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Milhares de mulheres tomam o Centro de Manaus contra as políticas de Bolsonaro

Milhares de mulheres tomam o Centro de Manaus contra as políticas de Bolsonaro

Milhares de mulheres tomaram este 8 de março as ruas da capital amazonense com motivo do Dia Internacional da Mulher. Convocadas por 44 organizações e movimentos sociais, mulheres de diferentes coletivos reivindicaram seus direitos como indicava a faixa que abria a passeata: “Basta de feminicídio e retirada de direitos”, tendo como foco principal a Reforma da Previdência, uma ameaça do governo Bolsonaro que atinge de modo especial às mulheres.

Ao longo da passeata, representantes de diferentes movimentos sociais mostraram sua postura ao respeito da Educação, a Reforma da Previdência, Violência e Feminicídio, Reforma Trabalhista, Saúde e Mulheres na Política. O ato continuou com apresentações culturais e musicais de vozes femininas, intercalados com testemunhos onde foram lembradas mulheres com um importante papel na luta pelos direitos e algumas vítimas da violência machista no estado de Amazonas, uma prática comum, mas onde muitos casos ficam impunes.

Como reconhecia Elsie Vinhote, Coordenadora da Confederação dos Religiosos e Religiosas de Manaus, “as religiosas como mulheres nos unimos nesta luta por igualdade, por respeito, por tudo aquilo que ainda falta ser reconhecido na sociedade e na própria Igreja, a presença da mulher, não como auxiliar, mas como corresponsável no serviço, na partilha dos dons que ela tem”. Por isso, a religiosa insistia em que “assim como os homens têm dons especiais, as mulheres também, que precisam ser partilhados, não como um ser inferior, como ajuda, mas como protagonistas também da história”.

Na mesma direção, para a Presidenta do Conselho de Leigos e Leigas da Arquidiocese de Manaus, Patrícia Cabral, a Jornada do 8 de março, “é um momento muito significativo e também para nós reconhecermos a importância do trabalho da mulher dentro da Igreja, sua participação, que não é de hoje, é de séculos e séculos, a maneira como ela coordena, como ela organiza, como ela contribui para a evangelização”. Ela destaca que “nós mulheres somos um número bem maior nessa participação”, destacando “o reconhecimento de tantas mulheres, de tantos homens, de tantos companheiros que estão aqui conosco, nos ajudando nessa reflexão, em meio a tanta violência, a tantas situações que a gente vem vivenciando em nossa sociedade em relação ao feminicídio, em relação a tantas violências que as mulheres vem sofrendo”.

Nessa luta em favor dos direitos das mulheres, é fundamental o papel do poder público. O Deputado Federal José Ricardo Wendling, presente no evento, destacava que esta jornada, “além do significado da luta histórica das mulheres por direitos, nesse momento no Brasil, ela é fundamental porque o governo federal está querendo tirar mais direitos das mulheres”. Segundo ele, “já tirou das mulheres trabalhadoras, na Reforma Trabalhista, já parou vários programas sociais como o da moradia, que atinge às mulheres, congelaram os gastos públicos na saúde e educação, com menos creches, menos investimento em educação para as famílias”.

No momento atual que o país está vivendo, Zé Ricardo, insiste em que “agora vai sair uma proposta de uma Reforma da Previdência, que quer tirar mais ainda, quer obrigar as mulheres a trabalhar mais tempo, contribuir com mais tempo. Algumas talvez nunca vão conseguir se aposentar com essa proposta”. Por isso, o Deputado Federal afirma que “por isso essa luta e essa data se tornam mais importantes ainda, no momento, para o fortalecimento de ações de todo o segmento da sociedade que não concorda com isso e fortalecer essa luta em prol da mulheres”.

As mulheres são as vítimas principais do tráfico de pessoas, uma realidade que tenta ser enfrentada desde a Rede um Grito pela Vida, que combate o Tráfico de pessoas e a exploração sexual de crianças e adolescentes. Valmi Bohn, da Coordenação Nacional da Rede, vê no Dia Internacional da Mulher, uma oportunidade “para colocar as mulheres como protagonistas, elas puderem ter sempre direito a seus direitos, elas puderem ser elas mesmas na hora que elas quiserem, puderem ir e voltar na hora que elas quiserem para onde elas quiserem”. Por isso, é importante, segundo ela, que “as mulheres possam sempre ser aquelas que também ensinam e indicam o caminho para outras mulheres, para elas serem aquelas que transformam a vida delas e de outras em algo sempre melhor, sempre prezando pela vida em primeiro lugar”.

Desde a Coordenação dos Povos Indígenas de Manaus e Entorno – COPIME, Rose Apurinã, coordenadora das mulheres indígenas, reconhece que o 8 de março é mais uma oportunidade “para lutarmos pelos nossos direitos, demarcação de terras, educação, saúde, violência contra a mulher, cada dez ou quinze minutos um homem está matando uma mulher, batendo, com ciúme”

Lidiane Cristo, que faz parte do Serviço Amazônico de Ação, Reflexão e Educação Socioambiental – SARES, disse que “a gente entende que nesse contexto em que a gente vive hoje, com esse governo em curso, a união, a aglutinação desses movimentos feministas que se encontraram no SARES para a preparação deste evento é muito importante”. Ela vê a necessidade de “continuar nessa perspectiva de estar juntos, de se articular para a gente vencer”.

Luis Miguel Modino

 

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O DOMINGO DA MISERICÓRDIA… E O TOMÉ QUE EXISTE EM CADA UM DE NÓS Por: Toninho Kalunga Neste domingo, celebrado nas igrejas católicas do mundo inteiro como o Domingo da Misericórdia, somos convidados a revisitar um dos episódios mais provocadores do Evangelho: a dúvida de São Tomé. É o momento em que a Ressurreição de Jesus já aconteceu, mas nem todos conseguem acreditar. E Tomé, com sua honestidade desconcertante, afirma aquilo que muitos pensam, mas poucos têm coragem de dizer: “Se eu não vir… se eu não tocar… eu não acredito.” Talvez seja exatamente por isso que esse domingo nos incomode tanto. Porque ele revela algo profundo sobre nós e nosso tempo. Vivemos um tempo em que os interesses econômicos e políticos das elites resolveram dar um nome elegante para uma realidade brutal: chamaram de “polarização” aquilo que, na prática, tem apenas um polo ativo muito claro — a extrema direita. É nela que o projeto que organiza o ódio, naturaliza a desigualdade e transforma a dor do outro em instrumento de poder, sai do campo da teoria e vai para a prática destruidora e ceifadora de vidas. A pergunta é: onde está o outro lado polarizador? Porque, para que haja polarização deveria haver dois pólos! Mas há apenas um!! O lado dos que atacam os direitos humanos, os que impedem avanços nos direitos da classe trabalhadora, como o debate da escala 6×1 e a exploração das plataforma de aplicativos que chegam a ficar com 40% do valor do arrecadado pelos trabalhadores, entre tantos outros exemplos. E é justamente nesse contexto que o Evangelho nos chama a olhar para algo que parece cada vez mais distante do nosso mundo. A misericórdia . Que é também a única fonte capaz de enfrentar essa situação de uma polarização inexistente, que cega e faz com que os trabalhadores e trabalhadoras se incomodem mais com o fato de ricos pagarem impostos, do que em ver seus próprios próprios direitos serem diminuidos. Por isso, é necessário questionar… dentro desta suposta polarização onde está a misericórdia. . Ao encontrar a resposta, ela te levará ao confronto com os poderosos que sempre foram privilegiados, que não aceitam serem julgados e quando julgados e condenados, sempre buscam um jeito de serem anistiados! Bem ao contrário dos pobres que apodrecem nas cadeias sem direitos e sem manobras! Mas o que é, afinal, misericórdia?? Lembro-me de um padre da minha juventude, chamado Daniel Balzan, que tinha uma capacidade impressionante de nos ensinar o Evangelho, em suas homilias e formações, a partir do significado, da etimologia (origem) das palavras. E duas delas nunca mais saíram de mim. A primeira palavra é: MISERICÓRDIA Misericórdia, vem de duas palavras do latim, explicava ele: misereri e significa — ter piedade, sentir a dor do miserável cor, cordis — significa coração Ou seja: ter o coração tocado pela dor do outro. Miseris cordis A outra palavra que aprendi com Padre Daniel é COMPADECER , que também é uma palavra composta, que vem do latim compati : com — junto pati — sofrer Ou seja: sofrer com o outro. Isso significa que para o cristianismo, não é possível ser misericordioso, se antes, não tiver compaixão, se não se compadecer!! Isso não é uma teoria. Não é um discurso. É uma prática religiosa imposta aos seguidores de Cristo. Só se é cristão e cristã, se compreender essa premissa! É exatamente aí que entra o nosso querido Tomé. Porque, no fundo, não é apenas ele que duvida. BExiste um Tomé dentro de cada um de nós. Um cristianismo que exige prova, que pede milagre, que precisa “ver para crer”. Um cristianismo que só acredita quando pode tocar a ferida com os próprios dedos das mãos. E, é aqui está a contradição central do nosso tempo: seria aqui o ponto X da polarização? Muitos cristãos e cristãs dizem crer — mas não se compadecem. Muitos professam fé — mas não têm misericórdia. E não são misericordiosos porque não tem capacidade de se compadecer! No direito, chamaríamos isso de premissa maior e premissa menor! Sem a primeira, não há como buscar a segunda! Muitos falam em Jesus — mas não se incomodam com a dor do outro, o que forma uma fé egoísta, individual e rasa. E talvez essa seja a forma mais profunda de incredulidade. Porque acreditar na Ressurreição não é aceitar um fato extraordinário. Isso é fácil! Crer na Ressurreição de Cristo, significa assumir uma consequência radical (que vai a raiz): se Cristo vive e venceu a morte, então o sofrimento do outro não pode ser ignorado, porque Deus não ignorou o sofrimento de Cristo e Lhe deu a vitória sobre a morte! A extrema direita, no Brasil e no mundo, tem uma coerência perigosa: a incoerência de se dizer cristã enquanto nega, na prática, os fundamentos do Evangelho. Vejam o que vemos em templos Evangélicos: Nos últimos tempos, Pastores e supostos líderes religiosos com candidatos de Extrema DIreita ajoelhado recebendo “bençãos” de um séquito de apoiadores cujo candidato defende milicianos, que matam e exploram o povo e que tem em sua plataforma política a defesa da exclusão, a legitimação da violência por parte da polícia e o desprezo pela dor dos pobres — e, ainda assim, reivindicam o nome de Cristo como referência de uma suposta defesa da família e da pátria e de Deus! Eles não polarizam. Eles tem apenas um lado! O lado da manipulação da fé e do culto ao poder em nome de uma suposta defesa de Deus (como se Deus precisasse de defesa) da pátria e da família. A pergunta polarizadora é: Que Deus? Que família? E que Pátria? Se essas perguntas não forem honestamente respondidas, aí, sim… mesmo dizendo que crêem, já deixaram de acreditar. Porque isso não é apenas uma contradição política. É uma ruptura espiritual. Não é sem razão que o Rio de Janeiro atravessa as crises que atravessa! Não é por caso que o Brasil, sob Bolsonaro, passou pelas misérias e dificuldades que passou. Isso é fruto da incoerência destes homens que dizendo ser cristãos, agem a favor de Baal ! Tenho convicção de que essa prática religiosa é uma contradição plena com a vontade de Deus e com os mandamentos do Evangelho! Por isso, o Evangelho de hoje não condena Tomé. Pelo contrário: Jesus se apresenta a ele, mostra suas feridas e o convida a acreditar. Mas há um detalhe decisivo. As feridas continuam ali, nas mãos, pés e lado de Jesus. O Cristo ressuscitado não apaga as marcas da cruz. E talvez seja esse o maior ensinamento deste domingo: a fé verdadeira não nasce da ausência de dor, mas da capacidade de reconhecer a dor do outro como lugar de encontro com Deus. Por isso, o chamado que esse domingo nos faz é simples e, ao mesmo tempo, profundamente exigente: Menos milagre e mais misericórdia. É da misericórdia que nasce o Milagre! Menos prova e mais compaixão. É da partilha entre os pobres, com a dor dos oprimidos que nasce a libertação! Menos discurso em púlpitos de Igrejas que se transformam em palanques eleitorais e mais compromisso com políticas públicas que emanciam o povo. Ou seja, menos Welington Bezerra e mais Júlio Lancelotti! Porque, no fim das contas, não é o Tomé que duvida que está em risco. Somos nós — quando deixamos de sentir, de nos compadecer, de nos deixar tocar pela dor do mundo e de sermos misericordiosos. **Toninho Kalunga é Leigo Orionita, membro da Fraternidade Leiga Charles de Foucald e fundador do Núcleo Nacional da Teologia da Libertação POLÍTICA E RELIGIÃO, participa da Paróquia Santo Antonio, na Granja Viana, no Santuario São Luís Orione, em Cotia.

O Domingo da Misericórdia, celebrado pela Igreja Católica no segundo domingo da Páscoa, é o ponto de partida do