Nosso tempo é marcado por mudanças muito rápidas, que nos fazem esquecer acontecimentos de dez anos atrás e até ignorar a história vivida por nossos pais e por nós mesmos. Também na Igreja sofremos desse mal que nos desenraiza da história e nem nos permite criar raízes no presente. Em tempos líquidos, não se criam raízes. Mas isso não deveria acontecer com os cristãos.
Comunidades eclesiais que se formaram há mais de vinte anos hoje tornaram-se paróquias. Como não queremos perder tempo em fazer memória, para muitas pessoas que frequentam nossas paróquias o termo CEBs soa estranho e cheio de mal-entendidos. Alguns batizados chegam ao ponto de “demonizar” tudo aquilo que desconhecem.
Então, vamos fazer memória e retirar a poeira que foi depositada sobre nossas Comunidades Eclesiais de Base. Como podemos defini-las?
A Conferência Nacional dos Bispos do Brasil define as CEBs como “célula inicial de estruturação eclesial”, principal instrumento de descentralização da paróquia, onde fiéis leigos se reúnem em bairros ou “comunidades urbanas e rurais para vivenciar a fé, a Palavra de Deus e o compromisso social”. “São verdadeiros centros de evangelização”, instrumentos escolhidos por Deus para anunciar hoje a salvação, como “novas células do Povo de Deus”, chamadas para confundir o que é forte e sábio no mundo. Elas representam uma “maneira de ser Igreja, de ser fraternidade, de ser comunidade, inspirada na mais legítima e antiga tradição eclesial”. São “uma ação do Espírito no horizonte das urgências de nosso tempo”.
Frei Betto define as CEBs como pequenos grupos organizados em torno da paróquia (urbana) ou da capela (rural), por iniciativa de leigos e leigas, padres e bispos. O termo “eclesial” é fundamental, porque esses grupos possuem natureza religiosa e pastoral. A consciência e a explicitação da fé constituem a característica constitutiva e o elemento de discernimento que distinguem a CEB de outros tipos de comunidade.
A primeira característica que surge dessa definição é seu caráter de unidade e comunhão. Em torno das paróquias, em unidade com o bispo ou arcebispo da Igreja local e seu corpo de presbíteros e diáconos ministros ordenados que acompanham e servem ao povo de Deus, a Comunidade Eclesial de Base deve sempre estar em comunhão com a Igreja local. O bispo é o sucessor dos apóstolos e, por isso, a Comunidade Eclesial de Base deve permanecer em comunhão com ele.
Esse pequeno grupo se constitui de vizinhos que pertencem à mesma comunidade urbana ou rural e que se reúnem regularmente para rezar, cantar, celebrar, ler a Bíblia e discuti-la à luz da própria experiência de vida. As CEBs são profundamente religiosas, com raízes na piedade popular e nas devoções populares, como a reza do terço, novenas, tríduos, vigílias noturnas, adoração ao Santíssimo Sacramento, procissões, peregrinações e círculos bíblicos.
Onde está localizada? No vasto espaço de uma paróquia. O lugar pode ser a casa de algum vizinho, uma garagem vazia ou um terreno destinado a fins religiosos. Muitas vezes, é nos lotes mais afastados, que ainda não sofreram os impactos da expansão imobiliária, que se constrói, em forma de mutirão, uma pequena casa para reunir e celebrar. A Comunidade Eclesial de Base teve origem nos lugares mais afastados das periferias geográficas e existenciais.
Quando as pessoas se reúnem nessas periferias, é comum lançarem um olhar sobre sua própria realidade. Então aparecem a rua de terra, o esgoto a céu aberto, o valão cheirando mal, o lixo acumulado nas ruas, a falta de energia, famílias morando de favor na casa de parentes, o transporte urbano precário, a ausência de escolas e creches para as crianças etc. As CEBs acabam fazendo as pessoas olharem um palmo à frente do nariz, mas sempre numa perspectiva coletiva. Alguma coisa pode não me afetar, mas o vizinho que celebra ao meu lado está sofrendo na pele aquele problema.
Dessa forma, as comunidades formadas nas periferias urbanas e geográficas acabam olhando para a própria realidade e, com a ajuda dos padres, começam a incluir tarefas sociais, como a luta por moradia, eletricidade, saúde, esgoto, água nos bairros e luta pela terra. Nesse contexto surgiram as pastorais sociais. Essas pastorais nasceram nas CEBs e estão conectadas às realidades mais desafiadoras da sociedade. São a expressão das necessidades do povo. Representam uma Igreja que se incomoda com as necessidades presentes nas periferias geográficas e existenciais.
Por esse motivo, as CEBs foram e continuam sendo forças muito significativas nos movimentos sociais. Contudo, os movimentos sociais não substituem o caráter eclesial das CEBs. Em razão disso, as CEBs tornaram-se um grande celeiro para a formação de lideranças políticas, e vários de seus membros acabaram expandindo sua atuação de modo mais forte nos partidos políticos e movimentos sindicais. Nascem nesses contextos periféricos as associações de moradores, que dão força às CEBs nas lutas por melhorias.
Só que esse movimento de consciência crítica não interessa àqueles que governam. O poder político e econômico passou a ver as Comunidades Eclesiais de Base como algo que prejudicaria seu exercício de poder. Nesse sentido, a luta contra as CEBs, que vem ocorrendo há vários anos dentro e fora da Igreja, está ideologicamente comprometida em combater a força das comunidades e, assim, exercer mais facilmente um poder político que exclui e marginaliza o povo.
Infelizmente, em alguns lugares, a própria Igreja institucional acabou se afastando das periferias geográficas, ou mantendo apenas o necessário poucas comunidades para áreas muito extensas, e recolheu-se aos bairros de classes mais elevadas e com menos necessidades. Vieram os grandes templos e esvaziaram-se os pequenos espaços celebrativos, onde o povo podia olhar “olho no olho”, todos se conhecendo e se reconhecendo.
Segundo estudiosos da religião, foi nessas periferias geográficas que as igrejas pentecostais e neopentecostais se estabeleceram, acolhendo as pessoas vindas do êxodo rural. Agora, em cada esquina, há um pequeno barraco que serve de templo e um ministro religioso para acolher o povo em suas necessidades.
Por fim, cabe uma reflexão sobre o caminho que percorremos como Igreja nos últimos trinta anos e sobre quais novas ações precisamos desenvolver para fortalecer e motivar nossas comunidades em seu processo de evangelização. Novas tendas precisam ser construídas para acolher o povo de Deus, sofrido e excluído. Uma Igreja samaritana e misericordiosa é o que Jesus Cristo nos pede, e não uma igreja que julga e condena, que discrimina e ameaça, fazendo-nos ter medo de Deus.
ESCRITO POR: Edebrande Cavalieri