Irmã Dorothy vive! Romaria da Floresta discute nossa responsabilidade na defesa da natureza e promoção da vida

O exemplo da irmã Dorothy Stang permanece vivo na Prelazia do Xingu (Pará), animando uma ação pastoral baseada no Cristo libertador, trabalho comunitário e respeito à natureza. Foi o que se viu na 14ª Romaria da Floresta, que percorreu 55 km no município de Anapu durante quatro dias de muita mística e reflexão (de quinta-feira, 18, a domingo, 21). Conforme a organização, 80% das pessoas que participaram foram jovens. A primeira edição da Romaria ocorreu em 2006, um ano após o assassinato da irmã Dorothy.

Em 2019, enquanto toda a Igreja está em preparação e na expectativa do Sínodo para a Amazônia, a Romaria teve como tema “Cuidar e defender a floresta e promover a vida é nossa responsabilidade” e como lema “De mãos dadas, é na estrada!”.

O município de Anapu fica às margens da rodovia Transamazônica e conta com 27.161 habitantes (segundo dados do IBGE/2018). Surgiu a partir do Programa de Integração Nacional (PIN), instituído em 1970 e implantado a partir de 1971, pelo governo federal. O objetivo era desenvolver um grande Programa de Colonização e Reforma Agrária dirigido à Amazônia, trazendo trabalhadoras e trabalhadores sem terra de diversos pontos do Brasil, em especial do Nordeste.

A Romaria da Floresta sempre tem início no Centro de Formação paroquial São Rafael e segue até o Projeto de Desenvolvimento Sustentável Esperança, local onde irmã Dorothy foi assassinada. Não há taxa de inscrições e a alimentação para romeiras e romeiros é fruto de doações e partilhas das comunidades e das próprias agricultoras e agricultores. Não se utiliza materiais descartáveis e todas as pessoas são estimuladas a levar seus kits missionários.

Durante o trajeto, as paradas para descanso e refeições são nas comunidades e casas das famílias. Com diversos momentos místicos e celebrativos, a caminhada se torna um ato de profunda reflexão revestido de uma intensa espiritualidade, a partir do qual se preza pela importância da harmonia entre Deus, o ser humano, a Terra, a floresta e todos os demais seres vivos. Na Romaria da Floresta, a conversão ecológica em defesa da Casa Comum rumo a uma cultura do Bem Viver se torna o horizonte utópico para o qual todos aprendemos a percorrer.

Ao longo dos últimos anos, a participação massiva da juventude tem se destacado. Desde que a Pastoral da Juventude do Xingu colocou a Romaria da Floresta como uma de suas ações prioritárias, anualmente vem buscando mobilizar e preparar a juventude presente nas cidades da transamazônica e Xingu, para que estes possam compreender e assumir as causas pelas quais Dorothy doou a vida.

Essa iniciativa da juventude do Xingu, ecoteológica e catequética, simboliza um ar de esperanças para toda a Amazônia e o Brasil, e nos faz constatar o fato de que “a juventude não é o futuro. A juventude é o presente”. E só uma juventude consciente e organizada, devidamente apoiada, terá condições de dar continuidade às profecias e ao encarnado no solo sagrado da Amazônia.

 

Um pouco de história

Desde que foi emancipado, em 1996, a partir de territórios antes pertencentes aos municípios de Pacajá e Senador José Porfírio, Anapu é palco de conflitos agrários envolvendo diferentes grupos de interesse. De um lado, os povos e comunidades, posseiros e camponeses, que buscam o direito de acesso à terra para dela tirarem seu sustento. Do outro, latifundiários, fazendeiros e madeireiros, que em alguns casos, por meio da grilagem de terras públicas, buscam se apropriar de grandes porções de terra visando o lucro por meio da destruição da natureza.

Desde o início, a presença da ação evangelizadora da Igreja Católica em Anapu se manifestou a partir dos serviços pastorais e religiosos da Prelazia do Xingu, da Congregação dos Missionários do Sangue de Cristo e da Congregação das Irmãs de Notre Dame de Namur, que entre uma de suas religiosas tinha Dorothy Mae Stang.

Sempre sensível às dores e sofrimentos do povo, a igreja local através de suas religiosas e religiosos e agentes de pastoral logo percebeu que a questão agrária no local era um ponto crítico. Diante disso, por meio da Comissão Pastoral da Terra – CPT, a igreja se fez presente ao lado de pequenas e pequenos agricultores, posseiras e posseiros,  camponesas e camponeses sem terra, buscando ouvir seus clamores e os orientando na busca por seus direitos, denunciando as injustiças cometidas no campo e assumindo de forma encarnada a evangélica opção preferencial pel@s pobres.

No dia 12 de fevereiro de 2005, um triste fato marcaria profundamente a história da Prelazia do Xingu. Em Anapu, tiros à queima roupa foram disparados em direção a uma senhora de 73 anos. Aqueles tiros ecoaram por todas as partes da Amazônia e do Brasil, e mostraram ao mundo a face perversa da violência que assombra os povos da floresta, moradoras e moradores da região.

Irmã Dorothy assumiu com seu projeto de vida a defesa das pequenas e pequenos e da natureza ao ponto de despertar ódio daqueles que lucram com a morte da floresta e com as injustiças cometidas no campo. No dia em que foi morta, estava vestindo uma camisa em que estava estampada a frase: “A morte da floresta é o fim da vida”. E segundo relatos, pouco antes de ter sua vida tirada, seu assassino ao perguntar se estava armada, a viu tirar de sua bolsa a bíblia e fazer a leitura das bem aventuranças. Corajosamente, Dorothy enfrentou aquele momento de medo, confiando nas palavras ditas pelo próprio Cristo:

  • Felizes os pobres em espírito, porque deles é o Reino do Céu.
  • Felizes os aflitos, porque serão consolados.
  • Felizes os mansos, porque possuirão a terra.
  • Felizes os que têm fome e sede de justiça, porque serão saciados.
  • Felizes os que são misericordiosos, porque encontrarão misericórdia.
  • Felizes os puros de coração, porque verão a Deus.
  • Felizes os que promovem a paz, porque serão chamados filhos de Deus.
  • Felizes os que são perseguidos por causa da justiça, porque deles é o Reino do Céu.
  • Felizes vocês, se forem insultados e perseguidos, e se disserem todo tipo de calúnia contra vocês, por causa de Mim. Fiquem alegres e contentes, porque será grande para vocês a recompensa no céu. Do mesmo modo perseguiram os profetas que vieram antes de vocês.

 

Pensavam que com a morte de Dorothy, seria silenciado todo aquele movimento. Mas não sabiam que o sangue d@s mártires é semente que se planta e faz nascer novos processos de luta e libertação. E no ano seguinte, a partir de 2006, iniciou-se a realização da Romaria da Floresta, como uma das formas de dar continuidade ao legado de Dorothy e demais mártires da floresta. A Romaria sempre ocorre no terceiro final de semana do mês de julho, próximo ao dia 25, quando se celebra o Dia do Agricultor e da Agricultora.

(Danyllo Baracho, da Pastoral da Juventude do Xingu – Brasil Novo/PA)

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