Sínodo da Amazônia (II): UM SÍNODO QUE AUSCULTOU O ESPÍRITO NO CLAMOR DO POVO. Pe. Agenor Brighenti

O Sínodo da Amazônia, por ser da periferia, por ter sido preparado e realizado sinodalmente, por ter dado voz em especial aos povos indígenas e às mulheres, por fazer da defesa e cuidado da ecologia uma agenda pastoral, incomodou a muitos, de fora e de dentro da Igreja. De fora da Igreja,

Sem dúvida, uma marca do Sínodo da Amazônia foi a presença, além dos 186 padres sinodais, de bom número de indígenas, muitos deles e delas vestidos a caráter. Como disse um indígena: “Papa Francisco, gracias a Usted, los emplumados están en su casa y nos sentimos acogidos en su corazón”. Também houve a presença de auditores, peritos, delegados fraternos de outras Igrejas, assim como convidados especiais.

Em caminho, um novo perfil de sínodo

A pluralidade de participantes era a expressão de um novo perfil de Sínodo, definido recentemente pela nova Constituição Apostólica Episcopalis communio (18/09/2018). Ela põe este organismo de assessoria ao Primado, criado por Paulo VI em 1965 no final do Concílio, a “serviço de todo o Povo de Deus”. Para Francisco, o Sínodo dos Bispos precisa ser “um canal proporcionado mais à evangelização do mundo atual que à auto-preservação” (n. 1). Por isso, passou a ser um organismo intimamente ligado ao sensus fidei de todo o Povo de Deus, no seio do qual o bispo, além de mestre se torna também “discípulo, quando sabendo que o Espírito é concedido a cada batizado, se coloca à escuta da voz de Cristo que fala através de todo o Povo de Deus, tornando-o infalível in credendo” (n. 5).

A nova Constituição frisa que o Bispo, como membro do Povo de Deus, é chamado a “caminhar à frente, indicando o rumo, apontando o caminho; a caminhar no meio, para fortalecer o Povo de Deus na unidade; a caminhar atrás, não só para que ninguém fique para trás, mas também e, sobretudo, para seguir a intuição que o Povo de Deus tem para encontrar novos caminhos”. Daí, para o Papa Francisco, a necessidade do Sínodo ser menos de bispos e “tornar-se cada vez mais um instrumento privilegiado de escuta do Povo de Deus”, integrado também por “pessoas que não detêm o múnus episcopal” (n. 6). Assim, “aparecerá cada vez mais claro que, na Igreja de Cristo, vigora uma profunda comunhão entre os Pastores e os fiéis, pois cada ministro ordenado é um batizado entre os batizados, constituído por Deus para pastorear o seu Rebanho” (n. 10). Neste particular, certamente os próximos passos no aprimoramento do perfil do Sínodo precisam contemplar pelo menos três outros aspectos: ser organismo mais deliberativo que consultivo, tanto que já se publica o documento final da assembleia e o resultado da votação de cada parágrafo; incluir o direito de voto às mulheres, já permitido, por exemplo, aos superiores maiores das Congregações Religiosas masculinas, mas não às femininas; incluir o direito à palavra aos peritos, por hora, com acesso à palavra somente nos Círculos Menores e se o seu coordenador julgar oportuno.

Quando o Espírito vem pela contra-mão

Foi este perfil de assembleia que se viveu no Sínodo da Amazônia, ainda que não sem aprendizados a fazer, especialmente por pessoas colaboradoras de casa do Papa, ainda ligadas ao modus operandi do passado. Houve muita escuta no processo de preparação do Sínodo, como também durante sua realização, em clima fraterno, respeitoso, acolhedor. Mas, alguns de casa digeriam com muita dificuldade esta abertura. Parecia pedir-lhes demais se colocarem no mesmo patamar de um bispo da floresta amazônica, outrora vistos “pouco mais que índios mitrados”, como disse um bispo do Paraguai na Conferencia do Rio de Janeiro em 1955 diante da vigilância da Cúria romana. E muito mais ainda era pedir para auscultar o Espírito na voz de povos normalmente vistos como mal evangelizados, sincréticos, panteístas na veneração à pacha mama, que adentram a Basílica de São Pedro e vão fazer ofertas no altar, ornamentados com seus trajes e adornos. Numa das Congregações Gerais, o Papa Francisco se disse ofendido por comentários de gente de casa, ridicularizando a presença numa procissão de ofertas, de indígenas portando seus adornos. Perguntou: “qual a diferença entre o cocar de um indígena e o tricórnio que usam alguns oficiais de nossos dicastérios?”

Sem dúvida, uma das marcas deste Sínodo foi a escuta atenta dos participantes, com muitas intervenções seguidas de calorosos aplausos, em especial de indígenas e mulheres. E nos quatro minutos de silêncio depois de cada quatro intervenções, procurou-se auscultar as interpelações do Espírito. Mas, de novo, alguém de casa não hesitou em dizer em sua intervenção, que a Igreja na Amazônia havia chegado ao Sínodo com decisões tomadas, apesar do Espírito Santo. Não passou por sua cabeça se perguntar se não haveria em seu juízo uma falta de abertura para acolher o novo, que muitas vezes vem na contramão de rumos que atribuímos a Deus, mas que podem provir de um “eu” mais propenso a possuir a verdade do que a deixar-se possuir por ela.

Quando a periferia vem para o centro

O fato é que o Sínodo da Amazônia, por ser da periferia, por ter sido preparado e realizado sinodalmente, por ter dado voz em especial aos povos indígenas e às mulheres, por fazer da defesa e cuidado da ecologia uma agenda pastoral, incomodou a muitos, de fora e de dentro da Igreja. De fora da Igreja, manifestaram-se elites defensoras de “uma economia que mata”, taxando a preocupação com a Casa Comum de romantismo ecológico, empecilho ao desenvolvimento ou mesmo de prestar-se a iniciativas de internacionalização da região amazônica. E para elites católicas, toda proposta de abertura de novos caminhos, tende a ser vista como ruptura com a tradição e conivência com o comunismo. De dentro da Igreja, levantaram-se segmentos tradicionalistas ciosos da ortodoxia, do zelo pela pureza da fé, da preservação da tradição, na contramão da renovação do Vaticano II, respaldados inclusive por alguns purpurados. Ilustrativo é o episódio relativo às três estátuas em silhueta de uma mulher indígena grávida, símbolo da vida e da fertilidade, as quais, na abertura do Sínodo, juntamente com outros objetos como canoa, rede de pesca e frutos da floresta foram levados na caminhada da Basílica de São Pedro à Aula Paulo VI, e, depois, colocados na “Casa Comum” da Igreja da Traspontina. Numa madrugada, ato flagrado por câmeras, as imagens foram roubadas da Igreja e jogadas no Rio Tibre. Diante de comoção de tantos, a reação de um purpurado foi que o problema não era terem tirado imagens da Igreja, mas o fato de as terem levado para lá. Recuperadas intactas pela polícia, na última Congregação Geral, as imagens foram postas à frente da bancada da presidência do Sínodo e, o Papa Francisco, numa atitude de profundo respeito à identidade dos povos, pediu perdão, como Bispo de Roma, às pessoas que se sentiram ofendidas pelo reprovável ato. Referindo-se a estas “elites” católicas e pouco cristãs, na alocução final de encerramento do Sínodo, de forma destemida, o Papa Francisco citou Charles Peguy: “Porque eles não têm a coragem de estar com o mundo, acreditam estar com Deus; porque não têm a coragem de comprometer-se com as grandes causas da humanidade, acreditam lutar por Deus; porque não amam ninguém, se creem amados por Deus”. A assembleia irrompeu em calorosa e prolongada salva de palmas.

 

 

 

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