A primeira Carta Encíclica do Papa Leão XIV, muito esperada, tem repercutido de maneira intensa no mundo afora, dentro e fora da Igreja. Uma Encíclica é uma Carta Pastoral que serve para toda a Igreja como orientação e preocupação pastoral. Portanto, não podemos deixar de registrar algumas reflexões, estabelecendo vínculos com a nossa caminhada pastoral desenvolvida pelas Comunidades Eclesiais de Base. Afinal, estamos no horizonte de “construir a cidade onde Deus e a humanidade habitam juntos”.
Diante dos desafios atuais, o texto da Encíclica apresenta as questões centrais da caminhada da Igreja: “Para onde vamos? Para que meta desejamos orientar-nos? Que direção escolher enquanto comunidade humana e enquanto povos?”. Enquanto CEB, podemos e devemos fazer essas mesmas perguntas. Ou estamos numa posição de “igreja cansada”, que perdeu o encanto da caminhada?
O Papa Leão XIV, logo no início, utiliza duas imagens bíblicas que são verdadeiros espelhos nos quais podemos nos olhar. Em primeiro lugar, a imagem da construção da cidade de Babel, com uma torre que chega aos céus, conforme descrito em Gênesis 11,1-9. Trata-se de um projeto de poder e estabilidade conduzido por um pequeno grupo de “famosos” ou poderosos. É um projeto pessoal, sem nenhuma referência a Deus, de uma cidade edificada sobre o orgulho e sobre a pretensão de bastar-se a si mesma. Fala muito de Deus, mas para alcançá-lo e tomar-lhe o lugar. O resultado dessa cidade construída é a disputa, a dispersão e o fracasso do projeto.
A segunda imagem bíblica é descrita em Neemias 1–2 e relata o retorno de uma parte do povo hebreu para Jerusalém após o exílio na Babilônia. Ao regressar, encontra a cidade completamente destruída, em ruínas e devastada pelo fogo. Neemias não sabe como começar a reconstrução da cidade. Começa jejuando, rezando e intercedendo pelo povo. Olha, desolado, para a cidade destruída. O que fazer? Para onde ir? Com quem contar?
É nessa situação que Deus age na história e caminha com seu povo. O trabalho de Neemias não será um projeto pessoal de reforma da cidade, nem de um grupo de poderosos que resolvem investir para usufruir lucros mais à frente. Neemias convoca as famílias que retornaram do exílio e distribui as tarefas para cada uma, a fim de reconstruir a cidade. Todos juntos arregaçam as mangas e põem mãos à obra! É nesse contexto que Deus age. Em comunhão com Deus e com os irmãos, a obra vai acontecendo. Deus ocupa o lugar determinante nessa cidade e no projeto de reconstrução.
Não encontramos aqui uma linguagem que confunde as pessoas, que divide, mas uma linguagem que produz comunhão: uma linguagem comum, marcada pela solidariedade. A cidade de Deus não tem divisão, não tem uniformidade, não tem projeto pessoal, mas solidariedade e comunhão. A obra cresce e se torna bela. Ela é de todos e comporta todos, não exclui ninguém.
Que comunidade queremos formar nestes tempos de Inteligência Artificial? Em cada paróquia ou comunidade, podem-se desenvolver os dois tipos de projeto Babel ou Jerusalém. Quando os laços servirem para curar, conectar, educar e cuidar da Casa Comum, usando ou não as novas tecnologias, estaremos construindo a cidade de Deus, a comunidade de Deus, a paróquia de Deus. Porém, também podem ser usados laços que dividem, descartam e geram novas injustiças. Nesse caso, teremos uma comunidade semelhante à Babel.
Quando uma comunidade ou uma paróquia se torna projeto pessoal ou de um determinado grupo, pode-se ter a certeza de que Deus ali não habita. Será o lugar do orgulho, da divisão, da guerra entre grupos e da confusão. É comum ouvir as pessoas se referirem aos “donos da igreja”. Que triste ter uma cidade, uma comunidade, onde Deus não é o dono!
O caminho de Neemias é o modelo apontado pelo Papa Leão XIV para o caminhar de nossas Igrejas com suas comunidades eclesiais. Trata-se de um caminho sinodal que valoriza o trabalho conjunto, que garanta paz para a cidade, justiça, edificação coletiva, transformação da diversidade em recurso de enriquecimento, e que faz da escuta e do diálogo um terreno comum onde crescem a justiça e a fraternidade.
Refletindo sobre o tema do XVI Intereclesial, que acontecerá em Cachoeiro de Itapemirim entre os dias 20 e 24 de julho de 2027, o caminho de Neemias para a construção da comunidade precisa incorporar “as juventudes na alegria do Evangelho”.
Só que o trabalho de construção deverá acontecer em cada comunidade, em cada paróquia. Nossas juventudes estão desaparecendo da Igreja. Por quê? Será que nosso modelo de comunidade não estaria se afastando do caminho de Neemias? Muitos jovens reclamam que não conseguem participar do trabalho conjunto na Igreja porque não sabem como seguir aquilo que já está instituído pelos grupos que conduzem a comunidade ou a paróquia.
A Encíclica nos aponta para uma construção orientada para o bem comum. O mesmo desejo de felicidade está presente em nossos jovens e envolve todas as dimensões da vida. Muitas vezes impomos uma linguagem comum, uniforme, que pouco ou nada contribui para a comunhão. Com Santo Agostinho, sentimos hoje que nossas juventudes vivem com um coração inquieto. Possuem um coração que aspira à felicidade. Estamos abrindo o caminho para elas, para que seus corações possam repousar em Jesus Cristo?
A Igreja tem uma grande responsabilidade em permitir que a nova Jerusalém desça do céu, de junto de Deus, e, como um dom, seja distribuída para toda a humanidade. Por isso, a graça se faz em forma de apelo para trabalharmos juntos, cultivando uma coexistência pacífica, justa e digna nas “cidades”, nas comunidades, nas paróquias, hoje, aqui e agora.
ESCRITO POR: Edebrande Cavalieri