Eu era estrangeiro e me acolhestes – Mt 25,35.

Seremos julgados pelo amor e pelos nomes que possamos proclamar diante do juiz supremo. Se passamos o viver na indiferença ou cumplicidade com o poder e a riqueza, não teremos nomes a proclamar.


O Evangelho de Mateus nos apresenta o julgamento final a partir de cinco situações humanas vividas pelos pobres. É um julgamento de atitudes antes de pensamentos e orações. São as práticas ou omissões que decidem. Afinal, não é o julgador quem separa ovelhas de cabritos, mas as atitudes das pessoas durante a vida que nos fizeram optar por caminhos “ovelhais” ou “cabritais”.

O julgamento envolve elementos de uma grande epopeia: a certeza da chegada do Filho, a visão do séquito de anjos e do trono de glória, a convocação de todas as nações para uma reunião derradeira da humanidade, e a separação de uns e outros pelo critério da misericórdia e do amor do pastor. Não é julgamento frio nem legal stricto sensu. É reconhecimento de benção e maldição pelas decisões concretas do viver. É coerência de vida sendo apresentada aos olhos de todos que já sabiam que estes eram os valores ou desvalores de cada um dos companheiros e companheiras da nossa viagem vital na terra dos viventes.

As situações paradigmáticas são estas: fome, sede, ser forasteiro ou migrante, nudez ou fragilidade radical, doença ou preconceito contra o corpo e aprisionamento. Todas as seis situações ferem a alma e o corpo. Todas as seis podem ser vistas nas ruas de qualquer cidade ou serem invisibilizadas por óculos de desprezo e cumplicidade. São situações que qualquer ser humano pode viver em algum momento da vida. Fome, sede, nudez, doença nos acompanham diariamente do acordar ao adormecer. Ser migrante ou preso parecem reservadas aos estranhos ou outros casos raros, mas pode, entretanto, ser vivida por qualquer pessoa sem trabalho, ou situada em um ambiente hostil em sua própria cidade.

Basta pensar-se sozinho nas madrugadas frias de uma grande megalópole e do outro lado da rua vislumbrar um estranho para que o medo irrompa voraz e o coração bata descontrolado. Sentimos perseguição até de fantasmas interiores.

A terceira separação que será feita pelo pastor que é o Filho de Deus em nome do Pai tem como rosto concreto os migrantes, refugiados e estrangeiros em qualquer terra ou lugar. É um paradoxo a nos recordar que somos todos peregrinos e ninguém é dono de lotes na terra nem tem direito de cercar e cercear o caminhar da vida e a pulsão da esperança de quem busca pão em outras latitudes. O texto original em grego diz assim na parte positiva que chama os benditos (Mt 25,35): “fui estrangeiro, e vocês me trataram como alguém convidado”. E na parte negativa ao afastar os da esquerda e amaldiçoa-los (Mt 25, 43): “fui estrangeiro, e vocês não me receberam”.

Acolher em casa como um convidado de honra é aquilo que julga e decide para onde iremos na eternidade. Acolher ao diferente e ao estrangeiro e não o parente, consanguíneo ou parceiro de sonhos, idiomas ou lutas. Acolher como convidado àquele que ninguém considera como digno de acolhida. Acolher o que fala idioma incompreensível, acolher o que come comida distinta, o que reza por outras cartilhas ou até que não reza por cartilha nenhuma, acolher o que talvez até nos incomode e questione mesmo silente ou distante.

No antigo Israel havia normas e prescrições concretas para acolher um estrangeiro. Especialmente na festa da páscoa se um estrangeiro quisesse tomar parte da festa e da partilha do cordeiro devia ser previamente circuncidado (Ex 12,48; Nm 9,14). A acolhida ao estrangeiro era uma obrigação de memória e compromisso de justiça. Lembrados de que haviam sido estrangeiros no Egito, os judeus deviam acolher bem aos estrangeiros. Não podiam ser oprimidos (Lv 19,33-34), podiam ceifar as bordas dos terrenos dos judeus para comer o pão diário (Lv 23,22), se o estrangeiro viver na penúria o judeu devia sustentar esse irmão de sofrimentos (Lv 25,35), e jamais prejudicar um estrangeiro ou necessitado (Dt 24,18). Todos, entretanto, estavam submetidos às regras da lei e da pureza judaicas.
Jesus não só acolhe estrangeiros ou refugiados de outras terras e povos, como diz que são exemplo para o povo hebreu. Exemplos de fé imensa e de atitudes radicalmente amorosas como a mulher samaritana (Jo 4,1-26). Jesus bebe primeiro da água da estrangeira que lhe oferece sua cumbuca. É o imigrante que se dá com amor e por Jesus é acolhido com amor. Reconhece também a fé abundante do centurião romano depois de uma súplica que comove as entranhas do Filho de Deus (Mt 8, 5-13). Tem um milagre arrancado de si pela siro-fenícia das bordas do mundo para curar a filha moribunda (Mt 15,26). Jesus faz até o que não convém em favor da forasteira (Mc7, 27).

O ministério de Jesus é completado na redação do evangelista Mateus por esse texto lapidar e duro. A descrição do juízo final possui tintas fortes e pouco se assemelham ao detalhes de Dante Alighieri em sua Divina Comédia. É um ato de discernimento sobre a conduta da vida pessoal e coletiva que nos julga. De certa forma podemos dizer que nós mesmos sabemos o que nos julga e com que régua seremos julgados. Não há surpresas nem mal-entendidos. O Evangelho é sempre uma escolha entre isto e aquilo. Entre este ou aquele. Ou, ou. Trigo ou joio. Peixe bom ou peixe ruim. Servo bom ou desleal e relapso. O Evangelho não é imparcial ou amorfo e sem nervatura antropológica. Ele escolhe posições em sociedades assimétricas e injustiças. Não há como ficar em cima do muro. Pior ainda é ficar omisso e alienado da vida dos forasteiros que batem em nossas portas e cidades.

O que de fato surpreende é a medida do julgamento ou, diríamos, desse Supremo Tribunal. Não é dinheiro ou sequer gestos religiosos ou discursos falaciosos de bem e bondade sem prática e compromisso fraterno. Falar não conta. Seremos julgados pelo amor e pelos nomes que possamos proclamar diante do juiz supremo. Se passamos o viver na indiferença ou cumplicidade com o poder e a riqueza, não teremos nomes a proclamar.

Estaríamos afônicos diante do Trono. Quem nos salva são os outros. A salvação cristã é uma conexão como povo e como fraternidade. São os famintos, sedentos, forasteiros, desnudos, enfermos e prisioneiros os que trazem nossa alforria divina e infinita. O que é feito a estes últimos é feito ao próprio Deus.

Não há distinção nem separação. Deus e o pobre se fazem um só destino e desafio atitudinal. O que fizermos a estes é reconhecido como feito a Deus. São os pobres que nos abrem as portas da eternidade.

Certamente sabemos bem que a amplitude da fome, nudez e prisão não estão restritas aos famélicos da terra que garimpam nas lixeiras urbanas o resto do que ricos e classe média desprezaram. Estes e estas são só o rosto primeiro de uma exigência radical. A escolha pelo pequenino é um símbolo na escala de valores. Afinal o nu e o faminto é o próprio ser humano. Cuidar dos pequenos deve se transformar em modus vivendi, em modo de vida. Dizia o mestre João Batista Libanio: “Cada cuidado pequeno, a quem quer que seja, é ao Senhor que fazemos”.

Para chegar ao julgamento final é preciso que ouçamos as advertências de Deus e de seus profetas em nossa história concreta. As parábolas da vigilância presentes nos evangelhos sugerem cuidados preventivos para que não falte óleo em nossa lâmpada e que estejamos despertos quando o Dia do Senhor nos tocar na fronte. Estar preparados é viver preparados seguindo atitudes distintas de quem ama e perdoa.

Deus envia seus profetas para que saibamos que não estamos órfãos. Em primeiro lugar o próprio Filho que se fez um de nós. De forasteiro na eternidade a irmão de carne e sangue da humanidade e no tempo. Depois Paulo Apostolo que se faz missionário entre gregos como um entre eles. Milhares de mártires e santos encarnados em povos e culturas distintas, Pregadores como Domingos de Gusmão, Francisco de Assis e Antônio de Lisboa e Pádua, companheiros entre os pobres. E marcando o nosso coração brasileiro recordamos a São Vicente de Paulo que há exatos quatrocentos anos nos convoca à caridade afetiva e efetiva. O padre Gregory Gay, Superior Geral da Congregação da Missão (ordem dos padres, fundada por São Vicente de Paulo), definiu que entre 1º de janeiro e 31 de dezembro de 2017 será o Ano da Acolhida ao Estrangeiro.

Quem são estes estrangeiros, atualmente? No Brasil, praticamente são todos os aqui viventes. Somos todos filhos, netos e bisnetos de imigrantes que aqui chegaram de uma centena de países distintos. Ainda que hoje existam somente um milhão de estrangeiros cadastrados pelo Ministério da Justiça sabemos que o planeta recebeu perto de dois milhões de brasileiros que hoje vivem fora da pátria como emigrantes. Exportamos mais que recebemos. Sabemos também que há desafios concretos em nossas cidades que estão a receber haitianos, venezuelanos, angolanos, moçambicanos, nigerianos, e, particularmente dezenas de sírios refugiados que buscam paz depois do massacre mantido pelos senhores da guerra. Acolher bem aos refugiados é a primeira marca do amor em nosso tempo de muros e segregações. É a pedra-de-toque proposta pelo amado Papa Francisco. Há mais de 65 milhões de refugiados segundo a ACNUR.

E sabemos que mais de um bilhão de seres humanos se encontram em situação de migração dentro e fora de seus países. Um em cada sete pessoas no planeta não vive em sua terra e busca ser acolhido e amado por outros povos e culturas. Muito a fazer. Muito a partilhar. Muito a pedir para que Deus nos ilumine e fortaleça na missão. Que nossa força seja a esperança feita amor. Seguindo o mote vicentino como música de nossa ação: “Amemos a Deus, meus irmãos, amemos a Deus, mas que isto seja a custa dos nossos braços, que isto seja com o suor dos nossos rostos”.

Prof. Dr. Fernando Altemeyer Junior – PUC-SP

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