A rede do Sínodo e o amor ao planeta

Aloir Pacini, sJ (padre jesuíta e assessor das CEBs/arquidiocese Cuiabá-MT)

Cuia com água ou chicha (tradicional bebida indígena) deve ser elevada para matar a fome e a sede do planeta.

Confira relato sobre as atividades complementares à programação oficial do Sínodo da Pan-Amazônia, que está ocorrendo em Roma. São ações organizadas pela tenda “Amazônia: Nossa Casa Comum”, que envolve diversos organismos, pastorais e iniciativas da igreja, além de movimentos sociais, lideranças indígenas e quilombolas, entre outros. O Sínodo é uma reunião do papa Francisco com centenas de bispos da Pan-Amazônia (Brasil, Venezuela, Colômbia, Peru, Equador, Bolívia, Guiana Francesa, Guiana Inglesa e Suriname) que objetiva refletir e tomar decisões sobre a presença espiritual e social da igreja na região. Acompanhe o relato do dia 09 (ontem).

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Nas místicas e orações procura-se usar símbolos que possam recordar o contexto amazônico. O símbolo deste dia foi a canoa e os remos, que foram lentamente conduzidos pelo corredor da Igreja. Jesus nos convida a remar e lançar as redes para águas mais profundas, atravessar para outras margens.

Não convém remar sozinhos, solitários, é de fundamental importância que possamos remar comunitariamente, um ajudando o outro. A missão não é pessoal, individual, somos chamados a caminhar juntos: “Ninguém larga a mão de ninguém”. O Sínodo nos convida a ter a ousadia de buscar novos caminhos para a Igreja e para uma ecologia Integral.

 

Mártires equatorianos

Pela tarde, na celebração dos Mártires, recordamos Monsenhor Alejandro Labaka (Equador – 21/07/1987) e Ir. Inês Arango Velásquez. Diante da ameaça da invasão pelas grandes empresas, decidiram ir ao encontro da minoria étnica Tagaeri, na região do rio Curaray.

Os Tagaeri não conseguiram saber as intenções dos missionários, pois viviam na tensão com os invasores. Os dois corpos dos missionários foram encontrados caídos ao lado da cabana Tagaeri. Ele tinha 15 lanças presas ao corpo; ela, três. Na catedral de Coca (Orellana-Equador) encontram-se os túmulos desses missionários: “Não existe amor maior do que dar a vida por aqueles a quem se ama” (Jo 15,13).

O papa disse hoje que o Sínodo tem a alegria do Espírito Santo porque os sinodais são missionários, vivem nos lugares mais distantes, na periferia, em geral na Amazônia. O convite para uma Igreja em saída das sacristias incomoda a todos, tanto os que ficavam tranquilos na sacristia quanto os que buscavam a Igreja só para os sacramentos e agora não encontram o missionário, porque existem outras aldeias que necessitavam deles e estes mesmos precisam fazer o papel de cristãos, agir como tais, não só exigir que o padre o faça.

 

Do Vaticano II ao Cimi

Nesta tarde construímos também uma rede e compreendemos como é importante a participação de todos. Tudo isso começou lá no Concílio Vaticano II (1962-1965) e os jesuítas em Mato Grosso souberam responder profeticamente, fechando o Internato de Utiariti para ir morar com os indígenas.  

Com isso, surgiu o Conselho Indigenista Missionário (Cimi), pois os missionários estavam morando com os indígenas nas suas aldeias e sabiam dos seus problemas. 

Claro, não demorou para que os missionários e índios passassem a reivindicar seus direitos à florestania, e a serem mortos no embate contra o extrativismo sem controle.  

Essa compreensão de trabalho em rede, foi assumida pela Rede Eclesial Pan-Amazônica (Repam), que se utiliza da institucionalidade de cada Igreja local, das Congregações Religiosas, da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB), do Conselho Episcopal Latino-Americano (Celam), das Cáritas etc.

Construção da rede antecedeu Seminário que falou sobre índios livres (isolados).

A rede é misteriosa, ela tem seus nós que são importantes para que possa unir os fios, recolher os peixes quando é para pescar, mas também sustenta o ser humano quando quer ser uma rede para dormir. Para muitas etnias é na rede que se dá o mistério do casamento e também do sepultamento, pois também sepultavam seus falecidos envoltos em redes ou em potes de barro.

 

“Quando uma vez um índio usou a flecha contra um branco, ele voltou para a cidade e trouxe um monte de gente para arrasar a aldeia. Agora nós temos que lutar de outra forma, vindo para o Sínodo da Amazônia”, disse Kassupá

 

Os próprios índios falaram como respeitam a vontade dos índios livres, isolados ou autônomos de ficarem longe de nossa sociedade. Por isso perguntam: “Como vamos proteger os livres diante dos grandes projetos do governo em suas terras?”.

Diante da proposta de um da plateia dos índios usarem as flechas contra os brancos, José Luiz Kassupá foi claro, pois sabe que falar a partir de minorias: “Quando uma vez um índio usou a flecha contra um branco, ele voltou para a cidade e trouxe um monte de gente para arrasar a aldeia. Agora nós temos que lutar de outra forma, vindo para o Sínodo da Amazônia.”

No fim, fizeram um apelo para que a Europa não compre produtos que venham com o sangue dos povos originais da Pan-Amazônia.

José Luiz Kassupá (Rondônia).

A periferia no centro

O papa Francisco está colocando a periferia no centro. A Pan-Amazônia agora não chega da periferia para ser explorada, mas como um bioma, um território eclesial, um lugar teológico onde se expressa a presença viva de Cristo pela fé das comunidades eclesiais que ali, na base, se encontram para rezar, mesmo sem padre. O fogo do Espírito é que nos desaloja dos comodismos para servir as periferias, as fronteiras deste mundo.

Não por acaso, na missa de abertura o papa mencionou a palavra fogo 13 vezes, tanto para comentar a necessidade de reacender o Dom do Espírito de Deus recebido pelos cristãos para a ação pastoral da Igreja Católica, quanto para criticar as queimadas criminosas e gananciosas na Pan-Amazônia.

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