Resistência da Pastoral da Juventude: a construção do Novo nas mãos das/os jovens. Vinícius Borges Gomes

“Ouso dizer que a PJ tem, hoje, uma missão maior do que a que pensou ter em seus primeiros anos. Resistir é mais difícil do que se construir. Ir além do seio que um dia cremos ser seguro é propor-se a enlamear-se. É Loucura Sagrada.”

Diz a voz invisível do deus “Mercado” que o lucro deve imperar. As relações humanas baseiam-se no comércio. Há uma verdadeira adoração ao dinheirotão abundante para uns e raro para muitos. A propaganda, ávida e onipresente, nos instiga a consumir. Quanto mais consumo, menos recursos naturais. A Terra reage numa ferocidade que parece chorar de dor.

Num cenário como este, onde bilhões de pessoas continuam a conviver com a fome, a ausência de direitos, a violência e a escravidão, surgem questionamentos: estaríamos abandonas/os? Como lutar contra um sistema capitalista que gera sofrimento e ameaça a existência da humanidade? As respostas são múltiplas e diversas em seu conteúdo. O que une quem se deixa indignar pelos frutos podres da contemporaneidade dominada pelo Capital são o desejo e a necessidade de resistir. Em meio às instituições, também contaminadas por essa realidade, grupos dos mais diversos continuam a questionar e a fazer de sua ação uma missão em favor de um novo modo de pensar a sociedade.

A Pastoral da Juventude no Brasil, por exemplo, resiste. Resiste em várias frentes e, pela necessidade de resistir, aprendeu a falar bastante de Identidade, no seio da Igreja, a qual pertence: a Católica. Somente um povo, uma cultura ou um grupo ameaçado precisa reafirmar aquilo que é para que não suplantem sua memória.

É estranho pensar em resistência periférica em tempos de Francisco. Parecia improvável que um papa dissesse tanta coisa que teólogos da libertação e grupos ligados a esse fazer teológico já diziam há anos, sofrendo calúnias e reservas dos setores que se tornaram majoritários no seio da Igreja.

Mas a Igreja não é só o Papa. E, até mesmo ele, enfrenta cardeais oposicionistas ou silenciosos rezadores, que abandonaram sua devoção papal aguardando um novo conclave. As sementes de uma religião na contramão do Vaticano II cresceram. Elas se apresentam de modo forte e exigem posturas firmes para que o diálogo não cesse. Só assim uma visão mais humanitária da missão eclesial pode renascer.

As Pastorais Sociais, as Comunidades Eclesiais de Base (CEBs), a Comissão Pastoral da Terra (CPT), Conselho Indigenista Missionário (CIMI) e as Pastorais da Juventude – Pastoral da Juventude do Meio Popular (PJMP), Pastoral da Juventude Rural (PJR), Pastoral da Juventude Estudantil (PJE) e Pastoral da Juventude (PJ) – são alguns dos exemplos de campos de resistência na Igreja. Fazem-no pelo discurso arraigado numa visão popular, pés no chão e em sintonia com a realidade. Não têm os melhores espaços e convivem com perseguições em muitas dioceses. São poucos os clérigos ou religiosas/os que os acompanham. Mas permanecem fortes.

A Pastoral da Juventude, especialmente, vivencia, junto das Pastorais da Juventude específicas, uma realidade de mudança discursiva, no mínimo, perigosa. Criou-se a estrutura da “Pastoral Juvenil”. Um conceito frágil, que cria confusão na organicidade da evangelização, e perigosamente pode confundir o termo historicamente usado para designar a PJ e suas irmãs em Identidade e Missão na América Latina. Ao unir todas as múltiplas experiências juvenis nessa estrutura nacional (Pastoral Juvenil) ou diocesanas (Setores Juventude), a PJ corre o risco de ser jogada ao escanteio nas dioceses, onde acaba sofrendo – não em poucos lugares – perseguições. A prioridade da evangelização por meio dos grupos de base, bebendo da Mística e da formação para a ação social, acaba ficando em segundo plano. Por vezes, em nome do diálogo na diversidade, sobressai a vivência religiosa de massas, o olhar excessivamente interno para a experiência devocional e um afastamento das discussões urgentes sobre a realidade das Juventudes.

Se a PJ, com sua visão profética e encarnada na realidade das/os jovens, deixou de ser a ação preferencial e orgânica da Igreja para Evangelizar as Juventudes, é preciso encontrar espaços de resistência e vida. E isso exige muito suor, diálogo, dores e angústias para manter vivo o modelo de ser e fazer que se tornou referência em grandes documentos, como o “Civilização do Amor: Projeto e Missão”.

Pregar um Evangelho testemunhado na luta exige um discurso anti-Capital. Se o pecado da idolatria ao deus Mercado se tornou naturalizado, é preciso gritar e combater. É necessário pensar a religião de forma dialógica, tendo no Amor o princípio ético da unidade. Contra a incompreensão e o crescimento do fundamentalismo, é necessária a paciência e o olhar pedagógico. Precisamos conversar entre os e as jovens e plantar sementes de profecia. Essa é a práxis de Jesus, que em seu ministério, mostrou na Compaixão e na Misericórdia qual deve ser o modo de pensar as relações entre a humanidade. Por isso a PJ, desde seu nascimento, ainda nos anos 70, reafirma, como também fez a Igreja, sua “opção pelos/as pobres e excluídas/os”. Continuar gritando isso no cenário de avanço do conservadorismo, do saudosismo a um magistério arcaico e perigoso, significa assumir uma postura capaz de lançar luz na Igreja e abrir as portas e as perspectivas com os imprescindíveis diálogos necessários com quem está de fora.

Isso ocorreu na “Campanha Nacional contra a Violência e Extermínio de Jovens”; foi o que iluminou a presença ousada no Conselho Nacional de Juventude (Conjuve) – que se encerrou após o golpe; é o que tem ajudado a construir a Campanha de enfrentamento à violência contra a mulher; também lançou luz na discussão sobre as diversas realidades vivenciadas pelas/os jovens, as quais a PJ chamou, sob uma inspiração teológica, de Galileias Juvenis.

Ouso dizer que a PJ tem, hoje, uma missão maior do que a que pensou ter em seus primeiros anos. Resistir é mais difícil do que se construir. Ir além do seio que um dia cremos ser seguro é propor-se a enlamear-se. É Loucura Sagrada. Por tudo isso, é também preciso o cuidado de não cair numa vivência anacrônica e saudosista. Para tanto, creio que o contato com outros grupos de igual vivência Libertadora seja a fonte do Novo necessário aos tempos que pedem a unidade na busca do Bem-Viver. Essa é uma opção ao cenário negativo da idolatria ao consumo, que nos consome. A Mística é a chave de uma nova luta e construção.

Por Vinicius Borges Gomes

Fonte Revista Senso 26 de outubro de 2017

Fotos arquivos web

Vinícius Borges Gomes é Graduado em Comunicação Social (Jornalismo) pela Universidade Federal de São João del-Rei (UFSJ) e mestrando em Comunicação e Poder pela Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF). Está na Coordenação Nacional da Pastoral da Juventude pelo Regional Leste 2 (MG e ES) e contribuiu na autoria do livro “Bora falar de Pastoral da Juventude?” (CCJ, 2017).

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