A dinâmica feminina da Casa Comum na Amazônia

Aloir Pacini, sJ (padre jesuíta e assessor das CEBs/arquidiocese Cuiabá-MT)

Confira relato sobre as atividades complementares à programação oficial do Sínodo da Pan-Amazônia, que ocorre em Roma. São ações organizadas pela tenda “Amazônia: Nossa Casa Comum”. Acompanhe o relato do dia 10 (ontem).

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A mística e espiritualidade na manhã aprofundou a realidade e desafios do mundo urbano: “Deus mora nas Cidades!” Começou fora da Igreja – na praça. Houve um momento de pintura corporal e dança de capoeira. Foi pintado com urucum o rosto dos que estavam presentes recordando a passagem bíblica do Antigo Testamento: “Serão marcados com o Sangue do Cordeiro!” (1 Pedro 1, 19-20) Foi aberto um painel com o rosto de um indígena.

Carregando o painel e, ao som do berimbau, se formou uma procissão entrando dentro da Igreja. Todos cantavam o refrão de autoria do Ney, o professor de capoeira de Manaus (AM) que está conosco na tenda Amazônia: Nossa Casa Comum: “Papa Chico acendeu a Luz no terreiro de Jesus.” Para ele, a luz é o Sínodo e o terreiro é o mundo iluminado por Jesus.

Celebração dos Mártires na igreja Traspontina.

 

Mártires da Caminhada

Pela tarde, na Celebração dos Mártires, recordamos Ernesto Pill Parra (Mártir da Paz e da Justiça, Colômbia – 01/04/1982). Camponês, tinha 22 anos de idade, vivia em Bellavista, no munícipio de San José del Fragua. Participava das Comunidades Eclesiais de Base (CEBs). Ernesto foi detido pelos militares e sofreu horríveis torturas por cinco dias. Foi liberado, mas uma vez por semana tinha que se apresentar na base militar.

Não queria fazer parte de falsas alegações para prejudicar os camponeses. Um dia, antes de sair de casa, disse à sua mãe: “Mãe, dá-me uma benção, porque eu acho que eles vão me matar”. Neste dia Ernesto desapareceu. Outro mártir lembrado foi o padre Alcides Jiménez Restrepo Idárraga (Colômbia, 11/09/1998), que foi assassinado por grupos armados no Baixo Putumayo, no conflito entre guerrilheiros e paramilitares.

 

Recordamos Ernesto Pill Parra (Mártir da Paz e da Justiça, Colômbia), camponês, 22 anos, que participava das Comunidades Eclesiais de Base (CEBs)

 

Com sua vida e compromisso pastoral, semeou no território amazônico seu testemunho profético de paz e esperança, promoveu a organização comunitária e o bem viver dos camponeses, mulheres e jovens pobres, para que fossem protagonistas das mudanças na sua pátria.

 

Mudar o modo de viver

Na Casa Carmelitas fizemos uma dinâmica sobre a progressiva migração das pessoas para a cidade, também dos indígenas. Assustamo-nos quando vimos que a maioria de nós nasceu no interior e mudou para as cidades. Depois pensamos nos diferentes materiais com os quais as nossas casas foram construídas e percebemos novamente que muitos deles estão em extinção.

Assim é com o planeta Terra, a Casa Comum que não suporta mais nosso modo de ser capitalista. Precisamos mudar para uma vida simples, de partilha e fraternidade, por isso a proposta de uma ecologia integral vem em tempo. A sensação de liberdade faz parte dessa integração com a natureza que nos traz possibilidade de bem viver.

 

Mulheres e ecologia integral

Recolhendo o que precisamos para viver, estamos pedindo licença para esta troca elementar que traz equilíbrio para nós e com a mãe-terra. Entre os indígenas as mulheres estão mais ligadas à terra porque são elas que plantam e colhem nas roças. “Elas são a terra, o resto é semente!” Os homens são os responsáveis em geral para caçar, pescar, derrubar a mata e queimar para preparar a roça de toco.

Depois são elas que vêm para plantar respeitando o ritmo da natureza, o meio ambiente. Vimos num vídeo as mulheres falando: “Se colocasse as mulheres para governar, o mundo seria melhor!”

Tivemos um diálogo aberto e aprofundado relacionado com a ecologia integral. Quais são as imagens do bem viver na cidade? Os desenhos foram muito criativos e, no final dessa atividade, que foi adequada para este dia, escrevemos uma mensagem num cartão para os sinodais. Eu escrevi assim: “O tempo é agora, chegou o kairós para aprender com os indígenas a termos uma cultura da partilha, um cuidado com a mãe-terra e uma Igreja onde as mulheres sejam reconhecidas na sua dignidade.

 

Belos e fortes depoimentos

Em seguida tivemos outra atividade na igreja da Traspontina. Antônio Cardoso esteve presente para cantar o Sínodo da Pan-Amazônia: “Ribeirinhos guardiões da nossa Casa Comum. Laudato Si´ é Francisco chamando um a um…” O artista partilhou que essa experiência de estar seguindo o ritmo das águas para fazer as roças o inspirou quando esteve na Prelazia de Tefé (AM). Cantou também um Pacto pela Amazônia nas catacumbas, a mística dos povos da Amazônia chegando em Roma, os mártires de lá e daqui em comunhão.

Em seguida, Elza Nâmnãdi (Xerente) falou de sua espiritualidade: “Nossos antepassados deixou para nós muitas histórias que a gente conta muitas vezes para não esquecer. Somos avisados do que vai acontecer na aldeia muita coisa ruim, muita fumaça, nossos olhos estão ardendo. Falo para meus avós para não ficar triste… tem vez que passa um ventinho frio que alegra o coração da gente. Tem muito agrotóxico na região, vem doença… até o rio não canta mais de noite para nós. Alguma coisa está acontecendo, dizem os anciãos”.

E continuou: “Nós temos que cuidar dos nossos jovens, dos anciãos. Quando meu pai pedia para a floresta na beira do rio para deixar fazer uma roça, pedia com respeito para criar os filhos, para dar comida para a família. Quando nós vimos que pegou fogo na Amazônia e queimou animais, nós ficou triste, porque Deus fez tudo com muito carinho. Eu quero passar outra mensagem para vocês: Tem que respeitar os índios. Nós colocamos o urucum e o jenipapo para pintar porque Deus deixou pra nós, por isso cuidamos. Levamos farofa quando viaja para comer, trabalhou para conseguir.”

Elza Nâmnãdi (Xerente).

O tempo dos povos indígenas é hoje! As mulheres querem falar, elas têm algo a dizer para o nosso tempo. Assim também Leila Rocha (Guarani Ñnandeva) deu boa noite para todos e disse que representava as mulheres do seu povo. Assim também a Irmã Mary Agnes, africana que vive com os Yanomami e o Paulo Suess falaram do valor da palavra para os indígenas: palavras dadas… pronunciadas… cantadas e escritas.

Ao mesmo tempo dessa atividade na Traspontina, as lideranças das comunidades falaram sobre os impactos que a mineração vem causando em seus territórios. Começamos o encontro com uma mística. A Irmã Joaninha, da Equipe Itinerante, trouxe uma garrafa d’água suja trazida de Puerto Luz (Peru), que é consumida pela comunidade.

Sínodo escuta comunidades afetadas pela mineração no Centro San Lorenzo.

Yesica Patiachi Tayori, docente bilingue do povo indígena Harakbut, membro da pastoral indígena do Vicariato Apostólico de Puerto Maldonado (Peru), que falou ao papa quando ele foi lá, estava agora aqui para reafirmar sua denúncia e repúdio contra a invasão de seus territórios. Fechamos a noite aqui também com Antônio Cardoso: cantamos juntos o Hino do Sínodo: “Ribeirinhos Guardiões”.

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