O Sínodo continua na Amazônia e em todo o planeta Terra

Aloir Pacini (padre jesuíta e assessor das CEBs/arquidiocese Cuiabá-MT)

Jeremias Mura, padre Aloir e Ernestina Macuxi junto ao monumento dos migrantes na Praça de São Pedro, em Roma.

Desde os momentos prévios, enquanto Rede Eclesial Pan-Amzônica (Repam), enquanto Conselho Indigenista Missionário (Cimi) e Comunidade Eclesial de Base (CEB), fui fazendo o esforço de estar a par dos acontecimentos e tive diversas oportunidades de auscultar as comunidades indígenas, ribeirinhas, quilombolas, as comunidades eclesiais de base que fazem a Igreja na Amazônia a respeito das expectativas que elas tinham em relação ao Sínodo da Pan-Amazônia e à Igreja Católica enquanto instituição mais ampla.

Foi um lindo processo de comunhão. Sentamos juntos e conversamos sobre o que sonhamos para a Igreja aqui em Cuiabá e em todo o estado de Mato Grosso. As sensibilidades das pessoas são coisas que se guardam no coração, são tesouros para a vida eterna. Chegamos, agora, ao final do Sínodo, com uma caminhada de solidariedade de busca generosa para ver como cuidar da Casa Comum.

O papa Francisco realmente é o homem de Deus para este momento da história da humanidade. Tem clareza da Missão que recebeu de Jesus Cristo, como São Pedro, e o faz com cuidado e coragem. Vivemos tempos difíceis, especialmente na América Latina, no Brasil de modo particular, pois a Igreja está sendo atacada de dentro, por pessoas inescrupulosas e extremamente barulhentas porque possuem o poder econômico estabelecido no país, são herdeiras da TFP, utilizam os meios de comunicação com grande habilidade.

O mais triste é que muitos católicos replicam estas mensagens feitas sem discernimento espiritual, são agressivas contra a Mãe Igreja, contra os bispos e contra o próprio papa, sem perceber que estão sendo usados pelas forças do maligno. Eles não queriam o Sínodo da Pan-Amazônia porque a proposta é parar com a invasão das Terras Indígenas e a devastação das Reservas Florestais que ainda restam, porque questionam o modelo econômico que não visa a partilha, mas o acúmulo de capital nas mãos de poucos com grandes projetos que ameaçam a linda obra que Deus criou, os biomas que devem ser preservados para as futuras gerações poderem bem viver.

 

“Vivemos tempos difíceis, especialmente na América Latina, no Brasil de modo particular, pois a Igreja está sendo atacada de dentro, por pessoas inescrupulosas e extremamente barulhentas”

 

Recebi uma imagem com o papa apanhando de Jesus porque ele não estaria cumprindo com os seus ensinamentos. Mas acontece exatamente o contrário, o papa está cumprindo com muita habilidade a Missão recebida, fazendo a opção pelos pobres como o fez Jesus e isto incomodou os poderes estabelecidos em sua época. Na verdade, o papa está apanhando desses falsos católicos como Jesus, que foi condenado pelos poderes econômicos e religiosos da sua época.

Não podemos aceitar que falem mal da Igreja e do Santo Padre, o papa, com superficialidade e irresponsabilidade, jogando ao vento palavras e imagens que depois não podem mais ser recolhidas. O acusador desde o princípio é o diabo e não podemos compactuar com este fanatismo que se utiliza de pele de cordeiro para aparentar maior fidelidade como os fariseus aparentam adesão à Jesus Cristo, mas são instrumentos do maligno, não possuem obediência, vão direto aos meios de comunicação para espalhar cizânia na plantação… dividem a Igreja Católica por dentro e fazem mais uma vez sangrar o Corpo Místico de Cristo.

 

Cheios de esperança

Os indígenas e os sinodais voltam para as suas bases cheios de esperança. Os indígenas perceberam a Igreja Católica como a grande aliada neste momento em que a Fundação Nacional do Índio (Funai) está sendo desmontada pelo governo atual, no momento em que os fazendeiros estão no poder e colocam seu poder acima das leis, acima dos processos democráticos.

Não temos grandes possibilidades de fazer grandes coisas pelos indígenas neste momento dadas as forças contrárias ao bem viver, mas é possível pensar pequeno e agir na base, multiplicar a fraternidade. Estar do lado deles neste momento de morte e extermínio, auxiliar a discernir os ventos contrários e as brisas possíveis nesta forma de atear fogo na Amazônia para plantar pasto e retirar seus recursos minerais, sofrer o mesmo suplício que eles, parece ser a resposta mais adequada que Jesus Cristo nos pede.

 

Igreja inculturada

Podemos vislumbrar uma Igreja mais inculturada, falando as linguagens dos povos da floresta, dos rios, do pantanal, do cerrado. O cuidado para com o planeta Terra e seus biomas, para com a Igreja como uma Mãe, é algo que impressiona, pois nas palestras e seminários que tive em Genebra, Bruxelas, Roma, Milão e outros lugares nos últimos dias, por conta do Sínodo, os próprios índios convocavam as pessoas a estarem com o papa e com eles lutarem contra os projetos de morte do capitalismo que tomou conta do governo no Brasil de forma grosseira e ostensiva.

Vejo que as Igrejas na Amazônia estarão mais articuladas e mais solidárias, em rede a partir de agora para atuarem capilarmente e chegarem de maneira mais ampla aos grandes centros urbanos para que a cidadania se torne também florestania.

O pós-Sínodo nos deixa outra mensagem: a amazonização do mundo. Agora a opção pela preservação da Amazônia sai reforçada e continua de forma feliz nas consciências das pessoas e os que trabalham nesta região terão mais apoio das instituições e serão valorizados, mesmo estando na periferia das decisões governamentais.

 

As mulheres

Vamos ter uma Igreja de avental, para o serviço e que crie fraternidade. Ficou claro que as mulheres não querem o lugar dos homens, elas já têm o seu papel e estão animando cerca de 80% das comunidades da Amazônia. O reconhecimento deste ministério diaconal, do serviço nas comunidades, é importante para este momento da história da humanidade. Isso é ecologia integral.

 

“Vamos todos com o Sínodo da Pan-Amazônia aprender a nos colocar a caminho, estar a serviço dos que precisam de nós, sermos uma Igreja em saída, com cheiro de ovelhas, não com perfumes franceses. Como disse Santo Inácio de Loyola: vamos em tudo amar e servir!”

 

São as mulheres, como Maria nas bodas de Caná, que percebem os filhos mais frágeis que precisam de mais atenção neste momento da nossa história para chegar à vida plena. Como foi bonito a generosidade e gratuidade com que todos contribuíram neste Sínodo.

Também é importante o reconhecimento das sensibilidades próprias da Amazônia, talvez com um rito próprio que vai além da Oração Eucarística V que já foi um passo importante no IX Congresso Eucarístico em Manaus (19 de julho de 1975), mas que não fique somente nas palavras, pois a oração acontece com o corpo todo, e por isto a liturgia e a celebração devem levar em consideração a pessoa inteira.

Vamos sair da dicotomia do sagrado e profano, do clericalismo que é capaz de gastar fortunas para vestir o padre com um monte de adereços superficiais, enquanto o irmão morre de fome ao lado. Vamos todos com o Sínodo da Pan-Amazônia aprender a nos colocar a caminho, estar a serviço dos que precisam de nós, sermos uma Igreja em saída, com cheiro de ovelhas, não com perfumes franceses. Como disse Santo Inácio de Loyola: vamos em tudo amar e servir!

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