O Natal Subversivo.

O Natal é subversivo porque ele denuncia que os marginais de hoje, os que foram marginalizados pelo capitalismo, não encontram espaço na Igreja, denominada de Jesus Cristo, para se organizar nela e a partir dela contra o sistema deste mundo (hoje o capitalismo) que Jesus Cristo venceu na Páscoa.

“O Natal hoje, no Brasil, seria num barraco indígena à beira de alguma estrada no Mato Grosso ou num barraco de sem terra ou num barraco de alguma favela à margem das grandes ou pequenas cidades brasileiras. Se queremos ver Deus e respirar a sua utopia por uma nova sociedade igualitária teremos que procurá-lo num destes lugares.”

O Natal é subversivo porque mostra que Deus se fez pessoa na classe camponesa palestina explorada e oprimida tanto pela elite israelense, que legitimava sua exploração pela religião do Templo de Jerusalém, como pelo Império Romano com seu Modo de Produção Escravista que precisava da guerra para sobreviver, como o capitalismo imperialista dos USA hoje.

O Natal subverte a religião opressora (tanto a do Templo de Jerusalém como aquela parte majoritária da Igreja Cristã aliada ao capitalismo) em Evangelho libertador encarnado na fraqueza de uma criança camponesa palestina sem terra migrante, como hoje as do Sudão do Sul ou do Congo que não podem ir à escola porque tem que minerar o coltan tão precioso para os nossos “imprescindíveis” celulares.

O Natal é subversivo porque nos lembra que neste Natal milhares de refugiados nos campos de refugiados na África, na Ásia e na América Latina (haitianos no Peru e no Acre que procuram um visto de entrada para o Brasil) não terão ceia de natal porque já não tem ceia há dias.

O Natal subverte o conceito de poder em que o poder da fraqueza (2 Co 12.9-10) – a criança camponesa na manjedoura e a cruz de Cristo – vencem o poder da força concretizada no censo imperialista romano (Lc 2.1-7) que se fundava na cobrança de impostos pela ocupação das tropas romanas e legitimado pela religião do Templo de Jerusalém.

O Natal nos mostra que a Religião (teologia do Templo de Jerusalém e assemelhadas de hoje) acabou de acabar com a vinda do Evangelho de Jesus Cristo encarnado na classe camponesa palestina. Por que ainda insistir na Religião, que tem a função de legitimar a exploração e a opressão de classe, se ela já foi vencida e superada pelo Evangelho de Jesus Cristo? O Natal mostra que se a Igreja não está com a classe subalterna ela não está do lado que Deus está, portanto virou Religião em vez de ser Evangelho, estando, assim, com o lado já suplantado por Deus na manjedoura da estrebaria fora de Belém. O Natal é, assim, subversivo para a própria Igreja, pois revela de que lado ela está, com a família camponesa sem terra, Maria, José, Jesus e seus irmãos e irmãs, ou se está com o latifúndio que produz as famílias sem terra ainda hoje e fornece os bois para serem sacrificados para as festas da Igreja para poder assim determinar a teologia e a prática da Igreja.

O Natal é subversivo porque nos mostra a opção de classe de Deus na luta de classes que há na história: ele não optou pela classe economicamente dominante que controla os meios de produção e o aparato do Estado, pois foi vítima da ação do Estado Romano neste processo do censo até a cruz. Deus não se fez pessoa numa família israelita latifundiária, mas numa família camponesa sem terra marginalizada pela cidade que mostra o preconceito contra o camponês empobrecido.

Até hoje se usa o termo “vilão” que é o morador da vila, o camponês, do tempo do feudalismo, mas no seu sentido mais pejorativo como malfeitor. Aqui no sul do Brasil se falava do camponês como o “colono grosso”. E por outro lado temos os “gentlemen”, a pessoa de bem (gente boa), que eram os conquistadores ingleses que massacravam as populações nativas com seus exércitos de ocupação. O Natal denuncia a desumanidade e a violência do Estado imperialista de ontem e de hoje, pois obrigou uma mulher grávida de 9 meses a caminhar 120 km para satisfazer a sanha exploratória da classe dominante. Por isso o Apocalipse antecipa a festa futura exclamando liturgicamente: “Caiu! Caiu a grande Babilônia e se tornou morada de demônios, covil de toda espécie de espírito imundo e esconderijo de todo gênero de ave imunda e detestável, pois todas as nações têm bebido do vinho do furor da sua prostituição. Com ela se prostituíram os reis da terra. Também os mercadores da terra se enriqueceram à custa da sua luxúria” (Ap 18.2-3). No Natal já festejamos antecipadamente a queda da sociedade de classes, esta queda virá, com toda a certeza que os profetas e profetisas do AT nos dão e os de hoje (Marx, Engels, Rosa Luxemburgo) também.

O Natal é subversivo porque põe em cheque, pelo poder da fraqueza de Deus a partir da manjedoura e da cruz, o poder das 147 grandes corporações de nosso Planeta, das quais 75% são grupos financeiros, que controlam 40% da riqueza de toda a nossa sociedade planetária.

O Natal é subversivo porque na luta de classes da sociedade de então, entre senhores de escravos romanos e latifundiários israelitas contra a classe camponesa, Deus se fez classe camponesa em Jesus de Nazaré subvertendo a normalidade e a ordem estabelecida pela classe economicamente dominante. Agora o Deus camponês sem terra e sem teto Jesus Cristo continua a subversão contra o Modo de Produção Escravista, segundo Lc 4.18-19, começada por Javé no AT contra o Modo de Produção Tributário e a Igreja hoje tem a tarefa de lutar contra o Modo de Produção Capitalista. Será que Deus é contra tudo e contra todos? Não, ele apenas é contra qualquer modo de produção construído em cima de classes sociais antagônicas e a luta de classes daí decorrente. Deus para acabar com a sociedade de classes e a luta de classes daí decorrente se fez pessoa na classe camponesa explorada para a partir do poder da fraqueza e da cruz (1 Co 1.18-19; 2 Co 12.9-10) destruir todo o poder construído a partir da exploração e da opressão (1 Co 15.24-26).

O Natal é subversivo porque Deus se torna em Jesus Cristo um marginal (nasceu à margem da cidade de Belém e viveu à margem da sociedade entre os empobrecidos, vítimas do sistema econômico, religioso e cultural vigente), para a partir dos marginais (dos que foram colocados à margem da sociedade pelo sistema econômico opressor vigente: camponeses, pastores, doentes, mulheres, crianças, empobrecidos, estrangeiros, sem terra) começar a construir uma nova sociedade que será igualitária e sem classes sociais.

O Natal é subversivo porque ele denuncia que os marginais de hoje, os que foram marginalizados pelo capitalismo, não encontram espaço na Igreja, denominada de Jesus Cristo, para se organizar nela e a partir dela contra o sistema deste mundo (hoje o capitalismo) que Jesus Cristo venceu na Páscoa. A Igreja não permite, na prática comunitária, que se lute a partir dela contra o mundo já vencido por Jesus Cristo na Páscoa e com isto fortalece o mundo já vencido, mas ainda não totalmente derrotado (Ap 12.7-17). Desta forma a Igreja se torna inimiga de seu próprio Senhor, Jesus Cristo, e de si mesma, pois pela sua essência evangélica a Igreja é subversiva e insurgente.

O Natal subversivo mostra a alegria de Deus em anunciar pelos anjos aos camponeses pastores a utopia de Deus presente na manjedoura e no menino camponês sem terra e sem teto que nasce no processo migratório forçado pelo imperialismo romano na periferia da cidade, pior, excluído pela cidade, que é o símbolo do poder da classe economicamente dominante no modo de produção tributário, conforme Gn 11 e Js 6-8.

O Natal subversivo mostra que o amor de Deus aos pobres vence o ódio da ocupação militar romana e hoje a ocupação militar e econômico-cultural estadunidense.

O Natal subversivo anuncia que os de fora, os magos estrangeiros (hoje os migrantes, estrangeiros, indígenas, sem terra, camponeses, trabalhadores assalariados, escravos e ambientalistas), conseguem ver e sonhar com um novo futuro e o buscam. Enquanto isso, nós da Igreja, que achamos que temos o Evangelho de Jesus Cristo, de fato não o temos, porque não buscamos a utopia do Reino de Deus, que propõe uma nova sociedade sem classes sociais, igualitária, sem Estado e onde os meios de produção estão sob o controle de toda a sociedade.

O Natal é subversivo porque alimenta a utopia da paz numa nova sociedade igualitária que brota da fraqueza da classe explorada a partir do Deus tornado classe camponesa. O Natal é subversivo porque propõe a paz (Lc 2.14) para todos numa sociedade de classes marcada pelo ódio de classe que necessita da guerra para se manter e se viabilizar economicamente.

O Natal é subversivo porque aponta a partir da estrebaria e da manjedoura para aqueles que hoje são invisíveis (pois Jesus Cristo também é invisível nos relatos dos historiadores oficiais israelitas e romanos porque estes tornam apenas a eles mesmos como únicos protagonistas visíveis da história) porque a TV não os mostra (e, portanto, não existem para a sociedade brasileira): as milhares de famílias de sem terra acampadas na beira da estrada porque não se quer fazer a Reforma Agrária; as milhares de famílias guaranis e de outras etnias acampadas à beira da estrada porque foram expulsas pelo latifúndio e pela política genocida do Estado brasileiro; as milhares de famílias desempregadas que não constam nas estatísticas do “pleno emprego” do governo e que não terão ceia de natal este ano; as famílias dos sem terra, sindicalistas, indígenas e ambientalistas que tiveram alguém assassinado nestes últimos anos no processo de resistência na terra; as famílias dos 514 mil presos nas masmorras medievais imundas e desumanas brasileiras; as famílias dos 50 mil assassinados em 2011 e dos 45 mil mortos em acidentes de trânsito das quais a TV não vai lembrar neste Natal, portanto não existem.

O Natal é subversivo porque tona o invisível visível a partir da invisibilidade da manjedoura na estrebaria na periferia de Belém que o Evangelho tornou gritantemente visível e real. O Deus invisível (o Deus absconditus) se torna visível onde ele não deveria se tornar visível, segundo a classe dominante que o quer controlar para legitimar o status quo, na marginalidade; esta é a subversão de Deus no Natal: mostrar que ele está visível na classe explorada e se torna classe camponesa explorada que resiste contra o sistema econômico escravocrata. E a boa notícia para nós hoje é que Deus continua nesta mesma opção de classe. Enquanto houver sociedade de classes Deus está com e na classe explorada. À esta opção de Deus a classe dominante responde com a cruz. Por isso a Bíblia é o único livro da humanidade escrita pelos tornados invisíveis pela classe dominante: os camponeses, que tornam sua luta pela terra visível e central na Bíblia do começo (Gn 1-4: luta pela terra pelos camponeses palestinos e contra a exploração do Modo de Produção Tributário babilônico e israelita) ao fim (Ap 21-22: novo céu e nova terra). Na própria confissão de fé do povo de Israel (Dt 6.20-23) está claro que o centro é a luta pela terra conduzida por Deus contra o Estado, que é um instrumento da classe economicamente dominante. Assim a história do Natal denuncia que o próprio Deus foi tornado camponês sem terra por causa da luta de classes da sociedade e que a luta do Êxodo continua e que o processo de libertação agora é maior do que apenas ser livre com a posse da terra numa nova sociedade sem classes, agora Deus quer algo muito maior, nos libertar da maior de todas as opressões que é a morte, depois de ter derrotado todo o poder terreno (1 Co 15.24-28).

O Natal é subversivo, principalmente, porque dá ao mundo e aos empobrecidos o pão da esperança (há esperança, nem tudo está perdido), que Jesus Cristo depois concretiza na Ceia do Senhor, símbolo de que a socialização dos meios para produzir o pão e o vinho é possível, pois já é possível partilhar os frutos antes da socialização dos meios de produção.

O Natal é subversivo porque alimenta a utopia de que outro mundo é possível, um mundo que Jesus Cristo chama de Reino de Deus: uma sociedade de irmãos e de irmãs, igualitária e pacífica, pois as classes sociais e a luta de classes já não mais existem, pois os meios de produção estão sob o controle de toda a sociedade, pois a propriedade privada dos meios de produção acabou.

O Natal é subversivo porque não propõe a continuação de uma sociedade de classes com o Estado a proteger a classe economicamente dominante, mas propõe uma nova sociedade construída a partir dos marginalizados que crêem em Javé, o Deus da classe camponesa (Êx 3.18: O Senhor, o Deus dos hebreus): camponeses pastores, magos e famílias migrantes por causa da dinâmica da opressão econômica e política dos Impérios de sempre, que podem mudar de nome, mas cuja prática é a mesma de sempre: guerra, exploração e opressão – seja Egito, Babilônia, Pérsia, Grécia, Roma, Portugal, Inglaterra ou USA.

O Natal é subversivo porque nesta data as pessoas sonham com o que não tem, mas que podem um dia vir a ter: paz, igualdade, justiça, vida digna, uma nova sociedade de irmãos e de irmãs.

O Natal é subversivo porque mostra que se o impossível é possível, Deus fazer a sua opção de classe numa pessoa camponesa sem terra e sem teto marginalizada chamada de Jesus de Nazaré, então também é possível fazer a Reforma Agrária, a reforma urbana, a revolução socialista…

O Natal é subversivo porque universalizou que o sonho de uma nova sociedade não se mata com balas de fuzil, nem com a tortura, nem com a ditadura e nem se aniquila com as botas dos militares ou do latifúndio (modernamente chamado de agronegócio) à serviço do capital internacional.

O Natal é subversivo porque ele mostra que as idéias e sonhos dos profetas e profetisas do AT não são meros sonhos, mas eles são possíveis, assim o que nos é passado como impossível, uma nova sociedade igualitária, aqui se torna possível.

O Natal mostra que as mentiras da exploração econômica e a opressão político-ideológica a nós impostos pelos exploradores da classe economicamente dominante dizendo haver chegado o fim da história caem por terra com a possibilidade da ação dos pequenos encarnados na pequena criança da manjedoura. Isto nos mostra que quem faz a história são os pequenos e que Deus está com estes nesta luta por uma nova sociedade de irmãos e de irmãs que Jesus Cristo chama de Reino de Deus. A Bíblia nos conta como Deus caminhou com os pequenos do Gênesis ao Apocalipse. O próprio conteúdo da Bíblia é a subversão permanente, pois mostra desde o primeiro ao último capítulo como Deus anda com os oprimidos no processo de acabar com a opressão. A Bíblia é o relato dos camponeses oprimidos pelos vários modos de produção em sua luta pela terra para poderem construir uma nova sociedade igualitária. É claro que aqui e ali há a mão de alguns da classe dominante para desvirtuar a verdade história da opção de Deus. Por isso temos que ter uma visão geral e global da Bíblia para podermos entender as partes.

O Natal é subversivo porque diz que o poder de Deus está com os pequenos e considerados fracos e sem poder.

O Natal é subversivo porque ele realimenta anualmente a esperança pela paz, pois não é a paz que o capitalismo quer, pois ele precisa do desemprego, das crises, da exploração e da guerra para se reproduzir.

O Natal é subversivo porque mostra que o sonho dos empobrecidos não permitido, ocultado e suprimido pode ser trazido pelos “de fora”, no caso os magos, hoje pelos estrangeiros expulsos pelas guerras imperialistas, pelos desastres naturais gerados pelo aquecimento global ou pelos povos originariamente brasileiros marginalizados, escravizados, expulsos e assassinados secularmente pelo latifúndio (hoje generosamente denominado de agronegócio) que sonham buscando a “Terra sem Males”.

O Natal é subversivo porque pelos magos estrangeiros ele nos traz a possibilidade da abertura da esperança de novas propostas que as culturas estrangeiras nos trazem e que embutem também os nossos sonhos por uma nova sociedade de iguais como os povos andinos que nos ensinam pelo Sumak Kawsay que somos parte integrante da natureza e não estamos acima dela; como os povos africanos com a esperança da prática do ubuntu que diz que “Eu sou porque nós somos”; como pelas lutas da classe trabalhadora internacional aprendemos que a utopia socialista é possível e necessária ou seremos extintos como humanidade; como pela utopia do povo guarani da Terra sem Males que busca a terra e a paz que agora não se tem.

O Natal hoje, no Brasil, seria num barraco indígena à beira de alguma estrada no Mato Grosso ou num barraco de sem terra ou num barraco de alguma favela à margem das grandes ou pequenas cidades brasileiras. Se queremos ver Deus e respirar a sua utopia por uma nova sociedade igualitária teremos que procurá-lo num destes lugares. Ele não estará neste Natal onde costumamos procurá-lo: nas grandes bonitas igrejas iluminadas e cheias de gente que sonha com o consumo incontrolável de novas mercadorias, mas não sonha com uma nova sociedade igualitária e sem classes sociais antagônicas em permanente luta; nem estará nas fartas ceias natalinas regadas à chopp ou champanhe; nem estará naquelas comunidades comandadas pela pequena burguesia e trabalhadores alienados pelo capital que fazem de tudo, durante o ano inteiro, para que não se acolha as vítimas do sistema econômico vigente (Mt 25.31-46) e para que não se deixe estas vítimas se organizar e nem se expressar na comunidade, mesmo sendo membros desta; nem, tampouco, estará nas sedes das fazendas do agronegócio que se vangloria de ser o salvador da pátria pela exportação de commodities envenenadas via concentração da terra, por ser campeão de uso de agrotóxicos e sementes transgênicas, pelo trabalho escravo, pelo assassinato de indígenas, ambientalistas e sem terra.

“E bem-aventurado é aquele que não achar em mim motivo de tropeço” (Lc 7.23), dirá este menino da manjedoura mais tarde em sua missão de organizar os marginalizados para com eles construir o Reino de Deus, que de qualquer forma, queira a burguesia ou não, já está no meio de nós (Lc 17.21).

Günter Adolf Wolff

Contribuição de Zeca Terra

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