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COMUNIDADE: ESPAÇO PRIVILEGIADO PARA VIVER O DIÁLOGO E A PRÁTICA DA CARIDADE – CFE/2021.

Estamos na Quaresma, momento propicio para vivermos de forma mais acentuada o processo de conversão; tempo de voltar-se o coração ao Deus da vida (YAHWEH), como diz do Profeta Joel (Jl 2, 12-18); tempo de buscar a misericórdia do Pai (Sl 50/51) e reconciliarmos com Deus (2Cor 5,20-6,2) em Jesus Cristo com a alegria do jejum, o silêncio (introspecção) da oração e prática a sincera da caridade, conforme ouvimos na Liturgia da Quarta-feira de Cinzas.

O Jejum, a oração e a caridade são os três elementos do processo de conversão postos como desafios paro todos nós nesse tempo quaresmal. Não vamos aqui teologizar sobre todos esses elementos, mas discorrer de maneira singela sobre a caridade. Porém, penso que não há caridade sem a renúncia de algo em nossas vidas (jejum é renúncia) e também não praticaremos uma caridade sincera sem a oração. Portanto, liturgia da Quarta-feira de Cinzas deve ser um mote em nossa penitência quaresmal.

Neste ano e neste tempo quaresmal temos a V Campanha da Fraternidade Ecumênica (CFE/2021), proposta pelo CONIC/CNBB e outras Igrejas parceiras no diálogo ecumênico, cujo tema e lema propostos para nos ajudar na caminhada do processo de conversão nas comunidades são, respectivamente, “Fraternidade e Diálogo: compromisso de amor” e “Cristo é a nossa Paz: do que era divido, fez uma unidade”. Vejamos que o amor é centralidade de nossas ações na construção da Paz e a Paz está na unidade em Cristo. E Cristo que nos é apresentado pelo Texto Base da CFE/2021 é o Cristo dos Evangelhos e não os Cristos caricatos inventados por tantas denominações religiosas de entendimentos e fé distorcidos.

A CFE/2021 nos coloca diante de uma realidade prenha de mazelas sociais, a quais devem ser o pano de fundo, os elementos temáticos de nosso diálogo ecumênico e dos nossos encontros e celebrações neste tempo quaresmal. Destacamos alguns:

• os discursos negacionistas sobre a realidade e fatalidade da pandemia do novo Coronavírus, as tantas vidas ceifadas pela morte; a indiferença pelo governo e por muitos do povo ao apelo pelo isolamento social; a descrença na ciência e na vacina; as mentiras sobe a eficiência de remédios sem eficácia comprovada para tratamento da Covid 19;

• o desemprego em massa, a precarização do trabalho com a uberização, o trabalho home-office, a flexibilização do contrato de trabalho com a diminuição dos direitos trabalhistas e previdenciários, as condições de trabalho das diaristas e empregadas domésticas, a suspensão do contrato de trabalho com redução dos salários, etc.;

• a cultura da violência com o aumento exponencial de mortes por homicídios, a violência contra as mulheres, o aumento do feminicídio (em especial, as mulheres negras);

• a violência contra os jovens (com ênfase aos homicídios de jovens negros pela ação policial);

• o racismo como elemento estruturante da sociedade brasileira, além de ser uma prática constante no comportamento social está nas ações do Estado em especial nas ações da polícia e nas prisões;  

• a violência contra lideres populares envolvidos nas lutas por direitos, terra, casa e trabalho e a criminalização dos movimentos sociais populares;

• a maior fatia dos recursos do Estado destinada aos bancos e à população vulnerável apenas as migalhas do Auxilio Emergencial;

• o aumento da pobreza e aprofundamento das desigualdades sociais e a culpabilização dos pobres pela sua situação de empobrecidos e miseráveis;

• o agravamento das relações sociais, o ódio ao diferente; o acirramento dos conflitos entre os grupos políticos, organizações da sociedade civil e movimentos religiosos; o aprofundamento das intolerâncias com criação de falsos inimigos; as fortes ameaças à democracia com um governo despreparados e autoritário com desprezo pelo povo e a sanha de querer amar a sociedade com o discurso de proteção e segurança pública;

• os pentecostalismos nas igrejas com a disseminação das teologias da prosperidade e uma religiosidade superficial, desconectada dos males da sociedade; reza-se, ora-se e louva-se um deus distante que anestesia as consciências com o êxtase da alienação religiosa de cultos de cura e “libertação (Vide o Ver do Texto Base da CFE2021).

Tudo isso e muito mais que podemos encontrar no Texto Base da CFE/2021 são situações concretas sobre as quais devemos dialogar e, iluminados pela Palavra de Deus e os ensinos da sã doutrina da Igreja exercer a caridade transformadora proposta pela Campanha.

A comunidade na base, lá onde estão todos os problemas que oprimem e dividem o(a)s filho(a)s de Deus, é o local privilegiado para viver a caridade, ou o amor como queira. Caridade não é simplesmente doar uma cesta básica ou outra esmola qualquer aos pobres.  Caridade é ação permanente na vida de cada um(a) de nós que, mediatizada pelo ser humano, nos leva a Deus. Isso é conversão.

A caridade no âmbito da religião das diversas denominações religiosas é instaurar e manter o diálogo permanente, nos unindo naquilo que nos convergem e nos respeitando naquilo que nos divergem, pois somos irmãos e irmãs necessitantes da vida em comunhão. Essa unidade é para um bem maior, qual seja, em Jesus de Nazaré, proclamado o Cristo, promovermos uma sociedade de iguais. A ação política e prol de uma sociedade justa e fraterna é a forma mais sublime da caridade[1], não desprezando, nem deixando de lado os pequenos gestos imediatos de solidariedade para com os mais necessitados.     

Parafraseando o Apóstolo Paulo, no capítulo 13 da Primeira Carta aos Coríntios, podemos dizer: “mesmo que falássemos, rezássemos, orássemos e louvássemos em línguas tantas, nós nada seriamos sem a caridade, sem o amor. Porque o amor não divide, pois em si há aquelas virtudes que nos leva à Cristo, ponto convergente da união entre as pessoas, fundamento perene da Paz”. “A Paz é fruto da justiça” (Is 32,17).  

Nesta caminhada quaresmal rumo à Pascoa do Senhor Jesus temos que fazer memória da cruz de Cristo sem nos esquecer das cruzes cotidianas que enfrentamos: as mazelas sócio-política-econômica-religiosa sofridas pelo povo brasileiro, agora potencializada com a pandemia do Coronavírus e pelo desgoverno do Presidente Bolsonaro. Situação de morte que nos ronda.

E nesse contexto de negacionismo, intolerâncias, disseminação de ódio e violências e, em nome do conservadorismo calcado e razões teologais desprovidas de quaisquer fundamentos bíblicos e pastorais, atacam-se a CFE/2021, à CNBB e as Igrejas promotoras, sem ter conhecimento do conteúdo e dos propósitos da Campanha. A CFE fala de amor, de Cristo, de unidade e Paz dentro do contexto bíblico e da doutrina sã da Igreja Católica da tradição bíblica das demais denominações religiosas integral o diálogo ecumênico. Logo, não há qualquer desvirtuamento teologal.

Assim, como já dito acima, a comunidade é o lugar privilegiado para viver essa experiência dialogal ecumênica e fraternal. Nos grupos de reflexão, círculos bíblicos, e outras formas de reuniões e celebrações na base podemos repetir a experiência dos discípulos de Emaús que, após a tragédia que caiu sobre Jesus de Nazaré, com sua crucificação e morte de cruz, caminhavam decepcionados, desolados e desamparados pelo caminho, até um terceiro caminhante que se pôs a caminhar com eles e dialogar sobre os acontecimentos que culminaram com o assassinato do Mestre de Nazaré. Depois de um certo tempo de caminhada dialogante, no partir do pão tudo, se revela para o triunfo da vida.

Portanto, a morte não tem a última palavra. Assim como Jesus de Nazaré ressuscitou na Pascoa, nós, homens e mulheres de boa vontade que seguimos Jesus Ressuscitado em busca do Sumo Bem, sairemos fortalecidos desse processo de conversão neste tempo quaresmal. Com diz o Texto Base da CFE/2021, na sua Introdução: vamos “redescobrir a força e a beleza do diálogo como caminho de relações amorosas; denunciar as diferentes violências praticadas e legitimadas indevidamente em nome de Jesus; comprometer-nos com as causas que defendam a Casa Comum, denunciando a instrumentalização da fé em Jesus Cristo que legitima a exploração e destruição socioambiental; contribuir para superar as desigualdades; animar o engajamento em ações de amor ao próximo, promover a conversão para a cultura do amor, como forma de superar a cultura do ódio; fortalecer a convivência ecumênica e inter-religiosa; estimular o diálogo e convivência fraterna como experiências humanas irrenunciáveis, em meio a crenças, ideologias e concepções, em mundo cada vez mais plural; e, compartilhar experiências concretas de diálogo e convívio fraterno”[2]. Amém!  

Por Antonio Salustiano Filho (Tonhão)

CEBs do SUL-1.


[1] Frase dita pelo Papa Pio XI, repetida por São Paulo VI e reafirmada pelo Papa Francisco.

[2] Campanha da Fraternidade Ecumênica 2021 – Texto Base, p. 11.

1 Comment

  • Silvia Maria de Andrade Macedo

    A caridade no âmbito da religião das diversas denominações religiosas é instaurar e manter o diálogo permanente, nos unindo naquilo que nos convergem e nos respeitando naquilo que nos divergem, pois somos irmãos e irmãs necessitantes da vida em comunhão. Parabéns Tonhåo!

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