Outubro de 2019 – extraordinário é a missão! (Marilza Schuina)

Marilza J L Schuina, do secretariado executivo do 15º Intereclesial das CEBs

“O Deus que me criou,

me quis, me consagrou,

para anunciar o seu amor”

(Zé Vicente)

Outubro de 2019 ficará conhecido como o “mês extraordinário missionário”. O desafio é possibilitar que os cristãos tomem gosto pela missão e queiram anunciar a Boa Nova do Reino e denunciar a tudo que é contrário ao Reino de Deus.

Na Comunidade Nossa Senhora de Fátima, no bairro Santa Isabel, em Cuiabá/MT, um pequeno grupo de mulheres se dedicou à missão. Umas, já experimentadas na prática da visitação aos doentes e idosos, outras começando pela primeira vez, como a professora Waldirene Henrique Alexandre: “Confesso que sentia medo cada vez que pensava em levar a Palavra à casa das pessoas do bairro, porém quando decidimos ir juntos, fiquei aliviada. Mais aliviada ainda me sentia cada vez que rezamos e partilhamos a Palavra, agora não pelo medo, mas pela sensação de realmente realizarmos o que Deus nos pede, de levar a Palavra até os confins do mundo. Eu estou muito feliz!”.

Wal, assim conhecida pelos amigos, cita os versos da música: “Desde o ventre da minha mãe, já me conhecia. Antes que eu nascesse, Jesus me escolheu. Hoje a minha vida é para o seu louvor, sigo anunciando o seu eterno amor. Aonde mandar eu irei, seu amor eu não posso ocultar”.

A canção nos remete ao profeta Jeremias, um espelho para nós e que nos ensina a “realizar hoje nossa missão como profetas: ser fiel a Deus e aos pobres”.

Foi meditando e rezando os fatos da sua vida que Jeremias descobriu a ação e o apelo de Deus. Seu livro nos convida a fazer o mesmo: meditar e rezar os fatos da nossa vida para ouvir a voz de Deus.

“Visitando as famílias, ouvindo as suas necessidades e angústias, lendo e refletindo a Palavra de Deus, percebi que a missão precisa avançar para águas mais profundas. As pessoas têm sede de Deus, tem necessidades que precisam contar com o apoio do outro. As necessidades são várias e precisam encontrar com o amor do próximo para amenizar os sofrimentos. Senti que as nossas dificuldades são pequenas diante do sofrimento do outro.

 

Trabalho missionário

A Palavra de Deus alivia a dor e conforta os corações dilacerados”. Este é o depoimento de Maria José Lopes Schuina, que recorda as palavras de dom Helder Câmara: “para encontrar os irmãos é preciso atravessar os mares e voar lá nos céus”. Ela também recorda dom Pedro Casaldáliga: “desejaria que cada um de nós pudesse visitar em espírito a própria pia batismal, mergulhar nela a cabeça e redescobrir a missionariedade do próprio Batismo. Sou batizado? Então devo ser um missionário. Se eu não sou um missionário, então…não sou cristão”.

Maria José relata ainda que o povo tem necessidades não atendidas pelo Estado e nem pela Igreja: “Sei que não vamos resolver tudo, mas vamos ajudar as pessoas a se sentirem amadas por Deus”.

Esse é um desafio do trabalho missionário, pois ao se deparar com a realidade sofrida do povo, principalmente idosos e doentes sem nenhuma assistência do poder público, o missionário não pode voltar para casa e nada fazer. Faz parte da missão acionar o poder público, mobilizar a comunidade para lutar pelo acesso à saúde, educação, transporte, segurança. Buscar melhoria da qualidade de vida para todos e todas.

É preciso articular ações conjuntas com pastorais, movimentos, organismos e entidades que trabalham a promoção da dignidade humana, a inclusão social e sustentabilidade para que haja comunhão fraterna. E nem é preciso muita coisa. O próprio Jesus nos ensina: “bastam dois e dois peixes e o milagre do amor, pra acabar com tanta sede, pra acabar com tanta dor”.

Dona Noêmia Lopes de Souza destaca a necessidade de estarmos mais próximos das pessoas: “senti a alegria do povo e a necessidade que o povo tem de receber visitas, de conversar. Quando as pessoas conversam com a gente, elas desabafam. A necessidade do povo é espiritual e material. O povo tem fome e sede da presença, do cuidado”.

 

“Faz parte da missão acionar o poder público, mobilizar a comunidade para lutar pelo acesso à saúde, educação, transporte, segurança”

 

Essas visitas missionárias levam ao cuidado com a vida do outro, da outra, como o Samaritano em viagem, que ao passar à beira da estrada, vê um homem caído, move-se de compaixão, aproxima-se e cuida. Leva o homem em seu próprio animal a uma hospedagem e dá ao dono da hospedaria o salário de dois dias dizendo: “Cuida dele e o que gastares a mais no meu regresso te pago!”

É ação concreta e eficiente. Um modelo de amor ao próximo! “É ação progressiva: chegar, ver, mover-se de compaixão, aproximar-se e partir para a ação. Não é sem motivo que a parábola diz ‘um samaritano em viagem’. Jesus também estava em viagem. Jesus é o bom samaritano. As comunidades devem ser o bom samaritano” (https://cebi.org.br/biblia/o-bom-samaritano-solidariedade-e-ecumenismo/). O missionário, a missionária deve ser assim mesmo, um bom samaritano.

 

Descer das montanhas

No depoimento de Maria Sueli da Silva, muita emoção e o testemunho do chamado.

“No retiro das CEBs do qual participei a poucos dias o padre dizia que temos que sair das montanhas e caminhar nas planícies, igual Jesus fazia. Desde então, venho pedindo a Deus: senhor, eu necessito fazer essa caminhada, ser essa missionária. Então surge o convite e eu respondi ao chamado. Eu sempre quis fazer isso, mas eu tenho um bloqueio, não consigo ir à casa das pessoas, tanto que na maioria das vezes sou a última a entrar e a primeira a sair. Mas agora em equipe esta experiência está sendo maravilhosa. No primeiro dia da missão eu segurava para não chorar e pensava comigo: tenho que ser forte. Quando as pessoas contando seus problemas até choravam eu tentava resistir para não chorar também. Aqui, lá, uma lágrima caía. Senti grande emoção, a alegria das pessoas que nos recebiam com abraço, a partilha da palavra. Pensei: Senhor, é essa a minha missão? No segundo dia não foi diferente visitar as pessoas. Algumas eu já conhecia há muito tempo e levava meu pedido a Deus: usa-me, Senhor, eu preciso fazer mais. Emoção quando um grupo de viciados em drogas pediu que orássemos junto com eles. Foi maravilhoso isso!”.

“No terceiro dia, emoção maior ainda. Em meio às famílias visitadas, ex-colegas de trabalho que eu não sabia onde moravam e há tanto tempo não via mais. Não tem como resistir às lágrimas, ora de alegria ou mesmo de ver a fragilidade das pessoas. A maioria quer conversar, ser ouvida, desabafar seus sentimentos, suas dores. Algumas pessoas cadeirantes, cegas… e Deus nos toca e diz: vai, esta é tua missão. Eu, Sueli, quero continuar essa missão. Peço ao Divino Espírito Santo que me ilumine e a todo o grupo, nos dê sabedoria, humildade para levar a Palavra de Deus, para escutar os clamores do povo, que está sempre pronto a receber e doar. Que Maria Santíssima caminhe conosco hoje e sempre!”.

 

Missão diária

É Deus que nos chama e consagra para a missão. A missão é o espaço para escuta, reflexão e partilha da vida. As Comunidades Eclesiais de Base vivem essa dinâmica de uma Igreja em estado permanente de missão, de portas abertas, a serviço do Reino, em diálogo com o mundo, inserida na sociedade e encarnada na vida do povo. Uma Igreja testemunhal e misericordiosa.

 

“É nossa missão continuar a ação de Cristo na prática do Reino e no alimento da esperança, no testemunho, servindo, aprendendo, ensinando, sentando-se à mesa, partindo o pão, acolhendo o diferente, vivendo com ele e redescobrindo a alegria do Evangelho junto aos prediletos de Jesus: os pobres!”

 

A cada dia é preciso promover a consciência da missão na comunidade para, assim, despertar vocações missionárias comprometidas com o anúncio do Evangelho e a favor da vida. “Reavivar a consciência batismal do Povo de Deus em relação à missão da Igreja”, como nos pede o Papa Francisco na Evangelii Gaudium: “a ação missionária é o paradigma de toda obra da Igreja” (EG 15). E e no Mês Missionário Extraordinário: “Batizados e enviados: a Igreja de Cristo em missão no mundo”.

“Pôr a missão de Jesus no coração da Igreja, transformando-a em critério para medir a eficácia de suas estruturas, os resultados de seu trabalho, a fecundidade de seus ministros e a alegria que eles são capazes de suscitar. Porque sem alegria não se atrai ninguém” (Reunião do Comitê diretivo do Celam, Bogotá, 7 de setembro de 2017). (http://www.pom.org.br/mes-missionario-extraordinario/)

Motivados pelas orientações do Papa Francisco, que convoca para uma “Igreja em saída”, os cristãos, em especial os cristãos leigos e leigas, evangelizarão com ardor, dinamismo, ousadia, criatividade, coragem e alegria. Não terão medo de se sujar com a lama da estrada.

Antes, terão medo de ficar fechados nas estruturas que criamos (cf. Doc. CNBB 105). Eu sou uma missão nesta terra e para isso estou neste mundo” (EG, n. 273), para servi-lo e no serviço transformá-lo. É nossa missão continuar a ação de Cristo na prática do Reino e no alimento da esperança, no testemunho, servindo, aprendendo, ensinando, sentando-se à mesa, partindo o pão, acolhendo o diferente, vivendo com ele e redescobrindo a alegria do Evangelho junto aos prediletos de Jesus: os pobres!

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