Retórica do governo fomenta violência, diz bispo sobre índios assassinados. Seguem crucificando Jesus. Dom Roque Paloschi

Para ele, há setores que “manipulam a palavra de Deus para explorar, fomentar o ódio e a violência” contra os índios, e ele adverte: “Usar o nome de Deus para cometer crimes é justamente continuar crucificando Jesus”.

Arcebispo de Porto Velho e presidente do Conselho Indigenista Missionário (Cimi), Dom Roque Paloschi está estupefato diante dos ataques aos índios no Brasil — vítimas de uma onda crescente de atentados que já resultaram em sete mortes de lideranças indígenas este ano.

Em conversa com o UOL, ele afirmou que “a retórica do governo que fomenta esse tipo de violência, o ódio e o preconceito aos povos indígenas” e classificou a atitude de “lamentável para as igrejas cristãs”.

Para ele, há setores que “manipulam a palavra de Deus para explorar, fomentar o ódio e a violência” contra os índios, e ele adverte: “Usar o nome de Deus para cometer crimes é justamente continuar crucificando Jesus”.

Denúncia no Vaticano

Em outubro, dom Paloschi participou do Sínodo da Amazônia, no Vaticano, e denunciou a situação dos índios no Brasil. “Existe a retirada de direitos com os muitos projetos, emendas constitucionais, decretos, medidas provisórias. Juntamente com esse conjunto de medidas anti-indígenas, vem a retórica do governo que fomenta esse tipo de violência, o ódio e o preconceito aos povos indígenas. É um momento de muitos conflitos que expõem os povos indígenas a toda sorte, violência e violações de seus direitos”.

Sobre a situação, ele afirma que “a Igreja assumiu ser aliada dos povos indígenas, na defesa da vida, das lideranças, da terra e dos direitos. No Sínodo, o papa Francisco acolheu essa defesa e prometeu se empenhar para que seus direitos seja respeitado”, afirma. O arcebispo diz que esses ataques contra os povos indígenas faz parte de um cenário de criminalização de líderes e de “comunidades inteiras que lutam pelos direitos conquistados constitucionalmente”. Ele ainda faz referência ao contexto histórico nacional. “Somos um país escravocrata. A escravidão foi abolida por lei em 1888, mas na prática continua. E aí nós estamos vendo também as igrejas que se colocam ao lado de quem promove a morte, não a vida. Isso é lamentável para nós, igrejas cristãs”, afirma. O bispo ainda afirma que se indigna porque as comunidades indígenas brasileiras “não exigem nada de mais”.

“Eles não estão pedindo nada especial. Agora esse direito vem sido negado de uma maneira tão agressiva que é preocupante. Nós precisamos ter essa consciência de superar a mentalidade de um país preconceituoso, discriminador, para saber o que está acontecendo e respeitar aqueles que são diferentes de nós”, pontua.

O presidente do Cimi ainda diz que a Igreja não tem como atuar de forma direta porque “‘não tem poder.”

Para o bispo, o cenário de ataques a direitos sociais não ocorrem só no Brasil —o que é visto com muita preocupação pelas maiores lideranças católicas. “O mundo inteiro está se voltando a um fechamento na possibilidade de questões sociais, uma concentração da riqueza nas mãos de poucos. Tudo isso faz parte de um contexto mais amplo”, diz.

Apesar das preocupações, o bispo diz que é um “homem de esperança”. “Eu acho que nós temos caminhos e perspectivas que vão dando um alento de esperança para os dias de hoje”, finaliza.

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