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Carta do 12º Encontro Estadual às Comunidades

Carta do 12º Encontro Estadual às Comunidades

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Ousamos semear flores, abolindo os canhões, revertendo a morte em vida
Ousamos semear flores pelos quatro cantos do mundo
Ousamos semear flores, em cores, espalhando canções
Nas poses caladas, surradas, cansadas.

O Papa Francisco, no Encontro com os Movimentos Populares, lembra a todos nós: “Vos sois semeadores de mudanças” (n. 2). Nos dias do outono chuvoso, de 20 a 22 de maio de 2016, na Diocese de Chapecó, terra marcada com o sangue de colonos, negros, caboclos e povos indígenas, as Comunidades Eclesiais de Base (CEBs) e os Grupos de Reflexão/Bíblicos/de Família (GR/B/F) de Santa Catarina – Regional Sul 4 – ousaram semear flores de esperança e espalhar canções de amor e de profecia. Neste lindo jardim das Delícias, nesta grande tenda que armamos na Comunidade Paroquial de São Cristóvão, fomos alargando o espaço. Acolhemo-nos mutuamente, homens e mulheres, jovens, idosos e crianças, caboclos, negros e indígenas, população em situação de rua e todos aqueles invisíveis para a sociedade, mais de 500 pessoas, rosto de nosso povo catarinense, plural e diverso, mosaico encantador e reencantador da caminhada do Povo Santo de Deus. Somos jardineiros do Reino e ousamos semear flores nos quatro cantos do mundo, na Pátria Grande, no Brasil e em Santa Catarina!

Porém, o nosso jardim está sob constantes ameaças, seja da exploração e da desvalorização da vida, da cultura do descartável ou da ameaça à democracia, entre tantas outras. Os poderosos pisam em nossos jardins, esmagam nossas flores e matam nossas sementes. “Para reverter a morte em vida”, é preciso romper com todas essas amarras a que somos submetidos nesta dura escravidão do individualismo, do mercado e do consumismo.

Vivemos num mundo onde as relações familiares, comunitárias e sociais estão esfaceladas, quebradas, fragmentadas e nos desenraizamos de nossa humanidade. Isso nos leva a agir como se tudo e todos fossem objetos ou mercadorias. Podemos tê-los ou descartá-los conforme julgamos ter “necessidade”. Isso se aplica a pessoas, grupos e até mesmo à natureza. É a “globalização da indiferença, que nos torna frios, calculistas e insensíveis frente a tantos desafios do mundo urbano! Esta mentalidade traz suas consequências para todas as dimensões de nossa vida, das quais ninguém está isento ou imune.

Deste chão, brota um clamor pela defesa da vida. Como nos diz o Papa, necessitamos de uma mudança positiva, uma mudança que nos faça bem, uma mudança redentora (cf. Discurso do Papa aos Movimentos Sociais, n. 1). Este é um sonho que deve ser alimentado no cotidiano da vida de nossas comunidades e é uma luta que deve ser travada por todos. Se deixamos de plantar e de sonhar, não há mais espaço para a pessoa e para relacionamentos verdadeiramente humanos. É preciso ousar, avançar, romper os limites da lógica do capital. É preciso plantar flores e semear sonhos!

Nosso sonho é alimentado por uma espiritualidade libertadora, animada pelos símbolos, lutas e a opção pelos pobres, tendo à frente Jesus de Nazaré, como nosso mestre e companheiro. Sob inspiração da missão libertadora expressa em nosso lema, “Eu vi e ouvi os clamores do meu povo e desci para libertá-los” (Ex 3,7), assumimos os desafios no mundo urbano, com um novo olhar e ouvidos atentos aos clamores desta realidade para construir práticas libertadoras e fortalecer as redes de solidariedade.

Queremos contribuir com o Projeto de Jesus, sinalizando que o Reino já está entre nós. Como CEBs assumimos:
Semear as flores de resistência na ROÇA, que busca produzir “o pão nosso de cada dia”, defendendo e cuidando da vida, com a produção agroecológica-orgânica incentivando o consumo sustentável.

Semear flores de solidariedade nos CENTROS URBANOS, humanizando a vida e as relações, com justiça e dignidade para todos.

Semear flores de convivência e construir relações fraternas nos CONDOMÍNIOS, formando pequenas comunidades com ousadia missionária, bem como aproximar todos no mesmo ideal das CEBs, a caminho da libertação.

Semear flores de esperança aos que estão, aos que vão e aos que vêm do LITORAL desta terra de Santa Catarina, para que tenham condições de vida plena, cuidando com as comunidades tradicionais e a natureza.

Semear flores de acolhida aos irmãos e irmãs MIGRANTES, que buscam trabalho e vida digna em nosso meio, superando todos os tipos de fronteiras, muros e preconceitos, porque o Deus da Bíblia é o Deus Migrante.

Semear flores de cidadania nas PERIFERIAS, onde nossos pés pisam, nosso coração sente, que com criatividade, reinventam e reencantam a vida e lutam por seus direitos.

É assim que queremos assumir o compromisso que “Em nome do amor, cultivamos flores / Em nome da vida, ousaremos colhê-las / Para enfeitar a farta mesa, da festa e da partilha e da paz”. Nós, participantes do 12º Encontro Estadual das CEBs-GRBF, convidamos todos a fazerem parte deste grande mutirão para semear, cuidar, regar e colher a VIDA neste imenso jardim das comunidades. Que Maria, Mãe da Igreja, nos envie para a grande Festa da Libertação!

Amém! Axé! Aleluia! Awerê!
Chapecó, maio de 2016.

 

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O DOMINGO DA MISERICÓRDIA… E O TOMÉ QUE EXISTE EM CADA UM DE NÓS Por: Toninho Kalunga Neste domingo, celebrado nas igrejas católicas do mundo inteiro como o Domingo da Misericórdia, somos convidados a revisitar um dos episódios mais provocadores do Evangelho: a dúvida de São Tomé. É o momento em que a Ressurreição de Jesus já aconteceu, mas nem todos conseguem acreditar. E Tomé, com sua honestidade desconcertante, afirma aquilo que muitos pensam, mas poucos têm coragem de dizer: “Se eu não vir… se eu não tocar… eu não acredito.” Talvez seja exatamente por isso que esse domingo nos incomode tanto. Porque ele revela algo profundo sobre nós e nosso tempo. Vivemos um tempo em que os interesses econômicos e políticos das elites resolveram dar um nome elegante para uma realidade brutal: chamaram de “polarização” aquilo que, na prática, tem apenas um polo ativo muito claro — a extrema direita. É nela que o projeto que organiza o ódio, naturaliza a desigualdade e transforma a dor do outro em instrumento de poder, sai do campo da teoria e vai para a prática destruidora e ceifadora de vidas. A pergunta é: onde está o outro lado polarizador? Porque, para que haja polarização deveria haver dois pólos! Mas há apenas um!! O lado dos que atacam os direitos humanos, os que impedem avanços nos direitos da classe trabalhadora, como o debate da escala 6×1 e a exploração das plataforma de aplicativos que chegam a ficar com 40% do valor do arrecadado pelos trabalhadores, entre tantos outros exemplos. E é justamente nesse contexto que o Evangelho nos chama a olhar para algo que parece cada vez mais distante do nosso mundo. A misericórdia . Que é também a única fonte capaz de enfrentar essa situação de uma polarização inexistente, que cega e faz com que os trabalhadores e trabalhadoras se incomodem mais com o fato de ricos pagarem impostos, do que em ver seus próprios próprios direitos serem diminuidos. Por isso, é necessário questionar… dentro desta suposta polarização onde está a misericórdia. . Ao encontrar a resposta, ela te levará ao confronto com os poderosos que sempre foram privilegiados, que não aceitam serem julgados e quando julgados e condenados, sempre buscam um jeito de serem anistiados! Bem ao contrário dos pobres que apodrecem nas cadeias sem direitos e sem manobras! Mas o que é, afinal, misericórdia?? Lembro-me de um padre da minha juventude, chamado Daniel Balzan, que tinha uma capacidade impressionante de nos ensinar o Evangelho, em suas homilias e formações, a partir do significado, da etimologia (origem) das palavras. E duas delas nunca mais saíram de mim. A primeira palavra é: MISERICÓRDIA Misericórdia, vem de duas palavras do latim, explicava ele: misereri e significa — ter piedade, sentir a dor do miserável cor, cordis — significa coração Ou seja: ter o coração tocado pela dor do outro. Miseris cordis A outra palavra que aprendi com Padre Daniel é COMPADECER , que também é uma palavra composta, que vem do latim compati : com — junto pati — sofrer Ou seja: sofrer com o outro. Isso significa que para o cristianismo, não é possível ser misericordioso, se antes, não tiver compaixão, se não se compadecer!! Isso não é uma teoria. Não é um discurso. É uma prática religiosa imposta aos seguidores de Cristo. Só se é cristão e cristã, se compreender essa premissa! É exatamente aí que entra o nosso querido Tomé. Porque, no fundo, não é apenas ele que duvida. BExiste um Tomé dentro de cada um de nós. Um cristianismo que exige prova, que pede milagre, que precisa “ver para crer”. Um cristianismo que só acredita quando pode tocar a ferida com os próprios dedos das mãos. E, é aqui está a contradição central do nosso tempo: seria aqui o ponto X da polarização? Muitos cristãos e cristãs dizem crer — mas não se compadecem. Muitos professam fé — mas não têm misericórdia. E não são misericordiosos porque não tem capacidade de se compadecer! No direito, chamaríamos isso de premissa maior e premissa menor! Sem a primeira, não há como buscar a segunda! Muitos falam em Jesus — mas não se incomodam com a dor do outro, o que forma uma fé egoísta, individual e rasa. E talvez essa seja a forma mais profunda de incredulidade. Porque acreditar na Ressurreição não é aceitar um fato extraordinário. Isso é fácil! Crer na Ressurreição de Cristo, significa assumir uma consequência radical (que vai a raiz): se Cristo vive e venceu a morte, então o sofrimento do outro não pode ser ignorado, porque Deus não ignorou o sofrimento de Cristo e Lhe deu a vitória sobre a morte! A extrema direita, no Brasil e no mundo, tem uma coerência perigosa: a incoerência de se dizer cristã enquanto nega, na prática, os fundamentos do Evangelho. Vejam o que vemos em templos Evangélicos: Nos últimos tempos, Pastores e supostos líderes religiosos com candidatos de Extrema DIreita ajoelhado recebendo “bençãos” de um séquito de apoiadores cujo candidato defende milicianos, que matam e exploram o povo e que tem em sua plataforma política a defesa da exclusão, a legitimação da violência por parte da polícia e o desprezo pela dor dos pobres — e, ainda assim, reivindicam o nome de Cristo como referência de uma suposta defesa da família e da pátria e de Deus! Eles não polarizam. Eles tem apenas um lado! O lado da manipulação da fé e do culto ao poder em nome de uma suposta defesa de Deus (como se Deus precisasse de defesa) da pátria e da família. A pergunta polarizadora é: Que Deus? Que família? E que Pátria? Se essas perguntas não forem honestamente respondidas, aí, sim… mesmo dizendo que crêem, já deixaram de acreditar. Porque isso não é apenas uma contradição política. É uma ruptura espiritual. Não é sem razão que o Rio de Janeiro atravessa as crises que atravessa! Não é por caso que o Brasil, sob Bolsonaro, passou pelas misérias e dificuldades que passou. Isso é fruto da incoerência destes homens que dizendo ser cristãos, agem a favor de Baal ! Tenho convicção de que essa prática religiosa é uma contradição plena com a vontade de Deus e com os mandamentos do Evangelho! Por isso, o Evangelho de hoje não condena Tomé. Pelo contrário: Jesus se apresenta a ele, mostra suas feridas e o convida a acreditar. Mas há um detalhe decisivo. As feridas continuam ali, nas mãos, pés e lado de Jesus. O Cristo ressuscitado não apaga as marcas da cruz. E talvez seja esse o maior ensinamento deste domingo: a fé verdadeira não nasce da ausência de dor, mas da capacidade de reconhecer a dor do outro como lugar de encontro com Deus. Por isso, o chamado que esse domingo nos faz é simples e, ao mesmo tempo, profundamente exigente: Menos milagre e mais misericórdia. É da misericórdia que nasce o Milagre! Menos prova e mais compaixão. É da partilha entre os pobres, com a dor dos oprimidos que nasce a libertação! Menos discurso em púlpitos de Igrejas que se transformam em palanques eleitorais e mais compromisso com políticas públicas que emanciam o povo. Ou seja, menos Welington Bezerra e mais Júlio Lancelotti! Porque, no fim das contas, não é o Tomé que duvida que está em risco. Somos nós — quando deixamos de sentir, de nos compadecer, de nos deixar tocar pela dor do mundo e de sermos misericordiosos. **Toninho Kalunga é Leigo Orionita, membro da Fraternidade Leiga Charles de Foucald e fundador do Núcleo Nacional da Teologia da Libertação POLÍTICA E RELIGIÃO, participa da Paróquia Santo Antonio, na Granja Viana, no Santuario São Luís Orione, em Cotia.

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