Sim a vida à Vida com Esperança, não à morte banalizada. Pe Vilson Regional Sul IV

Na manhã de sexta-feira santa nós, das quatro Paróquias que compõem o Maciço do Maciço do Morro da Cruz, queremos dar visibilidade à coroa de espinho do grande grito de Cristo na Cruz: “Meu Deus, meu Deus, porque me abandonaste”. Esse grito ecoa pela boca da juventude que vem sendo assassinada em nosso país e em nossa cidade. A população brasileira de 15 a 29 anos é constituída por 51 milhões de jovens, os jovens representam no Brasil 54% dos desempregados, 46% dos migrantes e 56% da população carcerária. Este grito não pode ser ignorado, ele conclama a justiça.
Dados da Secretaria de Segurança Pública mostram que entre 1º de janeiro e 6 de abril de 2017 foram registrados 59 homicídios na capital. Neste mesmo período, foram 17 mortes em 2015 e 26 em 2016, isto representa um aumento de quase 200% em dois anos. Para o delegado titular da Delegacia de Homicídios Ênio de Mattos, pelo menos metade das mortes estão relacionadas à disputa entre facções. Estas facções ocupam os espaços públicos onde o Estado não atua deixando a sociedade civil a mercê da violência.
Nossa reflexão nesta manhã, fruto dos aprendizados vividos nestes mais de 30 anos de atuação nas comunidades de periferia de Florianópolis, reforçam cada vez a percepção de como não podemos mais naturalizar a injustiça e a desigualdade social. O sentimento latente é que precisamos cada vez mais romper com a cultura da indiferença que acaba com os sonhos de nossas crianças e jovens que são assassinados diariamente na Grande Florianópolis.
Nos caminhos do Maciço e nas ruas do centro desta cidade este grito não pode ficar surdo: “Meu Deus, meu Deus porque me abandonaste”. Por que abandonamos nossos jovens? Quantos outros jovens precisarão ser assassinados para que tenhamos a coragem de abrir nossos corações, nossos olhos e ouvidos e possamos ver, sentir e ouvir o grito de um jovem que nos pede oportunidade? Vale reforçar que todo ato violento é um grito de pedido de socorro!
Jesus Cristo fez de sua vida um serviço de lava pés na escuta e no acolhimento de cada grito humano. Acompanhou cada grito amando até o fim para resgatar a pele da dignidade humana com a expressão: Levanta-te e anda.
Levanta-te e anda! Essa é a razão que nos põe em movimento de esperança, que nos faz diariamente assumirmos os gritos dessa juventude e juntos protagonizar através de gestos os caminhos do ressuscitado nas pontes que se articulam e constroem elo de oportunidade, iluminando a periferia e o centro. Levanta-te e anda é um mandato de Jesus para não negligenciarmos o grito de nossa juventude no Maciço do Morro da Cruz e na Grande Florianópolis.
Ressuscitar a juventude é um imperativo de justiça que se materializa com políticas públicas voltadas para os jovens de 15 a 29 anos, nas parcerias para inserção ao mercado de trabalho e, na priorização dos jovens em nossas comunidades. Nosso sonho é que um dia, nós não tenhamos mais no mundo jovens assassinados de forma banal e brutal. Temos a esperança que é possível sim, um dia, haver equilíbrio entre as pessoas que vivem na humanidade e que produzem a riqueza, e que esta riqueza seja revertida dignamente para todos que a produzem, para que ninguém fique excluído e que todos tenham terra, pão e teto, palavras cunhadas pelo Papa Francisco aos Movimentos Populares. Esta é a motivação que nos alimenta e nos persegue diariamente. Nesta perspectiva, alimentar-se deste sonho é também fazer dele um modo de vida, de ser e de agir em relação ao bem comum, a fraternidade e, sobretudo, a solidariedade como elementos fundamentais para termos uma sociedade mais justa e igual que não naturaliza e que não é indiferente ao grito da juventude. Disse o Papa Francisco na Alegria do Evangelho: “não deixemos que nos roubem a comunidade e não vamos jamais abrir mão de optar pela fraternidade”. Por isto a violência não pode nos amedrontar. Se a violência é um ato aprendido, ela pode ser um ato desconstruído pelo caminho comunitário. Conclamamos cada caminhante que veio a esta Procissão da Via Cruxis de não deixá-lo pregado na Cruz pelas balas das gangues, mas, vamos juntos descrucificá-lo para desarmar a juventude armada através da cultura da paz, pelo caminho da justiça social. Gerar oportunidade e investir é muito mais prudente do que trabalhar nas consequências que não abrem caminho. O investimento médio mensal por jovem em um dos projetos estruturados pelas nossas Paróquias que tem como foco a prevenção e o resgate é de R$ 216,88, e podemos compará-lo ao custo com medidas de redução de danos, por exemplo: o custo médio de um preso no sistema penal catarinense em 2015 era, segundo o TCE/SC, R$ 1.544,41; o custo de um jovem em conflito com a Lei cumprindo medida em semiliberdade era de R$ 2.738,75; e o custo de um jovem em conflito com a Lei cumprindo sua medida de internação provisória em regime fechado era de R$ 4.231,36.
Queremos voltar para as nossas casas fortalecendo a esperança e acreditando que a juventude tem uma predisposição para a mudança. Quando se constroem as oportunidades eles são capazes de reverter às dificuldades como a do desemprego, falta de escolarização, a violência, com criatividade e muita ousadia. Os jovens possuem em suas entranhas um potencial para se tornarem protagonistas em busca de melhores condições de vida, justiça social, melhor distribuição de renda, políticas públicas para a juventude, se pondo na condição de sujeitos de direitos. Que o próximo Sínodo dos Bispos, que tratará sobre as questões da juventude, possa abrir espaços para pensarmos com atenção especial aos jovens empobrecidos e excluídos das periferias do mundo e da Grande Florianópolis, lutando pela cidadania plena, para que todos tenham vida em abundância. Junte se a nós nesta caminhada de luta pelo sim à vida com esperança e não à morte banalizada!
Florianópolis, 14 de Abril de 2017.
Os Párocos das Paróquias da Trindade, Saco dos Limões, Agronômica e Prainha.
Pe. Vilson

fonte ( arquivos web)

Imagem https://www.facebook.com/matheusribsoficial/

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