Reflexões da Palavra | 5º Domingo do Tempo Comum – Ano B

Leituras: Jó 7,1-4.6-7 – Sl 146 – 1Cor 9,16-19.22-23 – Mc 1,29-39

Por Quininha Fernandes Pinto, do Regional Leste 1.

A enfermidade e o sofrimento que acompanham a vida da humanidade geram sempre muita insegurança. Encarnam a nossa fraqueza, a nossa fragilidade, a finitude humanas. Colocam-nos diante do imprevisível, do inesperado, da eventualidade. Algumas passagens bíblicas nos mostram que o povo já procurava respostas para as causas das situações de desgraça e, não raras vezes, atribuiu-se a sua causa a Deus como forma de ferir e castigar a humanidade. Por um movimento espontâneo, o senso religioso das pessoas estabelece uma relação de causa e efeito entre doença e pecado; ainda hoje muitos pensam assim. É o caso do ocorrido com Jó, bastante conhecido no meio religioso. A doença aparecerá um dia como meio de purificação das faltas cometidas, como castigo. No Novo Testamento, ainda persiste essa ideia, mas a reflexão sobre a vinda do Reino de Deus começa a desmistificar tais crenças. Quando os profetas descrevem o advento do Reino, falam de cura das doenças incuráveis, dos coxos que voltam a andar, de cegos que recuperam a visão… de espíritos maus que são expulsos. O Evangelho deste domingo encontra-se neste contexto. Jesus sai da sinagoga, e vai à casa de Pedro, cura a sua sogra, e muitos outros doentes e possuídos por males de todos os tipos… os “demônios” que assolavam e escravizavam o povo de um modo geral! Jesus é apresentado por Marcos como libertador dos males que afligem a humanidade: diferente dos outros evangelistas, aqui é mais ressaltada a figura humana de Jesus! E aponta também a preocupação de Jesus em “ir a outros lugares, às aldeias da redondeza” para curar aqueles que estão afastados, que não fazem parte “grupo” próximo, dos seus seguidores. Vemos aqui que a sua missão dirige-se a todo povo, não apenas aos mais próximos. Nestes tempos de pandemia as leituras nos desafiam a estender também o nosso olhar para além das fronteiras da nossa cidade, do nosso estado, do Brasil e tentar refletir sobre os efeitos mundiais que esta doença nos trouxe. Jesus não se limitou a curar os doentes mais próximos: ele foi até aqueles que não podiam ir até Ele… O mundo está doente. E a doença é uma das experiências mais duras do ser humano. E estamos passando por uma doença desconhecida, mortal, que já levou milhões de vidas, incontáveis sonhos e projetos, causou dor e tristeza a milhões de famílias, interrompeu o cotidiano das nossas vidas. Destruiu a estabilidade familiar, afetou a economia, mudou nossos hábitos, interferiu em todos os níveis de relacionamentos. A pandemia mostrou o nosso lado mais vulnerável, os nossos medos, a nossa ganância, a ambição desmedida, a ausência de empatia com os mais fragilizados do corpo social… o coronavírus veio desmascarar o discurso da fraternidade e da igual dignidade de todos, por parte de muitos. Se por um lado assistimos a um movimento global de solidariedade e ajuda entre os povos, por outro nos é jogado na cara a suprema importância do capital, da economia, dos interesses políticos acima da real importância da vida. Se é verdade que a pandemia mostrou os rostos das desigualdades sociais e a vulnerabilidades do planeta, do meio ambiente, da galopante corrida pela privatização das nossas riquezas… a pandemia mostrou também o interesse em “salvar” a economia e os cofres públicos – jamais fechados para o consumismo pessoal em orgias, festas, o aumento descabido de salários e “compras” de toda ordem… a pandemia mostrou que é verdade que tudo isso faz parte da pauta política que move o nosso Brasil, “adormecido eternamente em berço não tão esplêndido”! Imaginando a cena narrada pelo Evangelho, eu penso que Jesus teria muito trabalho para expulsar os demônios que se revelaram neste contexto de pandemia… penso ainda que Jesus iria a “outros lugares”, lugares estes onde talvez estivessem pessoas doentes como a sogra de Pedro, precisando de serem curadas, para imediatamente colocar-se a seu serviço… Mas imagino também que talvez Jesus não precise “sair da sinagoga” para realizar curas, pois, muitos de nós que dizemos seguir Jesus, não saímos dos nossos “templos”, não nos demos conta que cabe a nós dar alento e esperança aos nossos irmãos e irmãs, sejam eles católicos ou não, brancos ou negros, inaugurando e vivenciando a amizade universal, proposta por Francisco na encíclica Fratelli Tutti. Os demônios que hoje mais contribuem para a disseminação de doenças letais pelo mundo, além da COVID, são: o racismo, a intolerância ao diferente, o machismo, a ambição, a desigualdade social que provoca a fome, o desemprego e a morte. Não tenhamos medo de enfrentar esta reflexão proposta pelas leituras deste domingo. Usando as palavras de Jó: “Não é acaso uma luta a vida do homem sobre a terra?”. Pensemos nisso e que Jesus nos ajude!

Que seja assim. Beijos no coração.

2 Comments

  • Antonio Lima da Silva

    Pertenente reflexão. Contextualizar e saber como os textos bíblicos se articulam com a realidade e vice versa não é tarefa fácil nem comum atualmente no meio cristão. Aqui, vejo muito bem essa articulação, o que deve provocar e questionar nossa prática no seguimento de Jesus. E só é possível isso quando e vive em constante e profunda comunhão com e onde a vida está sendo negada, tirada e indignificada. Assim, a palavra é capaz de ser boa notícia, libertação e salvação no mundo.

  • Nelson do Bonfim batista de melo

    O velho mundo acabou em 12/12/2012,
    Nasceu um novo mundo: Que se Chama Piedogia ou propriedade e piepiedade.
    Essas transformações hão de acontecer, até que os homens e mulheres se convertam assim podemos viver o Amor que dissolve qualquer maldade.

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