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Irmã Annette Dumoulin, a Madrinha e a Cantora dos Romeiros e das Romeiras (Bélgica, 1935 – Brasil 2021)

A recriação da Religiosidade Popular, mas não apenas a simples recriação em si, mas a mesma feita com a inteligência, com as mãos e com a fé de uma mulher. E uma mulher estrangeira. Talvez seja esta a novidade e ao mesmo tempo o exemplo que certamente será seguido por outras mulheres. Annette Dumoulin, ou a Irmã Annette, conhecida e rebatizada pelo povo de Juazeiro do Norte, como a Madrinha dos Romeiros, nasceu muito longe do Cariri, em Liége, na Bélgica, em 14 de julho de 1935. A “Cantora dos Romeiros” – como gostava de ser identificada e título sobre o qual se orgulhava muito, deixa um testemunho eloquente para a Igreja no Juazeiro, no Brasil e no mundo. Somando-se ao Padre Ibiapina, ao Beato Zé Lourenço, à Beata Maria do Juazeiro e a tantas e tantos outros místicos e profetas e profetizas desta terra abençoada, Irmã Annette dá voz a uma Igreja em Saída e Samaritana. As Comunidades Eclesiais de Base – CEBs, foram a sua porta de entrada para o mundo dos Romeiros. No último dia 21 de maio de 2021, Irmã Annette foi ao encontro definitivo daquele que amou com dedicação e ternura nos últimos 45 anos, nos rostos das CEBs e de todos os Romeiros e Romeiras do Padre Cícero.  

Como Judite, Annette dizia a sua palavra, palavra de mulher; tomava as suas decisões, decisões de mulher; e a sua casa, assim como a sua fé e os seus passos, são de mulher. O teólogo Sandro Gallazzi, narra assim, “A “casa da mulher” passa a ser o epicentro de tudo que vai acontecer. Repete-se, aqui também, uma das características da literatura “alternativa” do pós-exílio. Foi assim na história de Rute, cujo centro é a casa de Noemi; foi assim com os aposentos da rainha Ester”. (GALLAZZI, 2001, p 82). E foi assim com a casa de Nossa Senhora das Dores que acolheu esta profetisa estrangeira. Lembro-me de um evento de Educação Popular que assessorei na cidade do Crato, há alguns anos. Na apresentação um grupo mulheres ao se apresentarem, disseram os seus nomes e completaram, “Nós somos do Cariri, lugar que os homens matam mulher como se mata galinha!”. Estas palavras ecoam nos meus ouvidos até hoje. Esta foi a realidade que a Irmã Annette encontrou e na qual viveu.

A irmã Annette Dumoulin e sua parceira de caminhada, Irmã Ana Tereza, propõem, constroem e nos deixam um novo paradigma de Cultura Religiosa e, sobretudo, constroem uma importante ponte entre as Ciências e a Fé; entre as Ciências e a Religião; entre a Fé a Vida e a caminhada do povo romeiro que aprendeu a se encontrar com a misericórdia de Deus do outro lado da dor. A emancipação dos oprimidos e das oprimidas, a partir da fé que dá o que pensar. De modo muito significativo, teremos a partir de suas vidas e do legado da Madrinha dos Romeiros e das Romeiras do Padre Cícero, o exemplo de uma fé que busca compreender, como diria o próprio Santo Agostinho. Nas palavras dos Mestre Clodovis Boff, “A fé é a força mais provocadora do espírito” (BOFF, 2020, p 273). Igualmente cabem aqui as palavras do Doutor da Graça, “(…) busquei-te segundo minhas capacidades e na medida que me concedeste, e anelei ver com a inteligência o que acreditava com minha fé (desideravi intellectu videre quod credidi), e muito disputei e muito me afanei” (ibidem, p 280).

As irmãs são membros da Congregação de Nossa Senhora (Ordem das Cônegas de Santo Agostinho). Fundada na cidade de Mattaincourt (França), em 1597 – por Alix Le Clerc, freira nascida em 1576 em Lorena (França), com o apoio de 4 companheiras e do Padre Pedro Fourier –, seu lema era: “Fazer o bem a todos e o mal a ninguém”. São Pedro Fourier morreu em 1640 e foi canonizado em 1897”.

(ALMEIDA; QUEIROZ & PAIVA, in CONHECER,2018, p 4/5).

Vejam que há um feliz encontro entre o lema da congregação de Nossa Senhora – Ordem das Cônegas de Santo Agostinho – e o itinerário de conversão como compromisso de mudança de vida, proposto pelo Padre Cícero aos errantes que o buscavam: “Quem bebeu não beba mais, quem roubou não roube mais, quem mentou não mate mais”. NETO, Lira, 2009, p 331). Muitos diriam que é uma coincidência, porém, à luz da fé e, sobretudo com o peso do testemunho impactante de Irmã Annette, nós podemos dizer: é providência. A alegria do Evangelho se expressa na alegria de servir. Assim diz a Cantora dos Romeiros e das Romeiras. “Eu deixei pai e deixei mãe. Deixei todos os meus irmãos. E cheguei no Juazeiro, para servir ao romeiro”. (Irmã Annette, entrevista em 26 de maio de 2018). Lembremos a pergunta de Pedro a Jesus, “E nós, então, que deixamos tudo para seguir-te?” (Mc 10, 28). A sua recompensa chegou, Irmã Annette, “A Vida Eterna” (Mc 10, 31). As CEBs do Brasil, assim como os Romeiros e as Romeiras, acreditam que você entrou na eternidade plena com Jesus e a Virgem Maria e todos os Santos e Santas. Interceda a Deus por nós, junto com o “Padin Ciço”, para que nos libertemos desta tormenta que nos ceifa vidas e ameaça a nossa esperança!

A Irmã Ana Maria Thereza Guimarães, parceira de Irmã Annette, é pesquisadora da Universidade Louvain, que fica na Bélgica, chegou a Juazeiro do Norte junto com a Irmã Annette Dumoulin para realizar uma pesquisa sobre o Padre Cícero. A inserção na cultura, na luta e na vida de fé, da cidade e de seu povo – tanto da população nativa como dos Romeiros – foi determinante para transformá-la, ao lado da Irmã Annette, em apoiadora do trabalho das romarias, deixando um legado muito importante para essa cidade, para a Igreja e para a chamada “Nação Romeira”, peregrina e devota. É preciso primeiro reconhecer o rosto do outro e da outra como sua identidade, para depois reconhecer Deus em cada rosto. Aí encontra-se a essência da Pastoral: a acolhida, o cuidado e a compaixão. A propósito, “Frente aos desafios de um mundo urbanizado, pós-moderno, em que a pessoalidade se perde em meio a uma multidão disforme, sem rosto e sem identidade, a Igreja precisa de uma Conversão Pastoral”. (SANTIAGO, 2020, p 37).

Assim como Judite que deu voz às mulheres, de ontem e de hoje, pois fez memória e celebrou em sua oração, a história de Diná, filha de Jacó, (Gn 34) dizendo: “Senhor, Deus de meu pai Simeão, em cuja mão puseste uma espada para se vingar de estrangeiros que tinham atentado contra o seio de uma virgem para sua desonra, descobrindo sua coxa para sua vergonha e profanando seu seio para sua ignomínia!” (Jt 9, 2). Assim, igualmente, a Irmã Annette faz ecoar as vozes de todas as mulheres oprimidas, excluídas, perseguidas e violentadas. De ontem e de hoje. Sobretudo, as mulheres que tiveram a sua história negada, maculada e a sua dignidade ferida, por serem pobres, negras, analfabetas, por serem mulheres, por fim. Como é o caso de Maria de Araújo, Maria do Juazeiro, a Beata do Milagre. É o que nos diz Maria do Carmo Pagan Forti,

Maria de Araújo faz parte daqueles “sem lugar”, “sem poder”, dos leigos, ou ainda mais, de acordo com o Código de Direito Canônico vigente na época, abaixo dos leigos, pois era mulher. Ou ainda mais: abaixo do status de mulher, pois era negra: “raça infecta” pelas Constituições do Arcebispado da Bahia. E podemos ir mais longe na qualificação social de Maria de Araújo: era analfabeta. Ela, portanto, fazia parte daqueles que não constroem a história, não constroem a civilização. E, culturalmente, esse é o lugar do cotidiano, do privado, já que – dizem – é só no político e nas instituições que a história se dá. Mas ela subverte essa noção: demonstra que também no lugar do cotidiano há o poder de se fazer história.

(FORTI, 2000, p 100).

Rogo que a vida e a história de profecia, de ousadia e missão de Irmã Annette, seja uma grande caixa acústica que, do alto da Chapada do Catolé, onde fica o Horto e a estátua do Padre Cicero, possa ecoar para toda a Igreja. Rogo que as CEBs tenham a sabedoria necessária para se comunicar com as juventudes deste imenso e hoje exilado país. Rogo que a ousadia profética da cantora dos Romeiros e das Romeiras, fecunde os corações e as ações de resistência das mulheres. Destoando aqui de Judite, sua arma foi o microfone, de onde cantava e encantava, como uma Sabiá Sertaneja de coração em pleno inverno. Irmã Annette Dumoulin vive e viverá no coração, nas orações e na gratidão de todos os Romeiros e de todas Romeiras e o seu canto não parou, mas alcançou a eternidade. A Irmã Annette deixa para as Marias Araújo, para as mulheres pobres deste tempo que se inicia, o caminho do conhecimento, da pesquisa, mas sobretudo a vocação de servir. Irmã Annette vive!

Curitiba, 30 de maio de 2021 – Domingo da Santíssima Trindade.

João Ferreira Santiago.

Teólogo e Poeta. Professor e coordenador do Curso de Teologia da Faculdade Unina. Autor do Livro: “Teologia Pastoral, a Arte do Seguimento e do Discipulado de Leigos e Leigas”. À venda com o autor.

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