Tânia Maria Silveira
Referencial da Comissão Especial para a Ecologia Integral e Mineração
Regional Leste 3 da CNBB
As Comunidades Eclesiais de Base (CEBs) nasceram do compromisso de viver o Evangelho a partir da realidade concreta do povo. Ao longo da caminhada, elas testemunham e vivenciam a aflição das pessoas que sofrem com a grave crise socioambiental. Seguindo o ensinamento do Papa Francisco: “Hoje, não podemos deixar de reconhecer que uma verdadeira abordagem ecológica sempre se torna uma abordagem social, que deve integrar a justiça nos debates sobre o meio ambiente, para ouvir tanto o clamor da terra como o clamor dos pobres” (LS, 2015, n. 49).
Neste sentido, vale recordar que, no Brasil, a partir das décadas de 1960 e 1970, surgiram várias iniciativas católicas impulsionadas pelas orientações do Concílio Vaticano II para ampliar a participação da Igreja na organização comunitária visando à promoção e à defesa da vida, dos direitos humanos e da justiça social.
Em 1972, foi criado o Conselho Indigenista Missionário (CIMI), cujo compromisso com os povos indígenas testemunha a opção por uma sociedade democrática, justa, solidária, pluriétnica e pluricultural. Em 1975, nasceu a Comissão Pastoral da Terra (CPT), um serviço à causa dos trabalhadores e trabalhadoras do campo submetidos a condições análogas ao trabalho escravo, incluindo posseiros e agricultores expulsos das terras pelos grandes projetos de modernização agropecuária. Tais projetos combinam a expansão de fronteiras com adoção intensa de tecnologias em larga escala para viabilizar os interesses do agronegócio. Destaca-se, ainda, a criação do Conselho Pastoral dos Pescadores e Pescadoras (CPP), em 1976, que expressou o reconhecimento da importância da atuação da Igreja junto a esse segmento social.
Naquele contexto, surgiram os Encontros Intereclesiais de CEBs com o propósito de fortalecer a articulação das comunidades dispersas pelo Brasil. Em 2009, o tema Ecologia e Missão foi debatido no 12º Intereclesial, quando “cinco grandes gritos foram lançados: o grito da terra, o grito das águas, o grito das cidades, o grito das florestas, o grito das comunidades tradicionais” (SBARDELOTTI, 2026).
Diante do urgente desafio de proteger a nossa Casa Comum, tornou-se indispensável fortalecer o diálogo com as juventudes. Em seu apelo, o Papa Francisco destacou: “os jovens exigem de nós uma mudança; interrogam-se como se pode pretender construir um futuro melhor, sem pensar na crise do meio ambiente e nos sofrimentos dos excluídos” (LS, n.13). Então, cuidar do meio ambiente demonstra a nossa responsabilidade com as gerações atuais e futuras. Essa missão é profética e se desdobra em várias frentes de atuação, ancoradas em três pilares fundamentais:
1) Defesa dos biomas, caminhando junto com pessoas e comunidades que preservam o meio ambiente e resistem contra os projetos predatórios em seus territórios. Não se deve esquecer de que, desde 1981, a proteção dos recursos naturais brasileiros é legalmente amparada pelos princípios da prevenção e da precaução instituídos na Política Nacional do Meio Ambiente (PNMA – Lei 6.938/1981).
2) Denúncia da desigualdade face à devastação, pois “nunca maltratamos e ferimos a nossa Casa Comum como nos últimos dois séculos” (LS, 2015, n.53). Os mais vulneráveis à degradação ambiental sofrem desproporcionalmente com a poluição, a escassez de água, os eventos climáticos extremos, os conflitos, riscos e danos causados pela superexploração dos recursos naturais. O grito da terra e o grito dos pobres clamam por ações conjuntas, porque não existe separação entre o cuidado ambiental e a justiça social.
3) Espiritualidade ecológica enquanto vivência da fé em comunhão com toda a criação. É desse modo que “somos chamados a tornar-nos os instrumentos de Deus Pai para que o nosso planeta seja o que Ele sonhou ao criá-lo e corresponda ao seu projeto de paz, beleza e plenitude” (LS, 2015, n.53). A conversão ecológica promove a mudança de hábitos diários e o reconhecimento de que tudo está interligado na criação divina.
Por fim, a missão profética pelo cuidado da Casa Comum é um compromisso intergeracional essencial. O modelo de desenvolvimento sustentável proposto por nossa Igreja define que os recursos naturais e o planeta devem ser cuidados hoje para garantir a vida e a dignidade daqueles que ainda vão nascer. Conforme o Papa Francisco, o “compromisso intergeracional” é um pilar ético essencial para salvar o planeta e garantir a paz. Isso requer um pacto que una a sabedoria dos mais velhos à energia dos jovens, exigindo responsabilidade na construção do bem viver.