“O clericalismo traz e vive de uma imagem de Igreja que se quer garantir por si mesma, sem abertura ao novo”

Cesar Kuzma

Estou trabalhando numa entrevista para o amigo Mauro Lopes, que tem por base a questão dos leigos e o Papa Francisco. Deve ser publicada na próxima semana, mas vale a pena compartilhar uma ainda incipiente reflexão.

“O clericalismo é uma doença que impede a Igreja de ser serviço e inibe as demais vocações, sobretudo os leigos, de assumirem o seu papel, a sua missão dentro do corpo eclesial e na sociedade. O clericalismo traz e vive de uma imagem de Igreja que se quer garantir por si mesma, sem abertura ao novo e que busca sempre o poder, que quer estar acima, que vive ‘a parte’ e agarra-se nas estruturas, na dureza das tradições, no enrijecimento da doutrina, na dominação de uma letra sem espírito e num autoritarismo eclesiástico/hierárquico doente.

Trata-se de uma agressão à ministerialidade, pois não abre espaço a outros/ outras e fecha-se às novas questões, notadamente urgentes para a sociedade/Igreja. É uma noção/interpretação eclesiológica totalmente distante e incoerente com o Evangelho, mostrando na prática uma ausência total da ótica do Reino anunciado por Jesus, já que traduz comunhão por obediência e seguimento por doutrinação/sacramentalização.

Percebemos que se trata de uma tendência que percorre toda a Igreja, também entre leigos, é bem verdade, mas que avança principalmente entre o clero mais jovem, que se satisfaz em panos e paramentos riquíssimos e em ritos antigos, carregados na rigidez, ou camuflados de aspectos modernos, em alguns casos, mas muito distante da simplicidade do Evangelho, o que é lamentável.

Seja pela linguagem ou pela vestimenta, cria-se uma estrutura que decide por caminhar separada do mundo, distante dos problemas e com a sustentação de um ar superior. É onde se sustentam os críticos do Papa Francisco, queixando-se da laicidade ou abertura que ele quer resgatar na Igreja, que em princípio, coloca a mesma em um diálogo constante com o mundo, mantendo-a fiel no anúncio do ressuscitado e naquilo que foi afirmado com o Vaticano II.

Figura também aí alguns bispos e cardeais que ainda sustentam pompas principescas, algo bem diferente dos pastores com ‘cheiro de ovelha’, que pede Francisco. Por isso mesmo é um mal, é uma doença, um pecado grave que nos afasta do seguimento e da práxis de Jesus. É preciso mudar.

Cesar Kuzma

Fonte: rede social do autor

Imagens: Arquivos Web