EXALTAÇÃO DA SANTA CRUZ- A exaltação da fidelidade de Jesus

A exaltação da fidelidade de Jesus à Causa do Reino é o verdadeiro conteúdo da festa da Exaltação da Cruz.

Jo 3,13-17: Há de ser levantado o Filho do Homem

Estamos na festa da «Exaltação» da Santa Cruz. Se trata deste sinal que identifica o cristianismo mundialmente, como a meia lua identifica o islamismo ou a estrela de seis pontas formada por dois triângulos equiláteros – a estrela de Davi – é o emblema do judaísmo.
Dentro da mentalidade mágica, a cruz tem tido na história quase tanto valor como o Cristo que nela foi crucificado. «O sinal da cruz» tem espantado o demônio, tem afastado as maldições, tem «acompanhado» a todos os devotos, tem sido traçada milhões de vezes no ar derramando bençãos benfeitoras.
Na religiosidade popular, Cristo tem sido sobretudo o sofredor, o condenado, açoitado, crucificado, homem das dores, morto entre sofrimentos insuportáveis. A cruz tem sido o sinal da dor, tanto da dor de Cristo como da do mundo todo. Para os cristãos, o sofrimento de Cristo tem referência universal.
A inevitável dimensão dolorida da cruz, faz que sua «exaltação» não deixe de implicar problemas. Alguns agentes de pastoral, com frequência, tratam de evitá-los simplemente olhando para outro lugar, calando, ou falando de outra coisa. Porém, este método evasivo não é o melhor serviço que se pode fazer ao povo cristão. Cremos que é melhor enfrentar os problemas de frente e colocar-lhes nome e limites. É o que vamos tratar de fazer.
O primeiro grande perigo é essa mesma «exaltação» da cruz, pelo que pode ter de exaltação o sofrimento pelo sofrimento, como se tivesse um valor cristão por si mesmo. Ainda se conserva, em boa parte do povo cristão, uma imagem de Deus dolorida e amante do sofrimento, que parece alegrar-se quando vê sofrer, o que só concede sua graça ou sua benevolência ao ser humano em troca de sofrimento. Muitas promessas da religiosidade popular se fazem sobre esse esquema: eu me sacrifico e ofereço a Deus um dano que me faço a mim mesmo, como «um pagamento anticipado para Ele, em troca do favor solicitado»… Este Deus diante do qual o que vale e o que lhe agrada é o sofrimento não é um Deus cristão. A exaltação de uma cruz que inclue – consciente ou inconscientemente– uma imagen de Deus assim não seria uma exaltação cristã.
É um gravíssimo problema essa teologia que ainda está aí, segundo a qual Deus enviou seu Filho ao mundo para sofrer, para sofrer horrorosamente, porque Ele seria desse modo o único capaz de oferecer uma reparação infinita à dignidade de Deus ofendida pelo ser humano em um «pecado original» (que históricamente não teve lugar)… Sem fundamento real no evangelho, esta teologia apareceu com o passar dos primeiros séculos, e foi santo Anselmo de Canterbury (século XI) quem lhe deu a configuração com que tem chegado até nós nos catecismos infantis. É a visão clássica da «redenção», a morte de Jesus na cruz redentora, que «paga» ao Pai, com seu sofrimento, para que este aceite restabelecer a boa ordem de suas relações com a Humanidade. Estreitamente unido a esta teologia está o «sacrifício» de Cristo na Cruz. Uma teologia que, por um lado, hoje em dia evidencia uma imagem de Deus que é inaceitável. Por outro, se trata de uma teologia que ainda figura – inexplicavelmente – nos documentos oficiais… Celebrar a Exaltação da Santa Cruz sem abordar estes problemas pode ser mais cômodo, porém não mais sincero nem mais proveitoso ou pedagógico. 
A cruz de Cristo não deveria ser utilizada como símbolo de tudo aquilo que a nossa vida humana tem de limitação estrutural, de finitude natural. Esta é uma dimensão natural de nossa vida humana («as cruzes da vida»), e a cruz de Cristo não tem nada de «natural», mas tem tudo de «histórico». Na cruz de Cristo – se não queremos cair en mistificações – não entram suas dificuldades e limitações humanas, nem as nossas: enfermidades, limitações, acidentes nem a má sorte. Isso não é a cruz de Cristo, mas são vicissitudes e peculiaridades da vida humana, que tem que saber levar e suportar/viver com graça e com bom humor.
A cruz de Cristo não foi um «desígnio de Deus», senão um desígnio humano, muito humano. Jesus, por sua parte, também não buscou a cruz («Pai, afaste de mim este cálice»), e nunca a cruz deverá ser buscada por si mesma, por parte de seus discípulos. Aquele adágio clássico, «Salve, Cruz, única Esperança!», tem que ser tomado com muita «cautelas» na forma de entendê-lo. Nem Deus, nem Cristo «amam a Cruz», nem nós outros devemos «amá-la», mas que, ao contrário, devemos «combatê-la». A tarefa do cristão, como a de Jesus, é combater a cruz, libertar do sofrimento o ser humano, «fazer todo o bem que se pode».
Claro que, ao lutar contra a cruz ocorre que se levanta a animosidade dos que estão interessados egoisticamente nos mecanismos de opressão. São pessoas e estruturas que imporão uma cruz sobre aqueles que lutam para libertar o ser humano de toda cruz. Outro adágio mais moderno e mais correto diz: «Busca a Verdade, a Cruz já te colocarão». Não tem que buscar a cruz. Mas também não tem que retroceder um milímetro na Verdade e na luta pela Justiça por medo da cruz que nos imporão…
Em definitivo, o que necessitamos exaltar não é a cruz, mas a coragem de Jesus, que optou pelo Reino e pelo amor sem medo da cruz, da qual tinha certeza e previu que lhe iriam impor. A exaltação da fidelidade de Jesus à Causa do Reino é o verdadeiro conteúdo da festa da Exaltação da Cruz.
Algumas pessoas se assustam quando se fazem estas releituras críticas. Lhes parece uma atitude negativista…

Preferem que se fale somente do positivo, e que o resto fique esquecido… Não compartilhamos dessa opinião.
Estamos em um momento de transição teológica, uma transição que acontece lentamente por causa precisamente dessa falta de sentido crítico na teologia e na homilética. Se os pregadores e os grupos de formação cristãos assumirem como tarefa habitual a de fazer a digestão crítica de todo o pensamento que ainda tem muito peso no cristianismo, sem dúvida que estaríamos em condições de dialogar melhor com o mundo atual. Por outro lado, toda renovação do pensamento e da vida necessita de um momento de «desconstrução», sem a qual, frequentemente, não é possível uma verdadeira renovação.

Oração:
Deus Pai e Mãe, que na vida, na paixão e morte de Jesus tens realizado tua máxima revelação para o mundo, segundo nos assegura nossa fé: Ele é o rosto da tua misericórdia! Que saibamos compreender e sempre de novo redescobrir o dom de, com olhos humildes, discernir o que continuas revelando em toda a história da humanidade, dentro e fora do cristianismo, para que a Palabra que pronunciaste em Jesus possa ser compartilhada com todos os povos. Amém. Axé. Awerê. Aleluia.

Fonte *Servicio Bíblico Latinoamericano – http://servicioskoinonia.org/biblico-

Colaboração de Waldir Bon Gass CEBs Regional Sul 3

Fotos Atelie 15 e Luis Miguel Modino

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