Celebração Martirial Cebs celebra a fé e a luta em São Felix do Araguaia

 

Um dos esteios das Comunidades Eclesiais de Base é fazer memória das mulheres e homens que deram as vidas por uma sociedade mais justa, fraterna e solidária. Em meio a uma longa lista podemos citar os índios Simão Bororo e Galdino Jesus dos Santos, os religiosos irmão Vicente Canãs e dom Oscar Romero, as lideranças rurais Margarida Alves e Chico Mendes. Pois com esse propósito é que se colocaram em marcha as centenas de participantes do 14º Encontro Regional das CEBs de Mato Grosso na celebração martirial que ocorreu em São Félix do Araguaia na noite de sábado (09).

Embalados por instrumentos musicais, símbolos litúrgicos, falas e encenações, estava lá Letícia da Silva Gonçalves, 15 anos, membro da Pastoral da Juventude, estudante do 1º ano do 2º grau e moradora do Distrito de Vila Aparecida, a 50 km do município de Cáceres. Ela segurava o estandarte da escrava Anastácia, princesa Bantu de Angola, feita escrava no Brasil no século XVIII, que se indignou contra os maus tratos ao povo negro e morreu com uma mordaça de ferro no pescoço. “Os mártires são pessoas que lutaram para salvar vidas. Não podemos deixar que essas mortes sejam em vão e nem devemos ficar nas mãos do governo”, comentou.

Terezinha Rios e Aloísio, presentes na nossa caminhada!

A celebração teve seis estações. Nelas foram lembrados mártires dos povos indígenas, população negra, mulheres marginalizadas, causas da terra e ecologia, trabalhadores operários, crianças e juventude. A memória incluiu os recentes assassinatos contra a presidenta da União Nacional de Cooperativas da Agricultura Familiar e Economia Solidária (Unicafes/MT), Tereza Rios Pedrosa, e seu esposo, Aloísio da Silva Lara, no município de Nossa Senhora do Livramento.

Silvângela Alves da Silva, 47 anos, também participou da celebração. Ela é catequista e membro da Pastoral da Criança. Mora em Porto Alegre do Norte, pertence à Prelazia de São Félix, e tem no assassinato do padre João Bosco Penido Burnier um dos principais símbolos da memória martirial. Ele foi morto por um policial em outubro de 1976 em Ribeirão Bonito (hoje Ribeirão Cascalheira-MT) ao tentar livrar duas sertanejas torturadas pelo latifúndio local. “Lembrar dos mártires traz força na caminhada. Faz viver o anúncio do Evangelho. Fortalece a nossa fé”.

“Esses mártires são a história e também representam as lutas dos dias de hoje. Expressam o clamor pela justiça, a profecia de Jesus em defesa dos pobres, dos sem terra, dos sem trabalho”, completou João Celestino, 44 anos. Ele mora em Sinop, atua num grupo de música da igreja de base e vende livros em escolas. A trajetória da irmã Dorothy Stang é um das que mais lhe marcou. Ela foi assassinada com seis tiros em 20005 no Pará por se colocar em defesa da reforma agrária na região amazônica.

O fogo que renova a caminhada

A celebração se encerrou com uma grande roda em torno de uma fogueira nas areias “da praia” do rio Araguaia. Mas antes foi lembrado que naquele mesmo local, em julho de 1973, a polícia da ditadura prendeu dois agentes pastorais da prelazia de São Félix: Antônio Carlos Moura Pereira e José Pontin. Eles foram levados para Campo Grande e lá torturados.

“A celebração martirial tem o objetivo de fazer memória de pessoas que se deram pelas causas do Reino e expressaram a ação pastoral do Cristo Libertador. O fogo representado pelas tochas e pela fogueira tem a ver com a renovação da mística da esperança. O incenso, as folhas de palma, o círio pascal, tudo é pensado para revigorar a nossa caminhada”, explicou Gigliane Gomes Leite, 40 anos, agente pastoral da prelazia.

Gibran Lachowski e Ana Paula Carnahiba 

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Fotos de Pedro Aguiar

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