Re-significar as CEBs na atual realidade Latino-Americana

Por Luis miguel Modino Martinez

Construir a Igreja a partir da realidade em que vive, seguindo uma metodologia indutiva, tem sido um desafio nos últimos cinquenta anos a partir das reflexões nascidas do Vaticano II e  recolhidas nos documentos conciliares. Esta atitude cobrou especial relevância no continente latinoamericano, onde a partir da Conferência de Medellín foi traduzido à realidade local tudo o que tinha sido trabalhado no Concilio. As CEBs na América Latina, nascidas em volta ao Vaticano II, tem sido desde seu início uma expressão concreta desse novo jeito de ser Igreja nascido do Concilio. Após 50 anos, as CEBs latinoamericanas sentem a necessidade de entrar numa dinâmica de re-significação, que as leve a encontrar os pontos nucleares que permitam planificar o futuro da caminhada. Para entrar nessa reflexão temos nos reunidos de 9 a 11 de setembro, na cidade de Areguá, Paraguai, os assessores e articuladores das CEBs, procedentes de 14 países, tendo como propósito encontrar pistas para uma re-significação das Comunidades Eclesiais de Base na América Latina que permita encontrar o caminho que conduza as CEBs a estar presentes nas bases. Esse tem sido um momento prévio ao X Encontro Continental de CEBs que vai ser celebrado na cidade de Luque, de 13 a 17 de setembro. O analise da realidade foi o ponto de partida do debate. Aí eram constatados uma série de elementos que em diferentes níveis estão presentes na vida das CEBs latinoamericanas, como é a Leitura Popular da Biblia, a formação, a união entre fé e vida, o cuidado da Casa Comum, o fato de ser uma Igreja em saída, a luta pela transformação social, a tensão entre clero e leigos. Após constatar alguns dos elementos que hoje estão presentes na vida das CEBs do Continente tem ido aparecendo os pontos centrais para fazer realidade o processo de re-significação. Esta dinâmica deve partir da centralidade de Jesus de Nazaré e seu seguimento, assim como da Palavra de Deus e deve conduzir a assumir uma serie de atitudes como o respeito das diferenças, o caminho comum com os movimentos sociais que leve a um maior compromisso sócio-político, ser uma Igreja ministerial, testemunhar o Amor de Deus a partir dos excluídos, sem esquecer a necessidade de que as CEBs se façam presentes no meio dos jovens. Cabe destacar uma ideia que apontava José Marins, a necessidade de partir da ideia de que todo batizado é consagrado para a missão de Jesus, fazendo ver que leigo não é menos do que o sacerdote. Por isso, Marins defende que a referência sempre deve ser o povo, que tem que ser escutado do jeito que fala. Pedro Ribeiro de Oliveira ressaltava como uma caraterística das CEBs a dimensão religiosa de suas lutas sociais, superando a defesa de seus próprios interesses. A partir daí insistia na urgência de uma espiritualidade política que construa o Reino, aspecto que, em sua opinião, em outros tempos esteve mais presente na vida das Comunidades Eclesiais de Base. Partindo da realidade das CEBs latinoamericanas e tendo como objetivo final encontrar caminhos para sua re-significação, o teólogo argentino Carlos Schickendantz tem ajudado a refletir sobre os passos que devem ser dados nesse sentido. Em sua análise, partia das ideias sugeridas pelo Vaticano II, onde se deu um salto de qualidade que teve como conseqüência um novo modo de proceder a partir do discernimento colegiado dos sinais dos tempos sob a autoridade da Palavra de Deus. Partindo das ideias conciliares, Schickendantz insistia na necessidade de perceber a voz de Deus na realidade, pois só se entendemos o que acontece, entenderemos ao Deus que passa. Em sua opinião, o Concilio leva a descobrir que não podemos continuar com uma doutrina atemporal que julga e sim apostar por uma fé que evolui a partir da realidade, que Deus se abre a toda pessoa pela graça. O teólogo argentino tem apresentado o Concilio como um momento de despedidas de situações históricas que isolaram a Igreja da sociedade, de outras confissões cristãs, de métodos de análise errados, surgindo novas prioridades eclesiais que levem à primacia das Igrejas locais sobre a Igreja universal, da comunidade sobre os ministros, da estrutura colegial sobre a estrutura monárquica, dos carismas sobre os ministérios, da diversidade sobre a uniformidade. Partindo das diferentes reflexões, os assessores e articuladores continentais temos constatado que é possível encontrar o rumo a seguir no momento atual pelo que está passando Latino América. Ninguém pode esquecer que, como reconhece Carlos Schickendantz, o efeito das CEBs vai muito mais longe daquilo que a gente vê e que a realidade cultural atual não permite descobrir com clareza a relevância das diferentes realidades, tampouco das Comunidades Eclesiais de Base.

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