Fora dos muros de Roma

Aloir Pacini, sJ (padre jesuíta e assessor das CEBs/arquidiocese Cuiabá-MT)

Confira relato sobre atividades complementares à programação oficial do Sínodo da Pan-Amazônia, que ocorre em Roma. São ações organizadas pela tenda “Amazônia: Nossa Casa Comum”. Acompanhe o relato do dia 17.

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Depois desses dias aqui, posso dizer que Roma tem uma relação vital com o rio Trevere (Tibre) e os muros, assim a Fontana de Trevere é ponto vital dentro da cidade, mas já na subida da serra. Junto da Igreja da Santíssima Trindade do Monte, existe outra fonte em forma de barco e as águas correm abundantes de dentro de uma lagoa na Piazza di Spagna.

São muitas outras formas das fontes mostrarem-se em praticamente toda a cidade, o que tem a ver com o valor da água para a vida das pessoas. E o mais bonito é que estas águas correm dia e noite e são potáveis. Já o rio Tibre mostra sinais de cansaço, está poluído. Ninguém se atreve a tomar um banho nele, como vimos em Genebra (Suíça).

 

Inspiração espiritual

Marcivana Rodrigues Paiva, representante do grupo étnico Sateré Mawé convocada para o Sínodo, falou da falta de inspiração espiritual nos nossos tempos. Temos que mostrar os nossos rostos, assumir nossas lutas e vamos acompanhar o papa Francisco para que o Sínodo seja esperança de um mundo melhor: A relação com a água do Amazonas deixa em êxtase quem se aproxima com respeito.

Diante dessa imensidão de água temos uma experiência que transcende o nosso dia a dia, pois este rio ou as águas que sobem nas cheias e descem na seca organizam a nossa vida e de todos os seres que ali vivem, marcam os nossos ciclos vitais. A química, a biologia, a geografia e todas as ciências estão conectadas conosco através desse habitat que ocupamos.

Marcivana na Igreja Traspontina (atrás da “ponte”).

Não fazia ideia das formas religiosas dos romanos manifestarem-se e também impressionou-me os muros antigos da cidade. Encontrei também aqui a Praçinha Brasil fora dos Muros de Roma, uma surpresa relacionada com a devoção à Maria. Como os muros são algo obsoleto e de grande vulto na cidade, marcam os tempos da guerra e a necessidade de proteção apesar das vias de acesso à cidade.

Contudo, bem construídos, servem agora para algumas manifestações que desejo chamar a atenção. Encravado no muro com azulejos está a imagem, com luz elétrica e flores naturais, um sinal de atuação diária dos devotos em lugar público.

Piazzale Brasile, em frente à Villa Borguese (Roma).

Outro aspecto da devoção e da fé em Roma está relacionado com a quantidade de igrejas que encontramos por aqui. Como as tradições cristãs são antigas, são muitos os lugares para os padres celebrarem, o que também impressiona. Pelas Missas na Praça de São Pedro, penso que são milhares, a maioria da Ásia e África. Brincávamos que, um sinal do Sínodo seria colocá-los num navio e redistribuí-los pelo mundo, fazer uma Igreja em saída.

Claro que cada um tem um motivo para estar aqui, fazendo serviços concretos para suas dioceses, representando sua Congregação, e não se pode ser superficial nesta análise.

 

Solidariedade

A Conferência dos Jesuítas do Canadá e dos Estados Unidos em parceria com o Conselho Indigenista Missionário (Cimi) e a Equipe Itinerante, tivemos na Cúria Geral dos Jesuítas, a Mesa da noite no Encontro de solidariedade norte-sul a partir da Laudato Si´. Fizemos um ritual e fomos defumados com tabaco ao som do tambor e da cantoria ritual Dakota. Depois formou-se a Mesa e Rodney M. Bordeaux (Povo Sioux – Canadá) falou que o mais significativo era dar-se a conhecer e, a partir dessas relações, pensar o que podemos fazer em conjunto para cuidar da Casa Comum.

Francisco Chagas (Povo Apurinã, Aldeia do Palhau – Beruri rio Purus) foi claro: “Primeiro quero agradecer a Deus por estar com meus irmãos de todo o mundo. […] No meu país uma terra não demarcada não é respeitada, mas nós não pensamos assim, sempre foi e sempre será terra indígena, nossa terra, porque nossos ancestrais ali vivem. Sofremos frequentemente invasão de pescadores, caçadores… isso é muito ruim para todos nós. Quando se leva uma árvore da nossa terra, ficamos tristes. Quando denunciamos estes crimes, somos ameaçados de morte, não somente eu, mas muitas outros. […]”

E continuou: “Em parceria com a Equipe Itinerante foi feito este mapa para fazer o pedido de reconhecimento em 2001 e foi concedido. Mas, em 2003, foi concedido outro pedido como área de proteção ambiental. […] Nosso papel como guardiões do nosso povo, estamos mantendo desde muito tempo, mas temos que ter a força de vocês”.

 

Guaraná geneticamente modificado

“Estou muito feliz por estar aqui e agradeço ao Deus Criador que fez o céu e a terra. Sou filha do guaraná. Nosso povo sofre na mão da Ambev, eles têm o guaraná geneticamente modificado, mas usam o nosso nome. Agora estamos sofrendo com a mineração e desmatamento, estão roubando nossa riqueza. Tem povo livre na nossa terra, eles já viram seus parentes sendo mortos, por isso eles querem viver livres.

Para o bem da casa comum, vamos caminhar juntos, não vamos deixar o papa Francisco sozinho. Venha somar conosco, pois a terra-mãe é para toda a humanidade. Nós não vamos morar noutro planeta, aqui fomos plantados e aqui vamos continuar vivendo. Do fundo do meu coração, convido a todos a viver juntos, de mãos dadas.” (Edinamar de Oliveira Viana, Povo Sateré-Mawé, Maués/AM).

 

O sangue derramado nos encoraja

Zenilda Maria de Araújo (viúva de Xicão, do Povo Xucuru do Orububá – Pernambuco): “Eu vim do meu recanto de Pernambuco para lutar junto com nossos irmãos, porque nossa luta é muito parecida. Xicão, meu marido foi assassinado faz 12 anos e entreguei meu filho para ser cacique no lugar do pai, com 22 anos. […] O futuro da nossa nação está nos jovens, pois esta luta não vai parar. O sangue derramado nos encoraja, pois ele está do nosso lado… Quem aprendeu a lutar não sabe mais ficar de braços cruzados. O sangue derramado das nossas lideranças corre em nossas veias. Estes que deram a vida continuam conosco […]”.

E continua: “Nós, mulheres, temos voz e vez neste momento, por isso aqui estamos. Tivemos nosso momento com o papa Francisco, juntos temos mais força. A natureza é a morada dos nossos encantados, a força das matas, das águas, da mãe-terra é que me sustenta. Estamos desgovernados no Brasil, por isso vamos cantar: ‘Meus irmãos de luz vai nos socorrer, força, força… meus irmãos de luz, com as ordens de Jesus, força, força…’”.

Instaurar conexões

E outra mesa se formou com Priscilla Salomon CCJ (Ojibway), que fez a bênção do tabaco no início. Ela percebe que novas experiências de reconciliação podem ser realizadas a partir dessa ocasião. Especialmente com a Igreja Católica que está com o papa Francisco, abre-se uma possibilidade de estarmos abertos e podermos instaurar conexões com os nossos irmãos da Amazônia.

 

“O dinheiro está nos matando. A diversidade é divina”, disse padre Fernando Lopes/Cimi)

 

O padre Fernando Lopes (Equipe Itinerante – Representante do Cimi – Povos Livres/ Isolados) mostrou as linhas de definição das Terras Indígenas, limites fundamentais para preservar a demarcação, como uso exclusivo de partes da Amazônia para os povos tradicionais que nestes tempos têm preservado seus lugares sagrados.

“Irmãos indígenas, não se cansem de nos auxiliar! Vivemos tempos de kairós, o território da Amazônia nos conecta todos no planeta Terra. Essa dimensão teológica, uma realidade de cuidado da casa comum é denúncia e profecia, anúncio. O dinheiro está nos matando. […] A diversidade é divina”.

Explicou que a maior biodiversidade do mundo está na Amazônia, uma ecologia de sistemas que convivem bem; o problema é a forma de homogeneizar não a diversidade. Neste mundo globalizado estamos mais capazes de encontrar formas de estarmos conectados, mas não podemos nos enganar com a vontade de eliminar o outro.

 

Precisamos trabalhar juntos

Finalmente falou o arcebispo Donald Bolen (Canadá). “Todos os povos da terra temos que estar plantados no chão nosso de cada dia. Temos que dar as mãos, os brancos com os indígenas, precisam trabalhar juntos. Os indígenas no Canadá e nos EUA somos diferentes, “ter mais, para nós, é simples”, mas os povos indígenas todos os dias lutam contra isso. Difícil é encontrar o caminho certo, distanciar-nos do deus dinheiro, do poder político e religioso, esse parece ser o caminho mais adequado. Esteve no Canadá 12 dias e se perguntou: onde está o povo mais antigo do nosso território?

Aquele que estava muito perto da nossa casa onde crescemos e quis aprender sobre o passado daquele povo, pois foram marginalizados também pela Igreja. Somos um povo de fé, por isso temos que escutar os povos indígenas. Temos que transformar as lutas, dificuldades e desafios em projetos de vida. A Igreja continua símbolo para os povos indígenas, por isso estabelecemos novas conexões para ajustar o território com os rituais indígenas. Temos que encontrar novas maneiras de interagir com as experiências dos povos indígenas”.

E continuou: “Como vamos tecer nossa rede para a casa comum? Caminhando juntos, construindo um novo futuro dentro de princípios básicos da Laudato Si´. Somos privilegiados por estarmos trabalhando juntos. Todos que vivem na Amazônia trazem este espírito novo, um espaço que vai para além das fronteiras. Trabalhamos juntos porque percebemos os sofrimentos dos nossos irmãos e também da natureza. Temos que trabalhar juntos, indígenas e não indígenas”.

E, então, completou: “A maneira de traduzir lutas em luz, esperança, escutar e respeitar a sabedoria dos nossos irmãos indígenas… como curar as nossas relações será pelo diálogo! Foi distribuído o anel de tucum, um presente dos indígenas Dakota para os indígenas da Amazônia e um botom dos Sioux como formas desse diálogo.

 

Demarcação já!

Para fechar este dia, Varney Thoda Kanamary (Vale do Javari) que veio neste segundo grupo do Cimi. Ele falou sobre os Kurubo, dos massacres dos “isolados” naquela região. Os processos de devastação com entrada de madeireiros, garimpeiros e caçadores na região são um perigo iminente. Os índios livres estão sendo protegidos pelos índios já em contato, por isso a urgência da demarcação de suas terras.

 

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