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Reflexões da Palavra | 2º Domingo da Quaresma – Ano B

Leituras: Gn 22,1-2.9a.10-13.15-18 – Sl 115 – Rm 8,31b-34 – Mc9,2-10

Por Quininha Fernandes Pinto, do Regional Leste 1.

Celebramos neste domingo a Transfiguração do Senhor. Já não é possível reconstruir a experiência histórica que deu origem a este relato. Mas podemos reinterpretá-la à luz dos acontecimentos de hoje. Jesus está numa montanha alta com Pedro, Tiago e João. E Jesus “transfigura-se” diante deles. Surge então duas figuras lendárias da história judaica: Moisés – representante da Lei – e Elias o mais querido profeta da Galiléia. E do interior de uma nuvem, surge uma voz que diz: “Este é o meu Filho amado. Escutai o que Ele diz!”. O importante não é acreditar em Moisés ou Elias, e sim ouvir a voz do Filho. Ainda que tenhamos que ouvir a voz da tradição e das instituições, o mais decisivo é centrar a nossa vida no que Jesus disse e fez. Os discípulos gostaram do Jesus que viram: envolto por uma brilhante luz, com roupas alvíssimas, até quiseram armar tendas para ali permanecer – nos narra outro evangelista desta passagem – tamanha a beleza e tranquilidade ali experienciada. Somos também hoje convidados a ver Jesus transfigurado. Acostumamo-nos a vê-Lo radiante e iluminado pela luz da ressurreição, como o Jesus que faz milagres, transforma água em vinho, multiplica pães e peixes, sem a cruz! Mas o Jesus que morreu na cruz por pregar o amor aos pobres, por questionar as injustiças que sofrem, que enfrentou a iniquidade do poder e a hipocrisia dos fariseus, é o mesmo! O Jesus transfigurados/desfigurados do nosso tempo são os mais de 250.000 mortos pelo Covid no Brasil, somado a mais outros tantos milhões que morreram pelo mundo a fora. O Jesus transfigurado de hoje são os desempregados que não têm como prover suas famílias, são as crianças que têm fome e não têm seu futuro assegurado por causa da precariedade da vida que levam. Jesus se desfigura na pobreza, na injustiça, na mentira, na violação dos direitos dos trabalhadores, na ganância dos poderosos, nas múltiplas discriminações para com os diferentes e para com as minorias. Estamos surdos à voz “do Filho amado”.

As leituras desta liturgia nos convidam a ver estas realidades que obscurecem a imagem de Jesus – imagem à qual fomos criados – hoje transfigurada/desfigurada também pela presença da morte, da dor e do sofrimento causados por uma pandemia. Tudo isto nos impede de ver o Jesus iluminado e brilhante que os discípulos viram… Como os discípulos, somos tentados a permanecer na montanha: a rezar, a esperar por milagres… e isso é bom e necessário. Mas devemos também descer à planície… lá onde a vida está sendo ameaçada, ceifada violentamente de forma cruel e vergonhosa. Lá onde a natureza chora pela sua devastação, lá onde os nossos índios são exterminados, lá onde o mal parece se sobrepor ao bem, a injustiça ao amor fraterno…Não podemos nos resignar com tudo isso como se fosse a vontade de Deus… há quem diga até que é castigo d’Ele! O nosso Deus luta contra o mal. Convida-nos a lutar com Ele. A Campanha da Fraternidade Ecumênica de 2021 convida-nos ao diálogo fraterno como compromisso de amor, a respeitar as nossas diferenças religiosas e a unir forças na luta contra o mal, contra esta realidade transfigurante do rosto do nosso Deus. Convida-nos a dar testemunho de unidade no seguimento a Jesus, mesmo na diversidade dessas expressões.

O Cristo transfigurado é a resposta antecipada ao Cristo sacrificado na cruz. O Ressuscitado é o crucificado. Esta é a mensagem da complexa narrativa da Transfiguração. No rosto dos irmãos desfigurados pela soberba do poder econômico e político, esconde-se o rosto de Jesus. Que possamos humanizar o nosso olhar para sermos capazes de perceber isto. Que o Senhor nos ajude.

Que seja assim. Beijos no coração.

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