SER PROFETA DO BEM VIVER NUM BRASIL EM CRISE SOCIAL E POLITICA-Seminário Nacional de Fé e Politica

A ECONOMIA DOMINA O SISTEMA DEMOCRÁTICO E INCREMENTA A DESIGUALDADE

 

Não podemos esquecer que o projeto de Deus é de inclusão e que a religião é fonte de injustiça quando exclui outro em nome de idéias ou pensamentos religiosos. 

O Movimento Nacional de Fé e Política do Brasil se reuniu no Rio de Janeiro nos dias 19 a 21 de maio para realizar um Seminário em que mais de 70 participantes vindos das diferentes regiões do país, representantes de cinco Igrejas cristãs refletiram a partir do tema: “Conjuntura: Economia, Meio Ambiente, Política e Profetismo na Perspectiva do bem viver.

A situação de crise institucional pela qual o país passa, com a constante aparição de escândalos de corrupção que afetam os principais líderes políticos e que nessa semana atingiu o Presidente Michel Temer e o candidato da direita à Presidência na última eleição, Aécio Neves, que perdeu seu mandato de senador, foi o pano de fundo que marcou as reflexões apresentadas durante esses dias.

A conjuntura brasileira não é diferente da vivida por muitos outros países, dominados por grupos financeiros que comprometem o futuro sócio-político no mundo atual. Não podemos esquecer, como observava o sociólogo Silvio Caccia-Bava, editor do Le Monde Diplomatique Brasil, que 62 famílias são donas dos mesmos recursos que os 99% da humanidade.

Esta dinâmica na qual a economia domina ao sistema democrático, se traduz num aumento da desigualdade e um brutal e constante ataque contra o meio ambiente, que pode conduzir num futuro não muito distante, a uma guerra pelo controle dos recursos naturais.

As grandes corporações empresariais brasileiras vivem dos interesses da dívida pública, que para dar um exemplo do que isso significa, hoje representa um valor quase seis vezes superior ao orçamento para a saúde pública.

Esta dinâmica é sustentada pelo poder legislativo, porque não podemos esquecer que mais de 70% dos deputados foram eleitos com o apoio financeiro das grandes empresas, como está sendo demonstrado pelos escândalos de corrupção contínuas que estão aparecendo a cada dia.

Seguindo uma ideia que aparece na Encíclica Laudato Si, a pesquisadora da Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro e participante da 21ª Conferência das Partes (COP-21), Camila Moreno, argumentou em seu discurso que  o pensamento crítico, ecologia e política são  inseparáveis, se quisermos superar a crise ambiental de múltiplas dimensões pelas quais o planeta passa.

Para avançar nessa direção, a  espiritualidade do Bem Viver pode nos ajudar a recuperar a perda da relação entre a natureza e o sagrado, presente nos povos originários  e até mesmo na tradição bíblica inicial, que foi destruída pelo sistema capitalista.

Diante desta realidade sócio-política é necessário   aos cristãos assumirem  uma atitude profética, homens e mulheres de Deus que se rebelem em nome de seu Projeto, tal como disse a  Pastora Metodista Elizabeth Cristina de Andrade de Oliveira,  que a partir de uma fé fortalecida pela comunidade possam  mostrar uma nova maneira de ver a realidade

Não podemos esquecer, como destacado pela Pastora Luterana Romi Benke, Secretária Executiva do CONIC (Conselho Nacional de Igrejas Cristãs), que a fé não é um instrumento de opressão e de diferença e sim algo que nos faz iguais e livres.

Nós vivemos em uma sociedade, na opinião da secretária do CONIC, dominada pelo mercado, incluindo-se as igrejas, o que torna difícil falar sobre igualdade e liberdade em Deus e espiritualidade do Bem Viver.

Isso faz com que  a fé e a política hoje sejam dominadas por uma lógica que não gera liberdade, acontecendo uma simbiose entre o fundamentalismo religioso e o fundamentalismo de mercado, o que deixa vazia de conteúdo a própria democracia.

A partir desta reflexão, a pastora luterana se pergunta como o Movimento Fé e Política pode ajudar a quebrar os muros que separam Deus da humanidade? Neste sentido, ressaltamos que não podemos esquecer que o plano de Deus é inclusivo e que a religião é uma fonte de injustiça quando exclui o outro em nome de ideias religiosas ou pensamentos, sendo necessário passar da prática da fé em Jesus Cristo, para assumir a fé de Jesus Cristo.

A Encíclica Laudato Si, ajuda a compreender a relação entre profecia e política. A partir desta tese, o professor da Universidade Católica de Brasília, Daniel Seidel, apresentou reflexão sobre a atual crise política que o Brasil passa, o que levou a um descrédito dos partidos e instituições, criminalização da política e um ataque direitos sociais, o resultado de uma economia que mata e um sistema tecnocrático que não leva em conta a todos e explora a natureza sem medida.

A situação sócio-política tem consequências, tanto no campo social (mentalidade colonial, racismo e preconceito, o autoritarismo, o consumismo, o desprezo para com as mulheres …) e religiosa (crise de envolvimento da comunidade, a teologia da prosperidade, panos, incenso, milagres, moralismo hipócrita, abuso infantil, a exclusão dos pobres das igrejas, liderança juvenil e negação de mulheres …).

Nesta situação, Seidel vê sinais de esperança na política, expressa, nomeadamente, nas mobilizações nas ruas e nas redes sociais, em organizações que promovam a economia solidária. Há também a esperança no reino da fé, que aparece na figura e profética do Papa Francisco, a tentativa de realizar o Bem Viver, a REPAM ou reações dos bispos à situação política que o país atravessa. É necessário perceber uma saída de Igreja, presente na vida social, e buscar alternativas para ajudar a superar os problemas sociais atuais

Os participantes, partindo  destas reflexões, têm procurado maneiras de ajudar a construir a sociedade do Bem viver. Isto requer daqueles que fazem parte do Movimento Fé e Política agirem e incentivarem outros a tomarem a mesma dinâmica, ajudando na superação da situação social atual pela qual está passando Brasil.

Não nos esqueçamos, como afirma Pedro Ribeiro de Oliveira, há uma guerra de ideias na sociedade de hoje, também em igrejas, e que o Bem Viver, bem como outros conceitos, é uma das armas que podem ser usadas. A coisa mais importante será convencer as bases sobre a necessidade de aceitar essa proposta. Para alcançar essa meta o  movimento Fé e Política deve agir como fermento e incentivo desse processo.

É necessário, de acordo com Daniel Seidel, que o Movimento Fé e Política seja  voz profética e tenha uma ação profética, que possa fazer realidade através de denúncias, lutas, formação e articulação, dentro e entre igrejas e religiões, bem como com os movimentos sociais e com as juventudes, sendo assim  fonte de   resistência eclesial e político-social.

Este Seminário Nacional do Movimento Fé e Política do Brasil foi mais uma etapa rumo ao 11º Encontro Nacional de Fé e Política será realizado em Fortaleza em 2019, quando será comemorado 30 anos de caminhada.

O Movimento Fé e Política não faz outra coisa a não ser seguir um dos aspectos que insiste o Papa Francisco, “se envolver na política é uma obrigação para um cristão”, reafirmando a necessidade de “se intrometer na política, porque a política é uma das mais altas formas de caridade, que busca o bem comum”.

Por Luis Miguel Modino

www.periodistadigital.com em 21 de maio de 2017

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