IGREJA DA BASE NA PERSPECTIVA DO PAPA FRANCISCO: “EU VI, OUVI E DESCI PARA SER SAL, LUZ E FERMENTO DE TRANSFORMAÇÃO”

“Atrevo-me a dizer que o futuro da humanidade está, em grande medida, nas vossas mãos, na vossa capacidade de vos organizar e promover alternativas criativas na busca diária dos “3 Ts”. Papa Francisco

Por Waldir José Bohn Gass
Coordenador do CNLB Sul 3

Faço algumas considerações a partir da matéria da nossa página, CEBsdoBrasil, “Assessores do 4ºSulão das CEBs. Igreja da Base na Perspectiva do Papa Francisco”, especialmente a partir das considerações de Benedito Ferraro, “CEBs: Cinco Notas Fundamentais de sua Identidade”.

Ignacio Ellacuría e Mariele vivem

Me inspira fundamentalmente Ignacio Ellacuría, padre jesuíta, cujo martírio, fruto de sua fidelidade a Deus nos pobres, completa trinta anos neste 16 de novembro. Ele percebia os pobres como o Povo Crucificado, continuação histórica do servo de Javé, ao qual o pecado do mundo continua tirando toda figura humana, ao qual os poderes desse mundo continuam despojando de tudo, ao qual continuam arrebatando tudo até a vida, sobretudo a vida.

Mas, também como Oscar Romero, seu Mestre pelo qual experimentou Deus visitando El Salvador, Ellacuría acreditava que todo esse sofrimento não era em vão, mas fonte de salvação para El Salvador e para a humanidade. Via os pobres como os principais protagonistas de um Outro Mundo Possível e mesmo urgentemente necessário. “Só utópica e esperançosamente se pode crer e ter coragem para tentar, com todos/as os/as pobres e oprimidos/as do mundo, reverter a história, subvertê-la e lançá-la noutra direção”.
Em junho de 2015, o Papa Francisco, falando com os movimentos populares, na Bolívia, renovava este grande ato de fé: “O futuro da humanidade não está unicamente nas mãos dos grandes dirigentes, das grandes potências e das elites. Está fundamentalmente nas mãos dos povos; na sua capacidade de se organizarem e também nas suas mãos que regem, com humildade e convicção, este processo de mudança. Atrevo-me a dizer que o futuro da humanidade está, em grande medida, nas vossas mãos, na vossa capacidade de vos organizar e promover alternativas criativas na busca diária dos “3 Ts” (trabalho, teto, terra), e também na vossa participação como protagonistas nos grandes processos de mudança nacionais, regionais e mundiais.”

É isso que faz tremer as elites do tirano poder imperialista, que segue oprimindo e explorando os pobres, saqueando as riquezas naturais de suas nações e criando as condições para sua super-exploração, pois seu estômago é o lucro sem limites e seu coração é a ganância sem medida. E quem tenta impedílos, é perseguido, marcado como comunista, com vocação autoritária, quando não preso, caluniado e mesmo assassinado como aconteceu com tantos e tantas, a exemplo de Mariele Franco, cristã leiga, cuja luz, contudo não puderam apagar e que segue iluminando o nosso caminho e nos enchendo de coragem para nunca desanimarmos.

Com Ignacio Ellacuría podemos afirmar que a grande tarefa salvífica é, então, ajudar aos pobres a perceber essa surpreendente Boa Notícia da parte de Deus, que os faça experimentarem-se o próprio Povo de Deus, portadores de direitos invioláveis que os impulsiona a não desanimarem nas suas lutas por estes direitos sagrados. Ajudá-los para que a partir de sua pobreza material alcancem a consciência e o espírito necessário, primeiro para sair da indigência e opressão, segundo para terminar com as estruturas opressoras, terceiro para instalar céus novos e terra nova, onde o compartilhar prima sobre o acumular, onde haja tempo para escutar e alegrar-se com a voz de Deus no coração da história humana.

Avança na reflexão, Ellacuría: Os pobres salvarão o mundo; já o estão salvando, embora ainda não. Buscar a salvação por outro caminho é erro dogmático e histórico. Se isso implica esperar contra toda esperança, é, definitivamente, uma confiança segura de que se conseguirá tudo isso um dia. Os pobres continuam sendo a grande reserva da esperança e da espiritualidade humanas.

Não só uma Igreja Pobre e dos Pobres, mas OS POBRES, IGREJA / POVO DE DEUS

Sim, talvez tenha sido esta a grande intuição de José, sempre de novo convidado por Maria a se juntar com as Comunidades de Base de então, pois por elas e nelas Deus estava a realizar as suas maravilhas, seu projeto de vida e liberdade. Com Maria, pode experimentar que era com os pobres que o Deus da Vida realizava e realiza história de salvação, loucura e escândalo, inclusive para muitas pessoas de bem, ontem e hoje.

Como nos lembra Francisco, na sua vigorosa e amorosa mensagem para o III Dia Mundial dos Pobres, “perante esta multidão inumerável de indigentes’, que vem crescendo diante desse processo cruel e criminoso de retirada de direitos, “Jesus não teve medo de Se identificar com cada um deles: «Sempre que fizestes isto a um destes meus irmãos mais pequeninos, a Mim mesmo o fizestes» (Mt 25,40). Esquivar-se desta identificação equivale a ludibriar o Evangelho e diluir a revelação.”

Continua Francisco: “Como não assinalar que as Bem-aventuranças, com que Jesus inaugurou a pregação do Reino de Deus, começam por esta expressão: «Felizes vós, os pobres» (Lc 6,20)? O sentido deste anúncio paradoxal é precisamente que o Reino de Deus pertence aos pobres, porque estão na condição de recebê-lo.”

E Jesus, ao proclamar as bem-aventuranças, não disse: “Bemaventurados vós, os pobres”, mas sim “Bem-aventurados nós, os pobres”. “Nós os que choramos, nós os que temos fome”. Jesus foi pobre, tão pobre como seus vizinhos de Cafarnaum aos que anunciou as bem-aventuranças. Jesus não foi uma espécie de mestre religioso que se “fez pobre”, que se disfarçou de pobre, para que os pobres o entendessem melhor, como um sinal da condescendência divina com os miseráveis. Esta ideia falseia a essência mesma da mensagem cristã. Jesus é um testemunho luminoso de um Deus que quis revelar-se de forma definitiva em um camponês pobre de Nazaré e que segue se revelando na vida e nas lutas dos pobres.

MANTER VIVA A ESPERANÇA DOS POBRES

Testemunhar a força criadora do Deus de Jesus e seguir seus passos é acalentar a esperança de que tanta injustiça e opressão não terão a última palavra. Como afirma Francisco, em sua em sua mensagem do III Dia Mundial dos Pobres, “aos olhos do mundo, é irracional pensar que a pobreza e a indigência possam ter uma força salvífica; e, todavia, é o que ensina o Apóstolo quando diz: «Humanamente falando, não há entre vós muitos sábios, nem muitos poderosos, nem muitos nobres. Mas o que há de louco no mundo é que Deus escolheu para confundir os sábios; e o que há de fraco no mundo é que Deus escolheu para confundir o que é forte. O que o mundo considera vil e desprezível é que Deus escolheu; escolheu os que nada são, para reduzir a nada aqueles que são alguma coisa.

Assim, ninguém se pode vangloriar diante de Deus» (1 Cor 1,26-29). Com os olhos humanos, não se consegue ver esta força salvífica; mas, com os olhos da fé, é possível vê-la em ação e experimentá-la pessoalmente. No coração do Povo de Deus em caminho, palpita esta força salvífica que não exclui ninguém, e a todos envolve numa verdadeira peregrinação de conversão para reconhecer os pobres e amá-los.”

Eis o grande desafio, num tempo de muitas trevas e incertezas, mas também um tempo oportuno e denso de salvação, quando realizamos o SULÃO das CEBs, que inicia neste 15 de novembro de 2019, final de semana especialmente dedicado a pensarmos e rezarmos o que é a essência e o coração do nosso ser cristão: Manter viva a esperança dos pobres, porque o Deus que se faz sempre de novo faz sua morada no meio de nós quer que “todos e todas tenhamos vida e vida abundante” e nos chama a sermos Sal, Luz e Fermento de transformação.

Waldir José Bohn Gass
Coordenador do CNLB Sul 3

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