O Novíssimo Testamento e a construção de uma nova normalidade

A imagem que fazemos de Jesus é reflexo das prioridades que regem nossas vidas. A condição social em que nos encontramos numa sociedade estruturalmente desigual (a que classe pertencemos, nossas características raciais, o sexo, a orientação sexual etc) e as experiências pelas quais passamos cotidianamente condicionam nosso posicionamento diante dos problemas do mundo e, por consequência, direcionam os anseios de nossa fé.

Do consolo semanal que um grande empresário se vale para continuar explorando trabalhadores, ao agradecimento devoto pelo privilégio supostamente concedido por não ser minha a família, e sim a dos outros, vítimas de uma triste desgraça, Cristo é colocado como pedra de sustentação.

A pergunta que fica é: é possível falar em seguimento a Jesus, quando o que se segue são puramente interesses pessoais?

O camponês sem terra da pequena vila de Nazaré apresentou ao mundo uma missão: “Eu vim para que todos tenham vida, e vida em plenitude”. É conhecendo o homem de carne e osso, despossuído de propriedades, filho de mãe mal-falada, perseguido, preso, torturado, crucificado como perturbador da ordem, que podemos avaliar se o caminho que seguimos em nome de Cristo é verdadeiramente o caminho por ele traçado.

A missão de Jesus de Nazaré possuía três pilares sociais básicos: religião como prática de amor, poder enquanto serviço e economia como partilha radical dos bens. Bem avesso aos princípios que ordenavam a desordem social governada pelo império de ricos latifundiários na Palestina da época.

Jesus fez o que fez pondo a mão na massa, ensinando, aprendendo, construindo no convívio cotidiano com a gente oprimida e explorada as bases de uma sociedade de justiça para todas as pessoas, indistintamente. Quando o fermento da libertação começou a penetrar nas massas populares, os donos do poder imediatamente agiram para evitar que a fôrma estourasse. A cruz, antes de qualquer coisa, servia como aviso: “Quem se atrever a seguir este exemplo, acabará como ele.”

A Boa Nova trazida pelo jovem de Nazaré e seus camaradas significou uma reafirmação, atualizada para o contexto da época, da mensagem deixada séculos antes com a revolução social que pôs fim à escravização do povo hebreu no Egito, descrita no livro Êxodo, da Bíblia. Deus é amor, e amor é libertação.

É importante compreender esse processo para contextualizá-lo na realidade atual e assim avaliar nossa inserção nela. Para tanto, o momento de pandemia é uma ótima oportunidade, já que escancarou muitas questões, por vezes encobertas pela tal normalidade anterior ao vírus.

O que diria e faria Jesus, e seu princípio de partilha dos pães, ao constatar que, em plena pandemia, bilionários do Brasil e do mundo ficaram quase 30% mais ricos do que já eram? Enquanto a classe trabalhadora fica sem casa, sem isolamento possível, sem direitos e, sendo a imensa maioria das mortes por covid-19, sem vida?

Na normalidade do sistema capitalista, os pães que determinam a divisão última da riqueza – fábricas, terras, bancos, grandes comércios, meios de comunicação de massa – estão sob controle de um pequeno grupo, menos de 1% da população. Isso lhes confere poder sobre os outros mais de 99%. Poder, por exemplo, para determinar, via governo federal, seu fiel aliado, que mais de 1 trilhão e 200 bilhões de reais[1] dos cofres públicos brasileiros fosse partilhado entre um punhado de banqueiros, ainda em março, antes que chegasse à mesa dos trabalhadores os necessários, mas insuficientes e fugazes, 600 reais de auxílio emergencial. Poder para isentar de imposto os agrotóxicos (aprovado por todos os governos estaduais em abril), venenos causadores da pandemia do câncer e fonte de mais lucro do agronegócio, que está destruindo as florestas. O coronavírus é mais um sinal de que há algo de muito errado com a normalidade que rege esta sociedade.

Da parte dos 99% há bastante divisão. Muitos são os que ainda servem aos interesses do 1%, seja covardemente, disfarçados em pele de cordeiros, escancarados ou pertencentes à maioria manipulada. Lembra quando os representantes do 1% vieram às ruas vestindo verde-amarelo e isolados em seus carrões importados, exigindo o retorno ao trabalho de seus empregados? Naqueles mesmos dias, indígenas eram assassinados, despejos de sem terra e de sem teto aconteciam aos bocados, como ocorre ainda hoje, aliás, e como ocorria antes da pandemia.

Mas da parte dos 99% há também muito testemunho do Reino, da presença de Jesus entre nós. A solidariedade da classe trabalhadora em suas campanhas voluntárias de arrecadação e distribuição de alimentos, a organização espontânea da favela em torno dos cuidados de prevenção ao vírus, a corajosa luta das torcidas organizadas contra o fascismo, a greve dos trabalhadores e trabalhadoras dos Correios contra mais uma privatização do patrimônio público, a luta dos entregadores de aplicativo contra a imensa exploração sofrida, o esforço descomunal de profissionais da saúde no tratamento aos doentes, a resistência aos despejos.

Em Piracicaba-SP, a Ocupação Renascer, e em Fortaleza-CE, a Ocupação Carlos Marighella, duas lutas que nasceram durante a pandemia, têm recebido muito apoio e servido de adubo para a união de organizações da classe trabalhadora. Em Teresina, as famílias atingidas pelo projeto Lagoas do Norte seguem dando exemplos vivos de resistência contra a prepotência da prefeitura e do Banco Mundial.

Em meio à tempestade, abundam exemplos de amor ao próximo, de amor à justiça. Amores perseguidos, caluniados, ameaçados de morte pelo poder que é opressão e exploração, como foi com Jesus, como está sendo com o padre Júlio Lancelotti e seu digno trabalho com moradores em situação de rua.

Estas sementes de libertação são igualmente sementes de Poder Popular. Portanto, precisam ser regadas pela água revolucionária, cultivadas militantemente, para que cresçam como frondosa floresta de vida plena e avance cada vez mais contra o deserto do capital.

O Novíssimo Testamento somos nós, é o que priorizamos, é o que nos interessamos em primeiro lugar, “o que fazemos com o que fizeram de nós”. Como lembra o querido missionário redentorista, padre Matias, há entre a gente os que têm vocação para estar mais à frente, e há aqueles e aquelas que contribuem na retaguarda, no apoio. Todos e todas são importantes. Mas não existe vocação cristã para atrapalhar.

Que o exemplo do Jesus de carne e osso nos guie, que a aproximação com a luta do povo promova em nós as conversões necessárias e que Deus nos encoraje a seguirmos firmes na construção de uma outra normalidade, liberta dos vírus da opressão e da exploração, essas cruzes que só massacram nossa gente.

Thales Emmanuel, missionário leigo redentorista e militante da Organização Popular (OPA).


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