O anel de tucum da santidade nossa de cada dia. Marcelo Barros

A primeira boa notícia de hoje é essa: há uma multidão incontável de testemunhas. Nem todo mundo se vende. Há muita gente que não se deixa comprar.

Nesse domingo, no Brasil, a Igreja Católica celebra a festa de todos os santos e santas. É a festa na qual agradecemos a Deus por pertencer a essa comunidade dos santos e santas e escutar de novo o chamado divino para a santidade que hoje toma forma diferente de outros tempos.

A primeira leitura proclamada nas celebrações de hoje é tirada do livro do Apocalipse (Ap 7) que fala do mundo como ele é. Em linguagem simbólica, o Apocalipse fala da degradação da sociedade, aprisionada por um projeto de prepotência que faz milhões de vítimas e além de destruir os pobres, destrói a Terra. No capítulo 7, um mensageiro divino manda que essas energias que fazem mal a terra se detenham porque ainda há uma multidão de pessoas que passaram pela grande tribulação e não se venderam. Não aceitaram ter nas mãos ou na fronte a marca do império (O que está por trás dessa história do selo ou tatuagem é que, naquela época, o imperador Nero mandava que todos os cidadãos do império tivessem escrito no pulso uma tatuagem que dizia: César é nosso deus). O Apocalipse diz que ainda há uma multidão de pessoas que não aceitam isso e por isso passam por perseguições e sofrimentos (o Apocalipse diz isso usando como imagem: lavam suas vestes no sangue do Cordeiro).

A primeira boa notícia de hoje é essa: há uma multidão incontável de testemunhas. Nem todo mundo se vende. Há muita gente que não se deixa comprar. E aí o evangelho nos fala de quem são os santos e santas de Deus.

A festa de Todos os Santos é ação de graças pela Páscoa de Jesus que manifesta a força de sua ressurreição na comunhão dos santos e santas, ou seja, todas as pessoas do céu e da terra, de cuja energia nós todos/as recebemos graças e bênçãos.

Nessa festa, as comunidades leem o evangelho das bem-aventuranças (Mateus 5, 1 – 12). Bem-aventuranças é um termo que aparece de vez em quando nos salmos e nos livros proféticos do primeiro testamento. Mateus inicia o discurso da montanha, pondo na boca de Jesus oito bem-aventuranças. Algumas traduções simplesmente traduzem bem-aventurados por Felizes – as pessoas pobres de coração, as pessoas humildes, as que choram e assim por diante. O padre Chouraqui que traduz muito literalmente o termo original prefere a expressão: “Para frente”. De fato, o termo bem-aventuranças é muito rico. Qualquer que seja a tradução contém um aspecto, mas não consegue expressar toda a riqueza que o termo evangélico contém. Diferentemente de abençoado e também de feliz, bem-aventurado/a significaria a pessoa que recebe de Deus o reconhecimento de sua honra e do sentido para a sua vida. As comunidades do evangelho ainda viviam em um mundo no qual as infelicidades da vida eram atribuídas ao fato de que Deus teria esquecido essas pessoas ou até, por alguma razão, as condenado à pobreza e à infelicidade. O mundo as considerava malvistas e mal faladas. A primeira boa notícia de hoje é essa: há uma multidão incontável de testemunhas. Nem todo mundo se vende. Há muita gente que não se deixa comprar. E aí o evangelho nos fala de quem são os santos e santas de Deus.

Jesus subverte esse pensamento e deixa claro: Ao contrário, são justamente essas pessoas que o Pai considera bem-aventuradas: as que assumem a pobreza como opção de vida, as que são pequenas, são humildes, trabalham pela paz, etc… Esse é o critério de santidade de Jesus: é uma santidade social e política e não apenas uma forma de virtude interior e íntima. O que o evangelho de hoje nos diz é que Deus dá dignidade, força e sua bênção aos educadores e educadoras que não aceitam o desmonte da educação promovido pelo atual governo de criminosos, psicopatas e gente que prega que a terra é plana e pensar é perigoso. Em um Brasil assim, Deus nos confirma que são bem-aventuradas as pessoas que ousam se assumir como de esquerda e se consagram a ensaiar uma nova forma de organizar o mundo e a vida.

A santidade que Deus quer tem um jeito diferente da imagem habitual do santo e santa. Ao ler esse evangelho, penso em cada um, cada uma de vocês que lê essas linhas e se reconhece na caminhada por um novo mundo possível. Por isso, peço que vocês aceitem: a palavra de Deus confirma: hoje, vocês são os bem-aventurados e bem-aventuradas de Deus. No meio de todos os nossos problemas, fragilidades e mesmo contradições, vamos testemunhando o reino divino no mundo, ou seja, a realização do projeto de justiça e paz.

Vocês fazem isso por terem sido marcados/marcadas com o selo do nosso Deus. Certamente vocês lembram que, nos tempos de perseguição às comunidades e movimentos de base, muitos de nós éramos reconhecidos como sendo da caminhada por carregar no dedo o anel de tucum. Pedro Casaldáliga insistia que ter esse anel era uma responsabilidade imensa: era sinal de que pertencemos à caminhada. Como diz a carta aos hebreus: Assim como Abraão, “esperando contra toda a esperança”, vamos em frente obedecendo à palavra que nos mandou partir.

É preciso abrirmos os olhos para esse novo olhar sobre a realidade e a nossa vocação. A festa de hoje confirma cada um/uma de nós nessa caminhada. Vamos em frente e com esperança de que nossa vitória não vem de uma conjuntura mais positiva e sim da força do amor divino que está em nós. Esse é o segredo da santidade nossa de cada dia.
Até hoje, a comunidade ecumênica de Taizé tem uma oração muito repetida na prece do meio dia que diz: Guarda-nos, Senhor, na alegria, na simplicidade e na misericórdia, segundo o evangelho (das bem-aventuranças). Abençoa-nos nesse caminho..”

Marcelo Barros

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