Aprender da vida

Por Padre Celso Carlos Puttkammer dos Santos,
desde a Ilha e da Prelazia do Marajó, neste retiro de Quaresma e de Páscoa.

 

Apesar das ruínas e da morte,
Onde sempre acabou cada ilusão,
A força dos meus sonhos é tão forte,
Que de tudo renasce a exaltação
E nunca as minhas mãos ficam vazias.
Sophia de Mello Breyner Andresen, in ‘Antologia Poética’

A humanidade toda passa por – eu acredito – sua maior crise. Não me refiro apenas à pandemia do coronavírus (covid-19). O coronavírus pode-se dizer que é o escopo de uma crise civilizacional. Li um meme que minha irmã compartilhou na internet e me deixou impactado! Esse meme traz uma verdade e diz o seguinte: “Se depois dessa pandemia não nos tornarmos pessoas melhores, então não teremos aprendido nada da vida”. Nunca li um meme tão verdadeiro e tão profundo: se não aprendermos agora a sermos verdadeiramente humano, de nada valerá todo esse sofrimento.

Junto a isso, tenho revisitado livros e ouvido músicas antigas. Dentre os livros a trilogia de Saramago (e também um livro incompleto) é que tem ocupado meu tempo (É claro que outras coisas também faço. Refiro-me aqui àquelas coisas que não tinha conseguido fazer com tempo e prazer). A trilogia é “Ensaio sobre a Cegueira” (1995) – que trata de uma doença que não se sabe a causa, mas provoca uma cegueira branca e é contagiosa. O livro aponta para o que é de pior e de melhor no ser humano diante de uma dificuldade. No “Ensaio sobre a Lucidez” (2004), o povo por suas vezes vota em branco numa determinada região; por retaliação os poderes constituídos e repressores resolvem isolar a região. Em “Intermitências da Morte” (2005) a problemática é a ausência da morte que, num primeiro momento, parece ser o sonho realizado, mas ao final tornou-se um problema. Neste romance destaca-se a necessidade da morte e a vida como um tempo a ser bem vivido e celebrado. Neste livro, Saramago coloca a epígrafe: “Saberemos cada vez menos o que é um ser humano” (Não quero dar spoiler porque é fundamental que todos leiam e você os encontra na internet; ou ainda posso enviá-los por e-mail).

Estes livros apresentam – em minha interpretação – a questão da consciência, da cidadania e do sentido da vida. Nada mais apropriado para nossos tempos. Eles nos ajudarão a ressignificar nossas vidas no pós-coronavírus. O primeiro dado é que não há uma causa aparente para o surgimento da doença-cegueira, dos votos em branco e da ausência da morte. Saramago é crítico à sociedade do nosso tempo: a falta de solidariedade, a ganância desmedida, as estruturas sócio-políticas-econômicas injustas, uma religião superficial e mercantilizada, a autossuficiência humana, entre tantas marcas tão evidentes em nossa época. Em segundo lugar, parece-me que Saramago é um pessimista em relação ao ser humano. Em seus livros, o ser humano, geralmente, revela em grande parte de seus personagens o pior de sua humanidade.

Nem por isso, deixa de apresentar uma ponta de esperança em seus romances. Há uma mulher que aparece nos dois “Ensaios” e uma outra na forma da “Morte”. No “Ensaio sobre a cegueira” a mulher do oftalmologista o acompanha e cuida dele, superando todos os obstáculos. Esta personagem aparece novamente no “Ensaio sobre a Lucidez”. A sensibilidade feminina tem muita a nos dizer nestes tempos atuais. Ela é a interlocutora entra a dura realidade e o sonho de um mundo melhor. Em meio aos sofrimentos a amorosidade e o cuidado são fundamentais. É hora de dar um basta no racionalismo doentio e insensível deste jeito de organizar nossa sociedade. É urgente recuperar a solidariedade que nos leva a acompanhar, a estar juntos a nos aproximar uns dos outros, a ter compaixão e cuidar das pessoas (cf. CF 2020).

Neste momento não nos basta apenas a sensibilidade. É urgente fortalecer a esperança, acordá-la do sono profundo em que a colocamos. Queremos, sim, renovar nossa esperança na humanidade, na convivência fraterna nesta Casa Comum. Durante as crises é que nascem as esperanças; em meio à distopia é que a utopia se impõe. De onde nos vem a esperança? Estamos como o sacerdote e o levita que passaram para o outro lado da estrada quando viram alguém caído. Não conseguimos perceber o grandioso fato eclesiológico e profético que foi o Sínodo para a Amazônia, e que nos presenteou com dois grandes documentos: “Amazônia: Novos Caminhos para a Igreja e para uma Ecologia Integral – Documento Final” (2019) e a Exortação Apostólica Pós- Sinodal do Papa Francisco – Querida Amazônia” (2020). De maneira complementar estes dois Documentos tratam de um mesmo tema, apontando os “Sonhos“ e os “Novos Caminhos”, não apenas para os povos e a Igreja nesta região. Estes dois mananciais de vida e de esperança aponta para a nova humanidade que deve emergir a partir da nossa conversão. A voz do Papa e dos Bispos assumem o grito da terra e dos povos amazônicos, da Amazônia, uma “beleza ferida e machucada” pela ação gananciosa do homem (cf. DF, n.10). Sim, é um grito de desespero, pois esta beleza está sendo destruída, consumida, explorada para atender à ganância do mercado e para gerar lucros para os capitalistas. Se de fora para dentro vem a dor, do coração da Amazônia brota a esperança, um “grito profético e árduo empenho” (cf. QAm, n. 8) para manter a vida de pé e a sobrevivência de seus povos e de toda a humanidade.

Há tempos vem sendo discutida a questão do “Bem Viver”. Muitos podem ser levados a confundir com o comodismo e o conforto da vida moderna, das tecnologias. Mas não tem nada a ver com este bem estar capitalista. O “Bem viver” tem a ver com um estilo de vida, com a nova forma de vida que devemos colocar em prática a partir desta enorme e sem precedentes Crise. Os modelos atuais se esgotaram porque pensam e agem sempre na lógica exploradora, produtivista, consumista, gananciosa e individualista. O “Bem viver” nos pede para rever todo nosso modo de estar na Casa Comum e nas relações que vamos tecendo com os outros, com a natureza, com a gente mesmo e com Deus. Tanto “Documento Final” (DF) quanto a Querida Amazônia (QAm) nos apresentam a necessidade e a urgência da conversão cultural, baseada na descolonização. Onde quer que vamos encontramos pessoas, culturas, costumes, histórias, isto é, uma vida já pulsando há muito tempo. É preciso respeitar esta cultura, esta história e suas realizações; é necessário acolhê-las, reconhecê-las e valorizá-las!  Esta conversão exige que abandonemos todo e qualquer tipo de autoritarismo, imposição, supremacia, manipulação, arrogância. É preciso inculturar-se, deixar-se converter, isto é, desaprender muitas práticas impregnadas em nós e reaprender a (con)viver e a respeitar o outro.

O exercício de reaprender para poder conviver com o outro e respeitá-lo passa pela conversão ecológica. O nosso planeta não suporta o nosso modo de viver, individualista, egoísta e consumista. Os padrões de produção e de consumo colocam a nossa existência em risco, mas coloca também em risco a continuidade da vida no planeta: estamos a ponto de matar a vida e o planeta agora, isto é, cometer um suicídio coletivo e deixar como herança rastros de morte terríveis. A busca desenfreada por lucro e produtividade tem como efeito colateral todos os males que temos enfrentado. Mais visível é a pandemia do coronavírus. Ninguém sabe qual a origem, mas com certeza, ela é fruto desse processo ganancioso e aético na busca por resultados de melhor produtividade e de lucro das empresas, de maneira especial a farmacêutica. Os povos da Amazônia têm nos mostrado que é possível conviver harmonicamente com a Mãe Terra desde que compreendamos que seus recursos são para todos e sai finitos, isto é, limitados: os nossos recursos acabarão. A Terra não é uma fonte inesgotável de produtos e riquezas. Precisamos aprender a viver com o pouco, com o limitado, pois nós também somos limitados. Precisamos aprender a conviver de maneira harmônica! Por isso, é urgente e necessária uma conversão ecológica pessoal – importante, sim – mas fundamentalmente uma conversão ecológica comunitária-societária. Esta é a chance que Deus está nos dando para uma ruptura com esse modelo explorador, produtivista e extrativista e – para que haja um futuro para a Terra e seus habitantes – assumir o bem viver, bem conviver com uma vida simples, marcada pela colaboração e respeito aos ritmos da nossa Casa Comum.

Estamos numa encruzilhada! Qual caminho devemos seguir para que, de fato, aprendamos deste tempo de pandemia do coronavírus. Em primeiro lugar, com o Papa Francisco e os Bispos Sinodais e todos os participantes, precisamos uma grande mudança de rumos, que nós cristãos e cristãs chamamos de conversão. A literatura de Saramago nos mostra que – como seres humanos – somos capazes nos momentos difíceis de mostrar o nosso pior lado. Mas não podemos desacreditar no ser humano, pois somos imagem e semelhança de Deus. O ser humano é capaz, por amor e reverência, de entregar-se e dedicar-se quando é capaz de amar. Jesus nos ensinou que nossa missão é amar incondicionalmente, até mesmo os inimigos. É hora de exercitar esse amor, desde os pequenos gestos de solidariedade para com os vizinhos e vizinhas; mas também é necessária uma ruptura com esse modelo ou esse estilo de vida que está nos levando à autodestruição. A solidariedade passa por todas as esferas de nossa vida e nos pede a mudança: no jeito de viver, no jeito de consumir, jeito de produzir, de jeito de conviver, no jeito de nos relacionar, e no jeito de sermos cristãos e cristãs nesse mundo. A espiritualidade cristã traz presente em sua liturgia da Quaresma deste ano a preparação para a celebração dos sacramentos. Final de semana passado – segundo domingo da quaresma – a água da vida; neste terceiro, a recuperação da visão do cego; no quarto, o reavivamento de Lázaro. Precisamos nos abastecer de uma fé comprometida com a vida, que abra nossos olhos para enxergar a realidade como ela é e poder fazer que as pessoas recuperam sua vida e sua esperança de desamarrar de tudo o que os impede de viver e de ser.

Como nos lembra Sophia de Mello: “A força dos meus sonhos é tão forte, / Que de tudo renasce a exaltação / E nunca as minhas mãos ficam vazias”, assumamos com toda força os Sonhos que o Papa Francisco nos propõe, para que tudo renasça e possamos chegar diante do bom Deus com nossas mãos cheias de vida que semeamos ao longo do nosso caminho. Que as críticas de Saramago nos ajudem a redefinir nossas prioridades na vida. Que não aconteça isso que o meme que roda na internet não aconteça conosco: “Se depois dessa pandemia não nos tornarmos pessoas melhores, então não teremos aprendido nada da vida”. Tornemo-nos pessoas sensíveis, solidárias, ecológicas, aprendizes, fraternas, comunitárias, respeitadoras, generosas, gentis, … isto é, tenhamos “os mesmos sentimentos que havia em Cristo Jesus” (Fl 2,5). Que esta pandemia nos torne melhores, e nos faça aprender a grande lição de que estamos todos juntos navegando neste planeta terra e temos um mesmo destino: ajudemo-nos a salvar a nós e à nossa Casa Comum, grande dom de Deus!

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