CEBs de Crateús um ruminar de esperança

Nove dias (9) após a realização do 11º Encontrão das lideranças de CEBs da Diocese de Crateús, se ecoa a esperança em lembranças, saudades e a retomada da caminhada militante por um novo tempo, mas pela mesma utopia.

Se faz memória do grande encontro que renovou as alegrias, a partilha e a reflexão. Dom Ailton em suas palavras expressadas na celebração final ressaltou que as CEBs de Crateús foi assolada em múltiplo desafios, mas continua firme, como sinal da resistência em favor da vida.

Confira na integra as palavras de Dom Ailton Menegussi.

 

HOMILIA

11º ENCONTRO DAS COMUNDADES ECLESIAIS DE BASE DE CRATEÚS

 

“Estamos fazendo uma bonita caminhada de preparação e organização para celebrar juntos a vida de fé, de caminhada, de Igreja profética e missionária no mundo urbano” – disse o padre Marcos José dos Santos, coordenador do 14º Intereclesial das comunidades Eclesiais de Base.

 

Nós, Diocese de Crateús, em nossas mais de 800 comunidades espalhadas neste território dos Sertões de Crateús e dos Inhamuns, não estamos fora desse caminho de preparação do 14º Intereclesial das Comunidades Eclesiais de Base de todo o Brasil. E desde já, celebramos juntos, neste 11º Encontro das Comunidades Eclesiais de Base, nossa fé, nossa caminhada profética e missionária no mundo camponês e urbano.

 

Nossas comunidades, apesar de todos os desafios pastorais que se colocam à nossa frente, como consequência da mudança de época que vivemos; apesar dos desafios advindos das mudanças climáticas – uma seca que se prolonga por quase seis anos; apesar dos desafios da crise econômica, somados à escassez de bons invernos que forçam a migração de tantos jovens e pais de família; apesar das reformas injustas promovidas por governantes indiferentes aos gritos da classe trabalhadora e dos mais pobres, retirando seus direitos para favorecer aos interesses do mercado; apesar de tudo isso nossas comunidades estão vivas. Elas não morreram!

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Porém, é verdade que sentimos muito de perto os efeitos, os abalos de toda essa conjuntura. Seríamos orgulhosos se não admitíssemos que somos afetados por tudo isso e, às vezes, até estremecidos nos nossos ânimos e esperanças. Mas, nossas comunidades continuam sendo um facho de luz nas escuridões da vida, nas escuridões deste mundo. Elas teimam em manter acesa a chama da fé que as mantém vivas e dispostas a continuar buscando os sinais do Reino de Deus no meio do mundo e da história. O papa Francisco diz que “as comunidades eclesiais de base nunca tiveram medo dos acidentes e da lama”(EG, 49).

 

Como imaginar a evangelização do nosso povo espalhado por estes sertões sem a presença da Igreja que está lá na base, das comunidades que estão lá onde estão as famílias: nos campos, assentamentos, povoados, distritos, aldeias, quilombos, bairros periféricos de nossas cidades? Como fazer chegar a Palavra de Deus, a graça dos sacramentos, a força da solidariedade, a garantia dos direitos sem a presença de nossa rede de comunidades?

 

Em tudo isso, temos dificuldades, é verdade. Mas, a chama da fé nunca se apagou, acolhendo aquela exortação de despedida de Dom Fragoso: “Não deixe que se apague a chama da fé que acendeu em vossos corações”. Nossas Comunidades continuam se reunindo, celebrando a vida à luz da Palavra de Deus e da Eucaristia; continuam festejando seus santos e santas padroeiros com tanta alegria e devoção; as crianças, jovens e adultos continuam sendo catequizados; continuam partilhando na mesa comum a fartura de alimentos, como sinal da generosidade de nosso povo; continuam organizando romarias, cuidando da vida e da saúde; continuam se organizando e lutando por direitos, zelando de seus espaços celebrativos (sedes e capelas); continuam assumindo a manutenção da rede de comunidades de nossas paróquias através do dízimo, ofertas, doações, campanhas; continuam cuidando e assistindo nossos doentes e idosos, fazendo visitas missionárias, solidarizando-se nas dores das famílias, socorrendo necessidades imediatas de seus pobres; continuam cuidando da casa comum. Contamos ainda com o empenho de antigos animadores e catequistas e com a garra, criatividade de lideranças jovens que vão surgindo. Nossas comunidades estão vivas!

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A vida precisa de cuidados. Nossas comunidades precisam de cuidados. É preciso que cada um (a) abrace sua CEB. Ela é a extensão da sua casa, da sua família. Ela é minha; é sua; é nossa. É do ancião, do adulto, do jovem, da criança. Como na casa, lá na comunidade todos devem ter seu espaço e serem acolhidos com alegria e, juntos, buscar aquela harmonia que dá sabor à vida. Por isso, anciãos, idosos, obrigado pela doação de sua vida às nossas comunidades e pela riqueza da experiência acumulada ao longo dos anos, pelo testemunho de fé! Jovens, venham, trazendo toda a sua alegria, juventude, criatividade e fé! Escutem o que vos diz o papa Francisco: “Sejam caminheiros da fé, felizes por levar Jesus Cristo a cada esquina, a cada praça, a cada canto da terra”. Criançada, ajude-nos a recuperar pelo menos um pouco daquela inocência e pureza perdidas; renove nossos sonhos e esperanças; fale-nos da gratuidade da vida!

 

Não creio que esta homilia seja momento de fazer síntese do que foi refletido nas tendas do nosso 11º encontro. Não. É momento, isto sim, de reanimar nossa fé, nossa caminhada à luz da Palavra de Deus e pela força da Eucaristia. Nas tendas muitas coisas foram refletidas e, ao final desta celebração, uma carta contendo uma síntese das reflexões será apresentada aqui.

 

Nossas CEBs, bem como toda a Igreja, sempre foram e continuam sendo desafiadas pelos cenários do mundo atual. Digo nossas CEBs e toda a Igreja, já que as CEBS são um jeito de ser Igreja e não o jeito de toda a Igreja ser. Nós assumimos este jeito como estrutura de Igreja aqui nesta região, mas sem nos fechar a outras expressões de fé validamente reconhecidas pela Igreja. Estamos sendo desafiados a encarar a complexa realidade do  mundo urbano e do processo de urbanização do Brasil, que vai para além do território das cidades.

 

Contudo, como nos lembra o nosso Papa Francisco, é preciso “olhar a cidade com os olhos da ciência e os olhos da fé. Deus habita nas casas, nas ruas, nas praças da cidade”. A Palavra de Deus deve alcançar os núcleos mais profundos da alma da cidade, ou seja, “o mundo urbano é prioridade da missão”, afinal 84% da população brasileira vivem na cidade. A média aqui no nordeste chega a 73%.

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Há um silêncio ensurdecedor que grita desde as periferias do mundo, inclusive das periferias existenciais. Não podemos anestesiar o espírito diante do déficit habitacional (5 milhões de domicílios); dos problemas dos transportes públicos (idosos, alunos, poluição); da diversidade das formas de violência, que tem como raízes a desigualdade e a exclusão (60 mil em 2014); da questão da água, ligada à destruição do meio ambiente; dos resíduos; das questões do trabalho com a agravante da retirada dos direitos dos trabalhadores em função da reforma trabalhista, da previdência e da terceirização promovidas pelo governo; do gravíssimo estado de saúde da saúde pública e da educação, que tende a piorar com a aprovação da PEC dos gastos públicos; da reforma do Ensino Médio; da nova compreensão da sexualidade baseada em relacionamentos provisórios, na coisificação do outro e na mercantilização do afeto tantas vezes marcada pela rapidez, troca, mudança e pelo descarte. Ao lado desse processo, temos uma crise de legitimidade de lideranças políticas, uma vez que vão fazendo reformas e mais reformas que culpabilizam e punem os mais pobres pelos desmandos, sonegação e corrupção dos poderosos.

 

Dentro deste quadro, sócio-político-econômico-cultural, que na realidade é muito mais complexo, acreditar nas Comunidades Eclesiais de Base parece loucura e escândalo. Era assim desde os tempos da pregação de Paulo. Mas é nisto que acreditava o Apóstolo – na força dos fracos, no escândalo da cruz (1ª Cor 1, 23-28) – e é nisso que acreditamos e apostamos. O caminho deve ser o do cupim, que tenaz e silenciosamente corrói as raízes do mal.

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Evangelizar esse mundo urbano, que está globalizado é um desafio, porque sua alma é o mercado que leva à globalização da indiferença, da “globalização do cada um por si, Deus por todos” (J. P. Sarte), da “cultura do anti-irmão”(Jean-Marc Ela) da “antropologia da cólera”; da “democratização da imbelicilidade” (Celestin Monga).  Nossa missão consiste em construir a civilização do amor, globalizando a solidariedade, a responsabilidade pelo outro. Para isso, é preciso que sejamos “Igreja em Saída” com lucidez e esperança, paciência e criatividade, coragem e humildade. Igreja que se torna fermento, sal e luz em meio a tanta diversidade. Nesse sentido, há muito por fazer; mas louvo a Deus pelo que já fazemos e não é pouco. Há iniciativas por toda a parte. E é sempre possível aperfeiçoar, melhorar, ajustar. Mas, não fiquemos no pessimismo. Já fizemos e continuamos a fazer muitas coisas, apesar da “engrenagem do mercado” ser muito forte.

 

É difícil manter a esperança, acreditar em mudanças, promover a inclusão dos pobres, cultivar nossos valores? É sim! Se afirmasse o contrário aqui estaria mentindo a vocês e subestimando a força dos adversários. Porém, o fato de ser uma empreitada difícil não se torna impossível. Os cristãos verdadeiros sempre andaram na contramão dos sistemas imperialistas e opressores; sempre acreditaram, esperaram, lutaram e colheram frutos de sua caminhada, sustentados na força da Palavra de Deus e na Eucaristia. Estão aí nossos santos (as) padroeiros, nossos mártires de ontem e de hoje, os santos (as) de nossos tempos.

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As nossas Comunidades hão de resistir aos dragões que querem engolir tudo, mantendo viva sua identidade e sua esperança. E aqui, se me permitem, digo que, a nossa identidade por certo não tem mais as mesmas cores e o mesmo formato das décadas passadas. O importante é que se assegure o essencial. Somos as mesmas comunidades de fé, que, com novas linguagens, novos métodos celebramos a fé, buscamos a paz, promovemos a justiça, defendemos a vida, cuidamos da Casa Comum, do nosso bioma. Sabemos que não é fácil esta integração entre aquilo que é perene, que deve ser mantido e o novo que Espírito suscita ou até mesmo aquilo que os novos tempos exigem. Há sempre o perigo de se perder; o perigo de querer suplantar modelos; o perigo do fechamento e da inflexibilidade; o perigo de se esquecer as raízes, a memória. A nossa atitude deve ser sempre dialogal.

 

“Eu ouvi os clamores do meu povo e desci para libertá-lo” (Ex 3,7). Mostremos, pois, nosso clamor a Deus e nossa indignação aos opressores do seu povo. “Se não há justiça para o povo, que não haja paz para os governantes”.  Daí o lema do 23º Grito dos Excluídos deste ano: ‘POR DIREITOS E DEMOCRACIA, A LUTA É TODO DIA’.

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Nós vamos continuar acreditando, lutando, buscando novos caminhos e novas estratégias, rezando, celebrando, participando, partilhando, organizando-nos, manifestando-nos em favor da vida, pela paz, pela igualdade e pela justiça do Reino. Pois acreditamos, como diz um pensador africano “o ser humano se torna o único e verdadeiro remédio do ser humano e para o outro ser humano” ( Joseph Ki-zerbo).

 

 

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Confira carta final do 11º Encontrão de CEBs de Crateús no link: http://www.cebsdobrasil.com.br/2017/09/04/carta-do-11o-encontrao-de-cebs-de-crateus-2017/

 

Confira também as palavras de abertura por dom Ailton Menegussi >>>

 

PALAVRAS INICIAIS DO 11º ENCONTRO DAS CEBs DE CRATEÚS 2017

 

CEBS NO CONTEXTO URBANO J. B. Libanio

 

A cidade desafia as CEBs

A cidade desafia as CEBs.  As injustiças sociais no campo aparecem, sob certo sentido, de maneira bem escandalosa. A cidade tende a escondê-las. Ao assumir as grandes transformações culturais, as pessoas, mesmo pobres, sentem que participam de seus benefícios: eletricidade, aparelhos domésticos, produtos industrializados a preço acessível. Tal fato anestesia a consciência crítica. Dificulta as lutas. Ao vir para cidade, pensa-se que já se goza automaticamente de seus benefícios. E por isso, perde-se certa garra de luta.

Com efeito, gente que nas CEBs do interior reivindicava pelos próprios direitos, ao cair na grande cidade, diminui o fôlego. A cultura pós-moderna, com a inundação gigantesca de programas de TV e com outros recursos da informática, avassala a mente com propaganda. Tal universo de informação e de entretenimento termina por cansar as pessoas a ponto de elas não encontrarem energia para outras atividades. Passa-se facilmente de consciência combativa para acomodada.

Os líderes estudantis e operários, que, em décadas anteriores, conseguiam mobilizar os afiliados para comícios, assembleias e greves, lutam tenazmente para chegar até a eles por causa dos entraves que as cidades cada vez maiores põem e por influência da cultura pós-modernidade presentista e paralisadora.

As CEBs, que no passado desempenharam papel relevante na vida política do país a ponto de terem estado na origem de mobilizações e movimentos sociais populares, e também do Partido dos Trabalhadores, sofrem, nas cidades, da inércia crescente em face da política. Há enorme descrédito de tal atividade humana em consequência de vergonhosos escândalos por parte dos atuais políticos. Não há dia em que as manchetes não estampem casos de corrupção na administração do bem público.

 

O arrefecimento da prática religiosa na cidade

A cidade em relação à prática religiosa está a provocar-lhe o arrefecimento. Dificulta o exercício dos atos religiosos que na vida rural se seguiam cuidadosamente.  Já não se veem, com a clareza da vida rural, os antigos símbolos católicos, invadidos por outras religiões, especialmente pelas igrejas neopentecostais. As distâncias aumentam. A vida urbana acelera o ritmo das pessoas. A queixa geral: não se tem tempo para nada. De fato, na cidade o problema do tempo se torna cada vez mais grave. Um dos entraves para o crescimento da vida das CEBs vem de as pessoas não conseguirem hora para reunir-se. (nas cidades grandes, gasta-se muito tempo no trânsito, por exemplo.  A vida religiosa parece minguar.

 

O isolamento das pessoas e o cultivo do espírito comunitário.

A cidade aproxima fisicamente as pessoas. Agrupa-as em quantidade gigantesca. E curiosamente produz o efeito contrário. Em vez de socializá-las, isola-as no anonimato e no individualismo. Impera a regra: “salve-se quem puder”. Teme-se que estabelecer relações com as pessoas próximas traga invasões da privacidade.

Então surge o desafio para as CEBs urbanas. Como conseguir um equilíbrio entre o isolamento e a invasão exagerada da intimidade num ambiente de excessiva proximidade física.  As CEBs têm muito a oferecer com a experiência de ser comunidade. A origem primeira das CEBs aconteceu em torno de círculos bíblicos, celebrações, lutas sociais. As pessoas se reuniam para rezar, debater, celebrar, organizar mutirões. Essas realidades continuam importantes e mais ainda na cidade.

Os pilares das CEBs

Importa muito conjugar a dimensão comunitária, a preocupação social e a religiosidade. Sem esses três traços a CEB perde a característica própria. A cidade inibe, sob certo aspecto, os três elementos. Dificulta as reuniões comunitárias. Reduz o tempo para a convivência e assim impede o pessoal organizar-se comunitariamente.  Sem muita motivação e empenho, dificilmente as pessoas se reúnem para leitura orante da bíblia, para celebrações e reuniões, a fim de programar atividade social. E sob esta perspectiva, ela impede o empenho social.

 

CEBs evangelizam a religiosidade na cidade.

As CEBs conservam a vocação de ser presença no coração da vida da cidade, carregada de problemas sociais. Cresce nas pessoas certo desejo espiritual, provocado pela violência e dureza da vida urbana. As CEBs constituem-se pequeno oásis de espiritualidade.  A explosão do fenômeno religioso reflete a carência de toque espiritual no mundo atual.  Mas é preciso evangelizar a religiosidade. A religiosidade que não pede conversão, ainda não se deixou evangelizar. As CEBs têm potencial poderoso de ajudar as pessoas envolvidas na onda espiritualista para que descubram a exigência de mudança de vida. Mas em que direção? Na direção de uma conversão que, em última análise, assuma o serviço aos pobres, necessitados, marginalizados da sociedade. Então, o último passo da conversão da religiosidade se dá no compromisso, na práxis da caridade. Experiência que as CEBs conhecem de longa data e de que, portanto, têm muita experiência.

 

A cidade está a exigir das CEBs transformações profundas. Vale o princípio básico de toda mudança. Olhar para o passado, recolher os valores fundamentais e conservá-los. Perceber-lhes os limites e abandoná-los. E, sobretudo entregar-se à tarefa criativa. Ficam, portanto, estes questionamentos:

  1. Que elementos das experiências anteriores vividas pelas CEBs merecem ser conservados?
  2. Que elementos se consideram definitivamente superados e, portanto, não cabe teimar retê-los?
  3. Finalmente, que novas perspectivas a cidade abre para as CEBs?

Fotos – Rede sociais – Facebook: Bamam Amaral – Zé Vicente – Adriano Leitão

Colaboração: Maílson … mahilson_tespispj@hotmail.com

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