No dia da mãe Aparecida, modelos de Missão Indígena na Amazônia: Burnier e Vicente Cañas.

Modelos de Missão Indígena na Amazônia: Burnier e Vicente Cañas (Kiwxi).

Aloir Pacini, sJ (padre jesuíta e assessor das CEBs/arquidiocese Cuiabá-MT)

 

Na comitiva de bispos de Mato Grosso, Dom Vital Chitolina (Diocese de Diamantino) e Dom Adriano Ciocca Vasine (Prelazia de São Félix do Araguaia), testemunharam a santidade do Padre João Bosco Burnier, na celebração dos Mártires da Caminhada deste dia 11/10/2019. Dom Vital, visivelmente emocionado, chorou quando lembrou que o Padre José Cobo pedia para que o bispo encaminhasse o processo de canonização, pois se tratava de um Padre Santo. Recordamos que o Pe. João Bosco Penido Burnier – jesuíta missionário do CIMI, alvejado por um soco, uma coronhada e um tiro do soldado Ezy Ramalho Feitosa quando pediu justiça diante dos atos de tortura de duas camponesas na delegacia em Ribeirão Cascalheira – MT.

Mas foi neste dia de Nossa Senhora Aparecida que, há 43 anos atrás, ele rezava entregando sua vida pelos pobres e indígenas na sua agonia de morte junto de Dom Pedro Casaldáliga, já em Goiânia. Seu corpo permanece sepultado no seminário menor Jesus, o Bom Pastor, em Diamantino.

Dom Vital e Dom Adriano com o estandarte do Padre Burnier

Depois de 33 anos, o Governo Federal admitiu, no início de dezembro de 2009, através do trabalho da Comissão da Verdade, que o assassinato do Padre Burnier foi provocado pela ditadura militar. No dia de amanhã, o papa Francisco vai canonizar a Irmã Dulce, baiana que morreu em 1992, dedicando-se no serviço aos pobres em Salvador. Será a primeira a ser declarada Santa nascida no Brasil. Estes bispos, com Dom Neri José Tondello (Diocese de Juína) estão oficialmente articulando com a Companhia de Jesus os processos de declaração de santidade dos jesuítas Padre Burnier e do Irmão Vicente Canãs (martirizado na sua casa perto dos Enawenenawe – 06/04/1987).

Francisco Chagas

Francisco Chagas, Apurinã da aldeia Palhau, município de Beruri, prelazia de Coarí (AM), no rio Purus, todo feliz com seu cocar de penas, usando uma camisa em homenagem a Kiwxi foi claro: “Este jesuíta foi um Santo, porque viveu como nós índios e morreu porque defendia nossos direitos. […] Querem acabar com a nossa casa, a nossa Amazônia. Lutar pela Amazônia é lutar por todos nós que vivemos ali. Quero agradecer ao Papa Francisco por nos chamar, e vamos junto defender a nossa casa comum.”

Essa celebração preparou-nos para uma mesa que colocou Kiwxi como modelo de Missão do CIMI para este tempo de protagonismo dos povos indígenas. Falou José Luiz Kassupá, Ernestina Macuxi e eu. A lucidez com que o papa Francisco chamou a atenção para quem critica os elementos de inculturação indígenas na liturgia foi precisa, mais ainda porque foi feita em forma de pergunta para pensarmos: Qual a diferença entre o cocar que traz a identidade de uma liderança indígena e o tricórnio vermelho usado pelos cardeais?

A encarnação de Jesus faz com que a Igreja tenha como modelo o Mestre e a necessidade do se encarnar também nos vários campos de Missão. Mais explícito, a Igreja terá que ter rosto indígena nas Igrejas locais quando formada pelas diferentes etnias. Um detalhe que parece superar as dificuldades e polêmicas inúteis neste contexto de temas urgentes como a ecologia integral, a violência e morte dos missionários e indígenas, a rigidez clerical e sua tendência a ficar na sacristia e não sair em Missão, foi a sugestão de termos uma instituição a nível de REPAM como o CIMI que atua em nível de Brasil.

Por outro lado, importante seria reconhecer os lugares das mulheres nas diferentes formas de atuar nas comunidades, conforme as culturas. Alguns casos concretos na Amazônia mostram que os homens não atuam sozinhos. Mesmo que o homem ou a mulher é cacique, o casal tem que atuar junto para que haja harmonia. Existem coisas que só acontecem se ambos abraçam de forma harmoniosa o mesmo compromisso.

Por exemplo: presenciei quando Bonifácio se colocou na disposição para ser o “dono da festa” entre os Rikbaktsa, aldeia Primavera. Mas ele não o fez sem que a esposa e o sogro estivessem de acordo, pois grande parte das tarefas necessárias foram conduzidas por ela e o sogro que conhecia melhor os rituais. Assim também o afinador de flautas que era de outro clã, os que caçaram e pescaram, os que buscaram a castanha brasileira e a lenha, os que cantaram, tocaram e dançaram etc., todos tiveram que participar como serviços na comunidade para que houvesse a festa. O caso parece complicado quando os lugares são assumidos como privilégio e não como serviços. Quando tivermos uma proposta de reconhecer a dignidade das mulheres nas suas atividades nas comunidades, não vamos mais ter medo delas tomarem os nossos lugares de Padres.

Em um contexto em que o meio ambiente e os povos originários estão no centro do debate mundial através do Sínodo da Amazônia, o Conselho Indigenista Missionário (Cimi) também apresentou o seu relatório anual violência contra os povos indígenas no Brasil – dados de 2018. Falaram neste evento coordenado por Marline Dassoler, do Secretariado Nacional do Cimi: Adriano Karipuna (Rondônia), Jair Maraguá (Amazonas), Elza Nâmnâdi Xerente (Tocantins) e Dom Roque Paloschi, presidente do Cimi e arcebispo de Porto Velho.

No último ano foram registrados 109 casos de “invasões possessórias, exploração ilegal de recursos naturais e danos diversos ao patrimônio”, enquanto em 2017 haviam sido registrados 96 casos. Nos nove primeiros meses de 2019, dados parciais e preliminares do Cimi contabilizam, até o lançamento do relatório, 160 casos desse tipo em terras indígenas do Brasil. Também houve um aumento no número de assassinatos registrados (135) em 2018, sendo que os estados com maior número de casos foram Roraima (62) e Mato Grosso do Sul (38). Em 2017, haviam sido registrados 110 casos de assassinatos.

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