Francisquiando no tempo e na profecia. João Santiago

A partir da homilia de Dom Francisco Cota, bispo auxiliar na Arquidiocese de Curitiba e Referencial para a Dimensão Social, que compreende: as Pastorais Sociais; as Comunidades Eclesiais de Base; e a Campanha da Fraternidade; resolvi Francisquiar profeticamente, no tempo e no espaço e falar de juventude, para um mundo caduco. De profecia, para um tempo ateu; e de santidade, para uma Igreja predominantemente surda aos sussurros do Espirito de Deus. A Fraternidade e as Políticas Públicas; A Fé e a Vida; A Igreja e a Sociedade; A Bíblia como Palavra de Deus e a vida concreta de seu povo. Como não cometer o erro de separar aquilo que Deus uniu, a fé e a política?

Dom Francisco Cota, mineiramente sábio, vem sendo aquela água e aquele pão que o Profeta Elias comeu e bebeu, e andou quarenta dias e quarenta noites, ouvindo, seguindo e vivendo o chamado de Deus (1Rs 19, 8). Seria muito mais difícil darmos consequências à Campanha da Fraternidade deste ano, não fosse a sua presença profética e encorajadora. É certo que o cheiro de ovelha que impregnou as suas vestes vem lhe causando desconfianças, ameaças e incompreensões. Dom Francisco sabe separar as ovelhas e apascentá-las. Cada uma segundo sua situação (Ez 34, 13-16). Diante de um clero predominantemente cercado de conveniências e de um laicato clericalizado, Dom Francisco vem sendo a voz que lembra, à luz do Salmo 86, que Deus é o guardião da nossa vida. Quando a angústia nos abate, sabemos a quem clamar (Sl 86, 7-10). Nestes três últimos anos de Campanha da Fraternidade, nós sabemos o que significa “Pois é grande teu amor para comigo, tu livraste a minha alma das profundezas da morada dos mortos. Ó Deus, arrogantes se levantam contra mim, um bando de agressores persegue minha vida e não te colocam diante de si” (Sl 86, 13-14).

Falando para servidores públicos estaduais da Secretaria do Estado da Justiça, Família e Trabalho do Paraná, e para muitas lideranças da Igreja, Dom Francisco Cota se fez profecia. “Somos quase sempre governados por pessoas arrogantes! Caminhamos a passos largos em tecnologias, mas em passos muito curtos em humanização. Temos aqui um novo jeito de ver a política”. E seguindo o seu jeito mineiro, simples e profundo de ser pastor, disse. “Nossa missão de pastor não é falar coisas que alisam os ouvidos das pessoas, dizendo o que elas querem ouvir. A Igreja está cheia de gente e vazia daquilo que agrada a Deus” (Rm 12, 2). Neste momento em que uma piedade incapaz de agir com misericórdia, não apenas defende, mas por vezes pratica em nome da Igreja, apologia à pena de morte, à tortura, e exalta torturadores e seus seguidores, além de comemorar as perseguições e as prisões injustas e arbitrárias, porque sem provas e em que se equipara a justiça à vingança, a Igreja não pode ser omissa. Hoje, fala-se na Igreja de pessoas em situação de Rua, de Presidiários, de homossexuais e de migrantes e refugiados, como se fossem eles os impuros de nosso tempo.

No entanto, segue, então, Dom Francisco, “Hoje, a preocupação maior é com os que estão dentro da Igreja e não vivem como cristãos”. E proclamou! “A credibilidade da Igreja está no bem que ela faz. O demônio onde ele entra e age, ele gera divisão. O Espírito Santo onde age gera comunhão”. Eu, apenas parafraseando o Profeta de Nazaré, diria: quem tiver ouvidos ouça (Mt 13, 9; 11, 15; Lc 8, 8). Com a mesma simplicidade de sempre e cada vez mais inspirado pelo Evangelho como Boa Nova para os que sofrem e buscam o encontro pessoal com Jesus de Nazaré (Mc 10, 47; Lc 8, 43-44). Dom Francisco concluiu a sua homilia assim. “Domingo agora, nós vamos canonizar mais uma comunista! Graças a Deus! Irmã Dulce dos pobres! Não é assim que estão chamando quem cuida dos pobres? Comunistas? Esse comunismo é nosso! Vamos vive-lo à luz da fé? A Igreja estar entre os indesejáveis da sociedade. A Igreja hoje é a voz solitária, que clama no deserto”. Como não compartilhar com vocês aquele momento de Igreja? Como calar-me, como teólogo leigo, poeta e militante, diante da ação de um profeta? Não! Preferira perder a inspiração e o tato dos dedos. Tenho que testemunhar e fazer ecoar, sobretudo para a juventude deste país. Porque, Dom Francisco Cota não parou por aí. Mandou um

significativo recado aos ricos arrogantes e aos pobres alienados que que pensam com a cabeça de ricos. “ Ai de vocês, doutores da Lei e fariseus hipócritas! (Mt 23, 29).

Era visível a indignação profética que seu rosto expressava ao dizer: “Serpentes! Raça de cobras venenosas! Como vocês escaparão do julgamento ao inferno? (Mt 23, 33). E assim, incorporando a profecia de tantos Franciscos, de ontem e de hoje, citou aquele que vem sendo o seu texto preferido, por onde tem andado com as comunidade e pastorais, e com quem o convida. “Seremos salvos pela misericórdia de Deus e pela nossa capacidade de reconhecer na misericórdia de Deus a força de nossa humanização”. E citou sem seguir a ordem escrita, trechos de (Mt 25, 31-46).

Franciscaniando, e buscando luz em quem anda na luz, exaltemos o anjo que fez tantas bondades nesta terra. Chico Xavier é também um Francisco a ser lembrado sempre que a gente estiver com dificuldade de distinguir uma heresia de uma profecia. “Não exijas dos outros, qualidades que ainda não possuem (…) Deus nos concede, a cada dia, uma página de vida nova no livro do tempo (…) Fico triste quando alguém me ofende, mas, com certeza, eu ficaria mais triste se fosse eu o ofensor”. (Chico Xavier)

Será que não estamos surdos, para a voz que já não sussurra, mas clama através da Amazônia, vendida (queimada pelos novos vendilhões do templo); das mulheres, coisificadas, agora, pelo Estado brasileiro e pela destruição das políticas e dos Direitos Sociais; dos homossexuais, rotulados e espezinhados como os novos “impuros” a serem exterminados; dos negros, sobretudo jovens, condenados no presente a não terem futuro e proibidos de serem; dos migrantes e dos refugiados, que juntamente com os órfãos e as viúvas formam a tríade preferida do ETHOS cristão (Dt 10, 18; 24, 19; Zc 7, 10; Sl 94, 5-6; 146, 9; Tg 1, 27). Queremos dizer (gritar) por todos os lugares, Dom Francisco, o senhor não está sozinho!

As últimas palavras de Dom Hélder Câmara, ao receber o Frei Marcelo Barros, foi: “Não deixe morrer a profecia! ”. A profecia não pode morrer e não morrerá. Assim, continua atual, vivo e valendo o diálogo/chamado ouvido e assumido por Francisco de Assis. “Senhor, que queres que eu faça? ” – Francisco, não vês que a minha casa está em ruínas? Vai, pois, e restaura-a para mim. ”

Francisca de Paula de Jesus, conhecida popularmente como Nhá Chica, foi uma leiga brasileira reconhecida beata pela Igreja Católica, também mineira, como Dom Francisco. Ela de São João Del Rei. Que, a exemplo de Nhá Chica, possamos dizer. “Isso acontece porque rezo com fé”. Poucos têm como Francisco Buarque de Holanda – o Chico Buarque – consciência política e profética da situação de destruição de nosso país, e ao mesmo tempo uma conduta coerente com ela. Chico não tem medido esforços e nem poupado talento, para nos fazer continuar acreditando que existe um lado onde está a verdade e outro em que o pai da mentira fez morada com todas as suas milícias. Igualmente, talvez ninguém tenha marcado tão genialmente a nossa brasilidade como Chico Buarque. Quantos de nós poderíamos dizer como ele diz ou algo que o valha? “Meu pai era paulista, meu avô, pernambucano. Meu bisavô, mineiro. Meu tataravô, baiano. Vou na estrada há muitos anos. Sou um artista brasileiro”. Muitos! Como viver no Sul, como se o Norte e o Nordeste não existissem ou não tivessem importância? Como pensar políticas públicas sem pensar nas tribos, nas ocas, nos ribeirinhos, nos terreiros, nas tendas, nos acampamentos, assentamentos e nas favelas? Só tem um jeito de se fazer isso. Excluindo-os e ignorando que nestes lugares mora gente. Como defender a pena de morte e a tortura ignorando os dois mil anos dos Evangelhos do Amor? Como olhar para uma mulher, para um indígena, para um negro, para um homossexual, para um estrangeiro e não ver, antes, um irmão e uma irmã? Um ser humano? Só existe um jeito. Ignorando o ser humano que habita em cada um e em cada uma destas pessoas. O que antes, exige de quem assim age, a própria desumanização.

Todos os Franciscos e todos os profetas que ousaram ouvir o chamado de Deus e correr os riscos de seguir sua vontade, se veem nas palavras, nas ações e nas atitudes do Papa Francisco. Ao se referir às Bem-Aventuranças em sua Exortação Apostólica “GAUDETE ET EXSULTATE” (Alegrai-vos e Exultai), ele nos diz. “Estas são como o bilhete de identidade do cristão” (GE nº 63). Viver o Evangelho e toda a sua alegria. “O Senhor deixou-nos bem claro que a santidade não se pode compreender nem viver prescindindo destas suas exigências, porque a misericórdia, é o “coração pulsante do Evangelho”” (GE nº 97). Vejo muito desta Franciscologia desde a minha infância na fé da minha mãe, Francisca Maria do Carmo rezando terços e novenas e nos ensinando a ser cristãos e cristãs. Vejo também na fé do meu pai, Noé Ferreira Santiago, que nos ensinava a fazer romaria para o Canindé para rezar com São Francisco das Chagas do Canindé, no Sertão cearense. Somos todos e todas Francisco, defendendo a vida em suas diversas formas.

A minha homenagem e o meu reconhecimento a todos os professores e à todas professoras do Brasil. Vocês jamais serão isso que as forças das trevas querem que vocês sejam. Vocês são luzes que que vêm no percurso que faz a humanidade nesta aventura incrível na terra e que jamais se apagará.

Curitiba, 13 de outubro de 2019 – Domingo.
João Ferreira Santiago
É Teólogo e Poeta. Mestre em Teologia pela PUCPR
Professor de Teologia na Faculdade São Braz.
Coordenador da Campanha da Fraternidade na
Arquidiocese de Curitiba.
(41) 99865-7349
joao.ferreira@saobraz.edu.br

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