San Salvador, 50 anos de Medellín. Marcelo Barros

Dom Helder me pediu: Não deixe cair a profecia.

Desci no aeroporto Monsenhor Oscar Ranulfo Romero quase às 15 horas de terça-feira. A primeira coisa que me impressionou foi o calor sufocante, quase um choque para quem vem dos países do sul que estão vivendo nesses dias uma onda de frio. Viagem longa porque o Capitalismo facilita as viagens aéreas para Miami e Disneylandia, mas não para integrar o nosso continente. Os brasileiros para virem do Brasil a El Salvador têm de viajar ou por Lima, ou por Bogotá ou pelos Estados Unidos (subir para depois descer). Eu vim por Lima e os voos foram pontuais, embora seja uma viagem que fica mais longa do que do Brasil a Europa.

Estou hospedado na UCA (Universidade Centro-americana) onde em 1989, seis jesuítas e as duas senhoras que estavam dormindo à noite na casa da comunidade, foram assassinados. Uma das primeiras coisas que fiz foi ir ao Memorial dos mártires onde pude ver o número imenso de salvadorenhos mortos nos anos da ditadura. Um dos jesuítas, o teólogo Ignacio Ellacuria foi ao Brasil para um dos primeiros encontros em Petrópolis para organizarmos a coleção Teologia e Libertação. Tive a sorte (embora tenha aproveitado pouco) de ficar no mesmo quarto que ele e assim pude conviver um pouco com esse irmão que se tornou mártir e exemplo de santidade para nós.

O congresso da Amerindia reúne teólogos e teólogas (também agentes de pastoral) de todo o continente. Muita gente jovem. Começou com uma manhã de memória da conferência episcopal de Medellín (1968) da qual comemoramos o cinquentenário. Para mim, a alegria maior é reencontrar companheiros/as e amigos/as que comumente não encontramos. O ambiente é de excelente convívio comunitário. Estou junto com alguns outros irmãos hospedados na Casa de hóspedes da UCA. Ambiente simples, mas muito agradável e convivial.

Nos próximos dias, escreverei mais sobre o congresso. Hoje, quero apenas sublinhar a força simbólica dessa terra de mártires. E o fato de celebrar os 50 anos de Medellín nesse contexto não deixa de ser significativo e profético. De fato, penso que a América Latina está vivendo um novo tempo martirial. Diferente dos anos 60, mas igualmente terrível. E a diferença é que hoje a sociedade em geral parece mais nocauteada ou anestesiada do que antes. Ainda bem que os movimentos sociais e os grupos como Dom Helder Camara chamava “as minorias abraâmicas” continuam firmes e perseveram na luta. Hoje no final da tarde, passei no Centro Monsenhor Romero. Na entrada principal, o retrato de vários bispos profetas latino-americanos. O título do painel é “Pais da Igreja latino-americana”. Ali, junto com Oscar Romero, Leônidas Proaño, Enrique Angelelli e Samuel Ruiz, está Dom Helder e embaixo da sua fotografia está escrito a frase que ele me disse poucos dias antes de partir: “Não deixe cair a profecia”.

Fiquei feliz de ver que essa frase se espalhou pelo continente como um apelo para todos nós.
Escutei o testemunho do padre Cecílio de la Lora, 90 anos, teólogo e assessor que preparou e organizou há 50 anos a conferência de Medellín. Depois tive ocasião de me aproximar dele e cumprimentá-lo dizendo:
– Muito prazer. Sou Marcelo Barros.
Ele me respondeu:
– Ah, és o homem que escreve coisas perigosas.
Respondi:
– Só são perigosas para mim mesmo.
Ele retrucou;
– Mesmo em tempos de Francisco, continuam perigosas.
E eu só pude dizer:
– Dom Helder me pediu: Não deixe cair a profecia.
Depois pensei comigo mesmo:
O desafio é escrever (ou falar) e viver até o fim isso que creio e que prego. Mas, para isso tenho um bom grupo de amigos e amigas que ajudam e que levam avante comigo essa missão que é comum a todos nós. Obrigado.

Marcelo Barros

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