O lavar os pés uns dos outros é o gesto de vida. Sair dos Egitos da nossa vida e partir para a caminhada libertadora.

“Eu lhes dou um novo mandamento: que vocês se amem uns aos outros como eu os amei.

O mundo vai saber que vocês são meus discípulos e discípulas se se amarem uns aos/às outros/as” (Jo 13, 34- 35).

Queridos irmãos e irmãs,

É difícil expressar a alegria (podemos dizer mesmo a felicidade) que podemos experimentar na vida se levamos a sério essas palavras de Jesus, acreditamos que elas se dirigem a nós, a mim e a vocês, pessoalmente e, ao mesmo tempo, nos são dadas como “mandamento”, que na Bíblia, não significa apenas uma ordem dada a alguém, mas é orientação, ou rumo que devemos dar à nossa vida. Talvez alguém estranhe que o amor possa ser objeto de mandamento. Como pode uma pessoa mandar outra amar?

Será que Jesus seria tão ingênuo que só deixou aos discípulos e discípulas esse mandamento e esse mesmo foi o que menos as Igrejas se preocuparam em seguir? Parece que aí ele imaginou: Eles vão ter alguma dificuldade para viver isso que eu estou mandando. Muitos só ligam amor cm paixão e enamoramento, o que é bom, mas é pouco. Não tomam o amor como forma de viver e de ser com os outros, mesmo por quem a gente nunca se apaixonaria. Mas, já sei. Vou deixar um instrumento ou ferramenta para que eles (meus discípulos e discípulas) possam verificar como está sua capacidade de amar. Assim como o termômetro mede febre e o aparelho de pressão diz a temperatura, vou deixar um sinal e instrumento que vai medir a expressão do seu amor. E aí deixou a ceia como sinal do maior amor e carinho. O evangelho que ouvimos nessa noite começa dizendo: “Tendo amado os seus que estavam no mundo, amou-os até o fim, ou seja, foi até o fim do amor, foi até onde o amor pode ir”. E tendo dito isso, o evangelho diz: E aí se colocou à mesa com os seus discípulos (e discípulas) para cear.

Não sei se alguém que entrar hoje em uma Igreja (Católica ou evangélica) e assistir uma missa vai poder descobrir nessa cerimônia a ceia de tanto amor que Jesus quis que ela fosse. Será que nossas celebrações continuam a ser esse rito de amor que Jesus pensou em deixar para nós?

Se olhamos o evangelho e ouvimos que ele ali lavou os pés dos seus discípulos, é provável que os comentadores nos falem: Que humildade. Naquele tempo, quem lavava os pés dos senhores eram os escravos. E os discípulos deviam estar com os pés bastante sujos, vindos da Galileia como peregrinos em Jerusalém, depois de dias e dias de estrada e andando a pé… Mas, Jesus não quis dar exemplo de humildade. Claro, ao lavar os pés dos discípulos, ele antecipou o gesto da cruz ao se despir do manto e se estender aos pés de cada um deles. Há poucos dias, no Vaticano, em um encontro com os dirigentes do Sudão do Sul, o papa Francisco aos 82 anos, saiu do seu lugar, pediu licença e se ajoelhou diante de cada um deles e de uma mulher lhes beijando os pés. Ele não lavou os pés, mas os beijou, indicando o mesmo sentido que Jesus quis dar ao seu gesto. Gesto de intimidade, de amor e carinho. É difícil até hoje, na cultura oriental, um homem se inclinar diante de outro e lavar os seus pés. E o evangelho insiste nos detalhes: enxugou-os com uma toalha. Segundo o quarto evangelho, isso aconteceu dois ou três dias depois que o próprio Jesus teve seus pés ungidos por uma amiga a qual ele, Jesus, queria muito bem, Maria de Betânia, irmã de Lázaro. Ela ungiu seus pés com perfume muito precioso e os enxugou com seus cabelos. E aí depois de ungir os pés de Jesus, o evangelho diz que a casa toda se encheu com aquele perfume (Jo 12, 1 – 11). Jesus, depois de lavar os pés dos discípulos também faz a casa se encher com um perfume precioso: a sua palavra de amor.

O evangelho de João dedica três capítulos às palavras de Jesus depois da ceia. E que palavras de carinho. É difícil imaginar, hoje, um pastor ou padre que tivesse coragem e condições de afirmar aquilo às pessoas com as quais celebra: “Assim como o Pai me ama, com esse mesmo amor divino, eu amo vocês… Não chamo vocês de servos, mas de amigos… Eu quero lhes dar minha alegria. Que o amor com o qual eu amo vocês, esteja em cada um e assim vocês se amem. Ninguém tem maior amor do que a pessoa que aceita dar a vida pela pessoa que ama… Eu deixo a vocês o meu Espírito (o meu sopro mais íntimo)”…. Como ouvir essas palavras tão íntimas e carinhosas, como se ouve uma pregação doutrinal…

E nós? Será que nos enchemos assim de amor e não de qualquer amor, mas do amor divino para nos colocarmos na ceia de Jesus? Será que as pessoas que frequentam e participam de nossas missas podem perceber que a ceia que celebramos é expressão profunda desse amor divino de Jesus e que nós aceitamos viver e manifestar?

Com essa celebração da Ceia do Senhor, a nossa Igreja inicia as celebrações da Santa Páscoa neste ano de 2019. Os antigos pais da Igreja chamavam a celebração dessa noite que abre o Tríduo Pascal de “A Páscoa da ceia”. Na primeira leitura escutamos do livro do Êxodo o relato da ceia pascal que Deus mandou as famílias dos hebreus celebrarem para sair da escravidão do Egito. A ceia pascal foi uma ordem de Deus. Ele não perguntou se o povo queria ou não. Ele mandou: façam a ceia e como um rito de partida, isso é, de Páscoa. Hoje, é o mesmo Deus libertador que nos diz: façam a ceia pascal da nova aliança para uma Igreja em Êxodo, em partida permanente. Ele não quer saber se somos conservadores ou progressistas, se votamos pela democracia ou na extrema-direita. Ele nos manda sair de nós mesmos, sair dos Egitos da nossa vida e partir para a caminhada libertadora. A preocupação com a vida do povo tem de ser o pano de fundo da celebração eucarística.

A Campanha da Fraternidade sobre Políticas Públicas não é algo externo à fé. Não é apenas uma forma da nossa Igreja dialogar com o mundo atual. Para a fé bíblica, é a realidade que está por trás dos sacramentos. Na carta aos coríntios que escutamos como 2ª leitura, Paulo insiste que a ceia do Senhor só é celebrada dignamente se se baseia na solidariedade e uns pensam uns nos outros e não cada um se apressa em comer, enquanto o outro passa fome (1 Cor 11, 21). É essa a realidade que faz Paulo lembrar o que Jesus fez na sua última ceia.

O lavar os pés uns dos outros é o gesto de vida que a eucaristia deve representar, significar e expressar. Por mais bonito e comovente que seja o rito, se ele não corresponde à verdade da qual ele fala, se transforma em uma mentira, como seria um abraço ou carinho feito em alguém que não corresponda a uma verdadeira afeição e a entrega da nossa vida uns aos outros como foi o caso de Jesus.

Jesus conclui o lava-pés afirmando: Isso que eu fiz, façam vocês também uns aos outros, para que possam ser felizes (Jo 13, 15). A Igreja nunca interpretou que Jesus mandou a gente ficar repetindo diariamente o lava-pés e sim reproduzir na vida concreta o serviço amoroso e consagrado que cada eucaristia significa. Que Deus liberte nossas celebrações da camisa de força dos ritos formais sem coração e nos faça viver a páscoa nova de um amor cada vez mais generoso e aberto. Como diz a carta de João: nós somos as pessoas que cremos no amor.

Marcelo Barros

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