Jesus de Nazaré: O servo sofredor e humilde

Por esta razão, a prática do amor político por meio do serviço e o amor mútuo entre os irmãos é o meio de identificação dos verdadeiros discípulos de Jesus (Jo.13.35).

Servir às pessoas foi uma prática constante na vida de Jesus de Nazaré. Esta prática libertária de Jesus era um anúncio da chegada do reino de Deus aos pobres e oprimidos, um novo horizonte cheio de amor e esperança para um novo tempo. Não se tratava de um departamento de ação social-denominacional-institucional via instituição em forma de assistencialismo. Seu ministério de serviço caracterizava-se em atos concretos de compaixão e misericórdia. Alimentou os que tinham fome (Mc.8.2), recebeu os pobres como seus irmãos e irmãs (Mt.19.21), cuidou dos doentes (Jo.11.6), se compadeceu de todos que eram vítimas do sofrimento causado pela injustiça. (Lc.10.33; Mt.18.33; Mc.8.2).

Foi nas cidades mais pobres da periferia de Jerusalém como Jericó, Cafarnaum, Nazaré e Caná da Galileia que Jesus iniciou sua missão libertadora. Acolheu os esquecidos, assentou-se à mesa com a ralé: pecadores e publicanos. Visitou os enfermos e os curou, recebeu as crianças pobres em situação de risco e denunciou o estado e o sistema religioso opressor que se situava em Jerusalém.

Em sua maioria, estas cidades estavam esquecidas pela sociedade judaica, principalmente pelos líderes poderosos da religião, do império e do comércio. Foi neste contexto de exclusão que Jesus iniciou o seu ministério.

Estas comunidades eram habitadas por pessoas simples. Pequenos comerciantes, pescadores, publicanos (não os chefes, mas os funcionários de baixo escalão da alfandega), agricultores, carpinteiros e outros que praticavam atividades modestas. Apesar da opressão aos pobres que permeava nessa região, estas pessoas tinham dignidade, por isso, Jesus não praticou um assistencialismo em seu serviço às pessoas, mas acolheu a todos reconhecendo o potencial de cada um deles. Os chamou de bem-aventurados e lhes ofereceu o reino (Lc.6.20) como meio deu uma libertação politizada.

O que movia Jesus a servir às pessoas não era uma motivação pessoal e egoísta, mas sua visão de partilha comunitária. O eixo de sua ação era o amor. Jesus estava desalinhado aos belos discursos vazios dos religiosos do seu tempo compostos apenas de palavras, Jesus encarnou o Evangelho na vida. Servia sem nenhuma pretensão de ser servido, não reivindicou nenhum direito ou reconhecimento da comunidade, em nenhum momento submeteu às pessoas a uma submissão com a pretensão de destacar-se entre os demais. Considerava os mais desfavorecidos como pessoas de grande valor na sociedade, enxergando neles a dignidade. Jesus via na comunidade um enorme potencial para a missão libertária do Reino de Deus.

A compaixão estava nas suas entranhas. Em Jesus haviam uma convicção tão profunda sobre seu ministério de serviço, que chegou a dizer: como o Filho do homem, que não veio para ser servido, mas para servir e dar a sua vida em resgate por muitos”( Mt.20.28). Em nenhuma situação ostentou, nem tão pouco acumulou, mas como “Deus Servo”, decidiu tomar forma de um humilde servo sofredor. (Fp.2.7). Sempre movido de intima compaixão pelos que sofrem buscou realizar a vontade do Pai, deixando a sua vontade em último lugar. Preferiu as coisas mais simples decidindo viver entre os mais pobres. Nosso Deus é o Deus da compaixão e da humildade.

Este ministério de amor político-diaconal-libertário de Jesus deve correr também nas veias da igreja. Somos a Igreja de Cristo no mundo, chamados para ser sal e luz, e, portanto, esta deve ser serva de todos e todas. Sua missão não deve estar centrada em ações reducionistas e egoístas, mas no ministério de Jesus de Nazaré, o servo humilhado. Nas comunidades onde estamos inseridos, devemos seguir o exemplo daquele a quem a igreja pertence, que comprou com preço inegociável, preço de sangue. Nosso chamado como igreja é para ser serva da comunidade. Isso implica em doar-se em ações de amor político e serviço aos pobres.

Toda igreja deve ser comunitária pois assim é a Trindade. O Pai, o Filho e o Espírito Santo trabalham incansavelmente juntos em perfeita parceria e unidade para governar o mundo que antes fora criado. Em sua maneira de viver, a igreja deve compartilhar os dons concedidos por Deus a ela. Deve servir porque aquele que morreu por ela foi servo até o fim.

A razão da existência da igreja é para glorificar a Deus por meio de uma fé política e libertária. Não é essa a missão daqueles que foram chamados para serem luz do mundo? ( Mt.5.14). Por esta razão, a prática do amor político por meio do serviço e o amor mútuo entre os irmãos é o meio de identificação dos verdadeiros discípulos de Jesus (Jo.13.35). Uma igreja que serve é uma igreja viva, que faz produzir frutos de esperança para a construção de um mundo melhor.

Como igreja temos servido às pessoas que Deus nos confiou na comunidade onde estamos inseridos? Temos colocado à disposição do nossos pequeninos irmãos e irmãs nossos bens, dons e serviços? Temos enxergado a comunidade não como um meio de prática de assistencialismo-denominacional-institucional, mas como um lugar onde podemos demonstrar o Reino de Deus por meio da compaixão, fé política e serviço?

Marcos Aurélio dos Santos

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