A noite pascal das CEBs no Brasil. Marcelo Barros

  “Quanto mais escura for a noite, mais luminoso será o amanhecer”.

Dom Helder Camara

Na tarde da 2a feira, 14 de maio, quando entrei no quarto da sede da Polícia Federal de Curitiba, para prestar meu dever religioso de visitar o ex-presidente Lula, a primeira coisa que escutei dele foi uma declaração que me tocou. Ele me disse:  – Estou aqui como vítima de uma armação política e sem poder provar minha inocência. Sofro com esse isolamento, mas o que mais me dói é a realidade cada dia mais dura do povo pobre. É a situação deles que me angustia e me aflige mais.

Penso nessas palavras do presidente Lula e as aplico a vocês, queridos irmãos e irmãs das comunidades eclesiais de base e das pastorais sociais. Para todos nós, esse momento que vivemos no Brasil é muito pesado e doloroso. Na Bíblia, o profeta Jeremias dizia que viviam uma situação social na qual “chamam o bem de mal e o mal de bem”. Isso parece acontecer no Brasil de hoje. Os juízes se unem aos políticos piores e junto com o governo transformam a justiça em mentira e publicidade. Servem aos interesses das empresas mais poderosas e entregam as riquezas do Brasil a estrangeiros. Enquanto isso, a cada dia, a população mais pobre sofre a falta de saúde, a dificuldade de educar os filhos. Para sobreviver, enfrentam trabalhos precários e a ameaça do desemprego. Vivem todo tipo de dificuldades. Além disso, muitas vezes, as comunidades eclesiais de base se sentem sozinhas e sem apoio, no seu modo de viver e expressar a fé. Em muitas dioceses, alguns diáconos, religiosos, religiosas e padres acompanham as Cebs e as apoiam.  Principalmente a partir do papa Francisco, contam também com o apoio de muitos bispos. No entanto, ainda são poucos os que verdadeiramente se abrem a uma Igreja mais horizontal, de verdadeira comunhão e menos baseada no poder. Ainda são poucos os capazes de ler criticamente a realidade atual e, diante do que está acontecendo no Brasil, tomar uma posição clara.

Para todos nós, o momento atual parece uma noite escura que custa a passar. O profeta Isaías também usou esse símbolo da noite para falar da realidade do seu tempo. E chegou a dizer: “Ainda é noite, mas a manhã vem chegando” (Is 21, 12). No tempo em que era perseguido pela ditadura brasileira, Dom Helder Camara, arcebispo do Recife, afirmava: “Quanto mais escura for a noite, mais luminoso será o amanhecer”.

Nesse momento, a palavra de Deus nos diz como Jesus está contente ao ver vocês unidos uns aos outros e firmes na caminhada. Quando o apóstolo São Paulo estava na prisão, ele também sem merecer, escreveu aos irmãos e irmãs da comunidade cristã de Filipos: “Se eu posso fazer algum apelo em nome de Jesus, se existe a possibilidade de um encorajamento no amor, uma comunhão no Espírito, um elã de afeição e de compaixão, então, completem minha alegria se colocando de pleno acordo uns com os outros/as. Tenham o mesmo amor, um só coração e procurem a unidade”(Carta aos filipenses, cap. 2, v 1- 3).

Nesse momento difícil que atravessamos, o testemunho profético que podemos dar é nos manter unidos e firmes na resistência ao golpe e na perseverança em viver um novo jeito da Igreja ser. Esse tempo que demora como se fosse uma longa noite, se torna para nós como uma noite de Páscoa. No meio de uma noite como essa, o Espírito de Deus soprou sobre o mar e abriu as águas para libertar os hebreus. Em uma noite escura como a nossa, antes do amanhecer, os discípulos e discípulas de Jesus descobriram o túmulo vazio. Um mensageiro de Deus anunciou: Jesus está vivo e está na frente de vocês. Corram e vão encontrá-lo na Galileia. A Galileia de hoje é o mundo dos pobres, a organização dos movimentos sociais e todas as manifestações da caminhada dos pobres. Vocês, queridos irmãos e irmãs das Cebs, são profetas e profetizas do Amor Divino em meio a tudo isso. Através de vocês, Deus realiza no mundo essa Páscoa nova. Pela fé e pelo compromisso da caminhada de vocês, custe o que custar, podemos já contar com a vitória do amor e da justiça. É Páscoa nova. Muito obrigado a vocês.

Marcelo Barros

Este artigo faz parte da 6ª Edição do Jornal A Caminho Acesse e compartilhe

JORNAL A CAMINHO

One Comment

  • Maria Eugenia da Silva

    Aqui do Haiti, um dia países mais pobre das América, onde a miséria clama aos céus, onde a fome é o pao de cada dia da maioria dos filhos de Deus. É muito dolorido ver e sentir um povo deixado a margem ; sem nenhum direito ou dignidade. É urgente que chamemos a Deus o surgimento de profetas, para ser a voz destes irmãos.
    Estarei unida e asseguro minhas orações.

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