), seja o nosso lema. Já que muitas das perdas sofridas com o atentado contra nossa democracia, nos parecem irreparáveis! Como queremos que seja lembrado o oitavo Intereclesial? Que marca ou sinal queremos deixar?

O desemprego graça pelos quatro cantos do país; a corrupção está generalizada e naturalizada, como forma de alcançar o governo e como método de governar. As Políticas Públicas estão quando não destruídas inviabilizadas pelo corte nos orçamentos e pelo desmonte dos organismos intermédios – sobretudos os Conselhos de Diretos – tão reconhecidos e valorizados pela Doutrina Social da Igreja. A indiferença, a omissão e por vezes parece que até mesmo a cumplicidade de quem deveria zelar pelo ainda saudoso Estado de Direito, a saber: o Congresso Nacional, leiloado no cassino das negociatas; o Supremo Tribunal Federal, dando a ideia de ter mais o que esconder do que revelar; e a Sociedade Civil Organizada, sobretudo nos partidos políticos, está gastando suas energias mais em saber quem sentará no lugar de liderança deixado por Lula do que em construir alternativas de superação da procela que afeta o nosso barco comum.

A pós-modernidade exige de nós a lucidez do Teólogo da Modernidade, Karl Rahner (1904-2004), que foi visionário ao falar dos “Sinais dos Tempos” (Mc 16,3), e, inclusive, teve grande influência na construção da Exortação Pastoral do Concílio Vaticano II, Gaudium et Spes – GE. Rahner, em sua obra, Cristianismo e Religiões Cristãs, profetizou quando defendeu a tese de que “todo homem é alcançado pela graça de Deus, sendo assim, um cristão anônimo, convidado a se tornar um cristão declarado”. Este é o ponto de partida para uma Teologia que Liberte o cristianismo atual do imperialismo que o persegue e descolonialize a Bíblia, devolvendo-a à quem de direito: o Povo de Deus. Em sintonia com o Frei Carlos Mesters, que façamos valer esta sua eloquente palavra, “Precisamos fazer uma interpretação que ajude o povo a reapropriar-se da Bíblia como um livro que lhe pertence”.

O pesquisador Albert Raffelt, em entrevista ao site IHU, edição 446, de 16 de junho de 2014, trouxe-nos uma profecia de Karl Rahner e seu discípulo Johann Baptist Metz, que lida agora, nos revigora o desejo de anúncio. Assim dizem eles em carta aberta aos Cardeais alemães, “O futuro Papa de nossa Igreja precisa ser – um Papa dos pobres e oprimidos do mundo: não um papa burguês cosmopolita, iluminista; não um papa focado em assegurar a subsistência interna da Igreja; e tampouco um Papa focado em promover remendos sociais’. Qualquer semelhança com o papado de Francisco, especialmente na Evangelii Gaudium, não é mera coincidência. A teologia das CEBs precisará iluminar as reflexões que acontecerem antes durante e depois do oitavo Intereclesial. Elevar o nível de consciência crítica em um momento histórico que cabe na citação do filósofo polonês Zygmunt Bauman, em sua obra Cegueira Moral, “O canibalismo verbal e mental ou a mútua aniquilação moral, significa apenas uma coisa, a rejeição da livre discussão e sua asfixia antes mesmo antes mesmo de ela começar” (BAUMAN, 2014, p51).

Na teologia do encontro do Papa Francisco, cabe às CEBs o dever de fazer ecoar com novas linguagens e com atitudes concretas, esta Boa Nova, “Porque a misericórdia é o coração pulsante do Evangelho” (GE nº 97). Diante de uma sociedade que aponta o dedo, discrimina o diferente, persegue quem pensa ao contrário, e vive sob a maldição de uma justiça seletiva e gravemente enferma de corrupção, é preciso lembrar que sem a misericórdia a Palavra é morta, não respira. Assim, concluindo esta reflexão, resta-nos a esperança, sempre renovada de que, diante da fragilização quando não da ausência de Políticas Públicas, com as diversas formas de sofrimentos levando dores e lágrimas às nossas famílias, “Muitas vezes não podemos impedir as lágrimas que correm pelo rosto dos outros, mas podemos oferecer-lhes um lenço” (MENDONÇA, 2018, p 139).

Curitiba, 11 de setembro de 2019 – Quarta feira.
João Ferreira Santiago.
Teólogo Poeta e Militante.
É Mestre em Teologia e Especialista em
Assessoria Bíblica. Membro do CEBI-PR
É professor de Teologia na Faculdade São Braz.
Joao.ferreira@saobraz.edu.br
(41) 99865-7349 WhatsApp.
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